29/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 31/07/2018 17:48 -03

Ilka Cyana: Ela quer mostrar o valor da quebrada e da cultura de Salvador

Estudante criou marca de camisetas que valoriza o dialeto popular e busca carreira de modelo para expressar suas referências: "Quero que as pessoas usem essas camisas, quero algo de identidade."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ilka Campos é a 144ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Exala vida. Passa a mão na cabeça de cabelos raspados com frequência, como se mexesse nas próprias ideias. E são muitas. Muitas mesmo. Diz que quer varias coisas, mas que aprendeu a esperar o tempo de realização de cada uma delas. Mas é aquilo: esperar não significa ficar parada. Isso ela nem conseguiria fazer. Quer criar. Criar muito. Conhecer, viver. Hoje, o foco é modelar. Por isso deixou sua terra natal tão amada, Salvador, e deu com as caras na "cidade grande".

Está em São Paulo por escolha, por acreditar que as oportunidades são diferentes. Mas o coração, as referências, a vibração e tudo que ela traz tem outro endereço. Algo que é muito mais forte do que um CEP. Ou o nome de uma rua. Está no sangue. E na alma. "Salvador é meu país, minha nação. Tudo que eu faço tem relação com Salvador, minhas referências... É uma natureza humana que não tem em lugar nenhum."

Eu sou da periferia, sou da quebrada, nasci na Liberdade e lá a fala, a palavra, é como Salvador, é muito forte e sendo de salvador é inerente todas essas palavras.

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Ilka nomeou o próprio trabalho como "antropologia linguística" -- e não para com as mãos quando fala sobre ele.

llka Cyana Campos, 25 anos, quer deixar essa marca por onde passa. A marca de Salvador, da sua origem e sua essência. E a marca criada por ela. Mas uma coisa realmente está totalmente misturada à outra. Ilka lançou a marca Cria com sua linha de camisetas com gírias regionais de Salvador com o objetivo de valorizar o dialeto popular da cidade. É um trabalho que ela nomeou de antropologia linguística. A primeira estampa, lançada no início deste ano, foi a "Dkeké". "É uma brincadeira que comecei no susto mas de uma vontade de poder expressar minha criação e as coisas que eu valorizo. Eu sou da periferia, sou da quebrada, nasci na Liberdade e lá a fala, a palavra, é como Salvador, é muito forte e sendo de salvador é inerente todas essas palavras. Dkeké é uma palavra super usada lá que é uma derivação do 'de quebrada', é um 'estou só no 'sossego'".

Contou com o apoio de amigos e lançou a marca e a primeira estampa. Conseguiu uma boa aceitação e logo criou mais dois modelos. "Milgrau" e "A Própria". "A Milgrau é uma coisa que todo mundo fala que define algo que é muito foda, quase um 'do caralho'. A própria já não é tão regionalista, é como você enxerga e se autodenomina. É como se fosse um 'fulana'. Miserê é a próxima que vou fazer, vem de miserável que é uma pessoa foda, aquela pessoa, entendeu?" Sim. ficou claro.

Apresento a camisa como antropologia linguística e a coleção foi pensada para valorizar o dialeto popular de Salvador e trazer a linguagem como patrimônio cultural.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A ideia de criar algo no mundo da moda era um projeto que Ilka amadurecia há algum tempo.

Ilka gosta de brincar com essas coisas do cotidiano, do dia a dia e levar para as camisas. O trabalho parte da vivência mesmo, de ouvir e perceber que há um significado maior ali e que faz sentido para muitas outras pessoas - e não precisa ser de Salvador para compreender. "Claro que tem gente que não conhece Salvador, o dialeto. Mas fiz uma tag para explicar e apresento a camisa como antropologia linguística e falo que a coleção foi pensada para valorizar o dialeto popular de Salvador e trazer a linguagem como patrimônio cultural. Apresento com isso para a pessoa sentir, compreender a proposta."

Até mesmo o nome da marca nasceu dessa brincadeira e dessa observação dos espaços em que frequenta. Não poderia ser diferente mesmo. "Queria uma coisa pequena. Um dia fui no comércio da Liberdade, passei no mercadinho e um cara cumprimentou o outro: 'E aí minha cria?' Pra mim, a conotação vai para além do ser cria de algum lugar, faço ligação com criativa, cobra criada, então acho que a palavra me remete a vários outros significado, e usei a cria para isso."

Quero que as pessoas da periferia usem essas camisas, quero algo de qualidade e identidade.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

A ideia de criar algo na moda era um projeto que Ilka amadurecia há algum tempo. Após cursar arte e começar a faculdade moda, ela sabia que queria fazer algo com roupa e que unisse todas essas suas referências.

Além disso, quer atingir um público que tenha identificação com o trabalho e com o lugar de onde ela vem. "Quero que as pessoas da periferia usem essas camisas, quero algo de qualidade e identidade, mas quero alcançar pessoas que gostem da moda mas que não se aproximem porque ela é cara e sei que posso brincar com estilo, expressão, comportamento que é tudo que a moda também é. Então acho que eu misturo tudo isso."

É um passaporte estar nesse lugar de modelo porque gosto de pensar que posso usar minha estética e quem eu sou para ganhar dinheiro com isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Em Salvador fez alguns trabalhos isolados como modelo, mas quer agora priorizar mesmo a profissão. E São Paulo pode ajudar nisso.

E é assim que pensa em sua carreira como modelo também. Em Salvador fez alguns trabalhos isolados, mas quer agora priorizar mesmo a profissão. "Venho para são Paulo investir nisso porque é um passaporte estar nesse lugar de modelo porque gosto de pensar que posso usar minha estética e quem eu sou para ganhar dinheiro com isso, mas gosto de pensar nas possibilidades, buscar os caminhos dentro da moda sempre trazendo mais a verdade do que a superficialidade. Tô com sangue no olho."

Posso brincar com estilo, expressão, comportamento que é tudo que a moda também é. Então acho que eu misturo tudo isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Dkeké é uma palavra super usada lá que é uma derivação do 'de quebrada', é um 'estou só no 'sossego'".

Em nome disso, ela topou até ficar longe do mar. E das cores que conhece. Dos cheiros e dos sons que está habituada. Brinca que vai procurando em São Paulo qualquer coisa que traga alguma semelhança com isso tudo. Lembra, por exemplo, de quando passou um tempo em São Paulo em 2015 e seu refúgio era o barulho alto do ar condicionado que ficava do lado do seu quarto. "Eu falava que estava perto do mar [risos]. E foi um acalanto. E vou vendo essas coisas. Não me faz não ter saudade de Salvador, mas [mostra que] Salvador está vivona dentro de mim e de boa".

Isso nem precisa falar. E é o que ela quer levar. Essa marca. Essa Cria. Ela mesma. A Própria.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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