30/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 30/07/2018 00:00 -03

Themis Reverbel da Silveira: A médica que continua incansável aos 80 anos

Ela é especialista em gastroenterologia e se tornou referência no Rio Grande do Sul: "Até hoje, a gente tem que trabalhar mais e melhor para mostrar que somos iguais aos homens."

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Themis Reverbel da Silveira é a 145ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 mulheres no HuffPost Brasil.

Aos 80 anos, a médica gaúcha Themis Reverbel da Silveira tem uma rotina de quem está no auge da carreira. Diariamente, sai de casa às 7h30 e não retorna antes das 20h. Divide seu tempo entre o Hospital da Criança Santo Antônio, onde é diretora, duas universidades - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) -, onde dá aulas e orienta alunos de pós-graduação, e a agenda do consultório.

Filha de uma família tradicional de São Gabriel, no pampa gaúcho, Themis veio sozinha, com apenas nove anos, para um colégio interno da capital. Formada pela UFRGS em 1964, estava nas primeiras levas de mulheres a concluírem o curso de medicina no Rio Grande do Sul. De 100 alunos, "cinco ou seis" eram mulheres. Lembra até hoje dos trotes a que foi submetida no começo da faculdade. "Me obrigavam a servir cafezinho no centro acadêmico, descalça, cantando: 'medicina é papafina, não é coisa pra menina'. Eu tinha uma raiva... aquilo me acompanhou por anos".

Sou feminista de carteirinha. Mas realizada mesmo é quando eu chego em casa e vejo meus três filhos.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Themis fez residência e mestrado em gastroenterologia, e o fígado é sua especialidade.

Por três anos, Themis cursou teatro em paralelo à medicina, até que precisou se decidir por uma carreira. Preferiu a medicina, mas um tanto desgostosa. "Era só teoria, a gente não tinha contato com paciente, eu achava aquilo muito chato". Então, trancou a faculdade e foi passar um ano na França. "Estudei música medieval na Sorbonne, uma coisa mucho loca". Ao mesmo tempo, começou a frequentar o hospital Saint Louis, convidada por um médico conhecido. "Em Paris, vi meus primeiros pacientes. Me apaixonei, voltei e retomei o curso".

Nunca tive cerceamento nas coisas que fiz por ser mulher. Mas, até hoje, a gente tem que trabalhar mais e melhor para mostrar que somos iguais.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Filha de uma família tradicional de São Gabriel, no pampa gaúcho, Themis veio sozinha, com apenas nove anos, para um colégio interno da capital.

Themis fez residência e mestrado em gastroenterologia, e o fígado é sua especialidade. Tornou-se uma referência na área no Rio Grande do Sul. Na década de 1970, fundou, junto com outros cinco médicos, a gastroenterologia pediátrica no Brasil. E, nos anos 1990, implantou o primeiro programa de transplante de fígado para crianças da região Sul (e segundo no Brasil) no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Uma vez, quis fazer estágio no Pronto Socorro, e não deixaram porque não tinha banheiro para mulher médica.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Tornou-se uma referência na área no Rio Grande do Sul.

No doutorado, ela resolveu estudar "uma coisa nova": genética, área que o currículo da medicina não incluía no seu tempo de aluna. Procurou uma das maiores autoridades do Brasil no tema, o professor, Francisco Salzano, na faculdade de Biologia da UFRGS, e ele colocou à prova a obstinação da médica. "Com mais de 40 anos, tive de voltar para o terceiro ano da faculdade de medicina para estudar genética. Depois, ele me mandou fazer uma especialização. Só dois anos depois, ele me aceitou".

Hoje, o laboratório de pesquisa experimental de fígado que ela coordena na FFCMPA é recheado de aquários. Os zebrafish são o objeto das pesquisas, pois têm grande semelhança com os seres humanos em termos de genética e sistema imunológico. "Eles vivem dois a três anos, e cada peixe fêmea bota 200 ovos a cada três dias, então, podemos estudar várias gerações".

Eu brigo muito, mas o problema são as pessoas. O ego masculino ainda é uma coisa respeitável.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Na década de 1970, fundou, junto com outros cinco médicos, a gastroenterologia pediátrica no Brasil.

Há quatro anos na direção do Santo Antônio, hospital que atende entre 4 mil e 5 mil crianças todo mês apenas na emergência, ela se orgulha de ter criado o serviço de medicina fetal, que diagnostica e trata problemas desde o pré-natal e acompanha mães e filhos após o nascimento. São realizadas, por exemplo, cerca de 35 cirurgias de cardiopatias congênitas por mês, sendo que a metade dos pacientes é do interior ou de outros Estados. De personalidade muito prática e dona de uma indisfarçável vocação para dar ordens, ela não tem medo de conflitos. "No Clínicas, meu apelido era Tremis. Não sei por quê, eu me acho uma flor de maracujá. Eu brigo muito, mas o problema são as pessoas. O ego masculino é uma coisa respeitável".

Acho que falhei com meus filhos em algumas coisas. Mas nunca menti para eles. Mamãe adora trabalhar.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente ela está na direção do Santo Antônio, hospital que atende entre 4 mil e 5 mil crianças todo mês apenas na emergência.

Casada duas vezes, Themis teve três filhos. "Comecei tarde. Eu não conseguia casar, ficava noiva e desmanchava, porque não sentia que tinha um companheiro, até que achei". O primeiro marido era carioca e sete anos mais novo do que ela, o que assustou a tradicional família do interior. O primeiro filho veio aos 32 anos - o terceiro, já do segundo marido, aos 42. Questionada sobre como foi criar os três meninos enquanto trabalhava e estudava, incluindo temporadas fora do Brasil, ela não esconde: "acho que falhei em algumas coisas. Não tinha tempo para levar para cá e para lá. Nos sábados, eu os deixava o dia inteiro no clube. Mas nunca menti para eles. Mamãe adora trabalhar, e pronto".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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