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28/07/2018 15:45 -03 | Atualizado 28/07/2018 19:49 -03

Helena Nader: 'Recursos para ciência e educação não são gastos, são investimentos'

Presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência diz que categoria exige a revogação do teto de gastos.

Helena Nader é professora da Unifesp e presidente de honra da SBPC.
Unifesp
Helena Nader é professora da Unifesp e presidente de honra da SBPC.

A emenda do Teto de Gastos compromete o futuro do País e deve ser revogada. Essa é a avaliação de Helena Nader, professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente de honra da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), sobre a emenda 95/2016, proposta pelo governo Michel Temer e aprovada pelo Congresso Nacional.

O texto, que prevê o congelamento de gastos públicos pelos próximos 20 anos, impôs cortes em áreas como saúde, educação, ciência, tecnologia e inovação. Os recursos para a ciência, que já vinham caindo nos últimos anos, foram reduzidos ainda mais, abrindo uma grave crise nas universidades públicas federais e nos institutos de amparo à pesquisa.

Segundo Nader, "a situação é crítica e dramática".

"Todos os países desenvolvidos e até mesmo países em desenvolvimento encaram educação e ciência como aposta no futuro", diz a professora, em entrevista ao HuffPost Brasil. "Não aceitamos continuar na crise em que estamos. Esta situação obrigatoriamente vai ter que ser revertida se o Brasil quiser continuar sendo uma nação."

Neste domingo (29), a partir das 10h, cientistas e divulgadores científicos irão sabatinar (pré) candidatos à Presidência pelo projeto Conhecer - Eleições 2018, que tem o objetivo de discutir a importância da ciência para o desenvolvimento do País. O evento é uma parceria do ScienceVlogs Brasil com o HuffPost Brasil.

A SBPC, diz Nader, defende que investimentos em ciência e educação sejam tratados como projetos de Estado. Que passem a ser encarados como investimento, e não como gasto. É esse compromisso que a categoria espera do novo presidente do Brasil.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Quais compromissos com a ciência devem ser assumidos pelos candidatos à Presidência da República?

Helena Nader: O que a gente espera como compromisso é que seja revertida a emenda constitucional 95 [que instituiu o teto de gastos]. Nós da SBPC e toda a comunidade científica entendemos que, se o País não compreender que educação e ciência são projetos de Estado, nós continuaremos andando para trás. Recursos para ciência e educação não são gastos, são investimentos.

Todos os países desenvolvidos e até mesmo países em desenvolvimento – e eu cito China, Índia, Rússia, África do Sul – encaram educação e ciência como aposta no futuro. E ciência é algo que leva tempo para acontecer, assim como tecnologia e inovação.

Se o País não compreender que educação e ciência são projetos de Estado, nós continuaremos andando para trás. Recursos para ciência e educação não são gastos, são investimentos.

Então a nossa plataforma é essa, não aceitamos continuar na crise em que estamos no que diz respeito aos investimentos em ciência e educação. É muito grave. Esta situação obrigatoriamente vai ter que ser revertida se o Brasil quiser continuar sendo uma nação.

O que pode ser feito?

Tem muito lugar de onde tirar dinheiro, é só fazer uma boa avaliação. Os juros da dívida, por exemplo, têm que continuar do jeito que estão ou podem ser renegociados?

Existem alternativas, e é isso que a gente espera de um presidente eleito. É para atender o povo, não para servir a grupos especiais.

Quando surgiu essa percepção, na política nacional, de que os recursos para ciência e educação são gastos, e não investimentos?

Isso já vem de alguns anos. A queda no montante investido nessas áreas começa logo depois do governo Lula. Mas eu vou ser franca: o País não tem uma política de Estado para essas áreas. Nunca teve. A gente fica à mercê de quem está no poder.

O ex-presidente Lula fez um investimento maior, e o mundo inclusive achou que o Brasil estava entrando em um novo patamar. E então de repente começam os cortes nas áreas estratégicas, que são ciência e tecnologia, sem contar educação. E os cortes começam a ser cada vez maiores, aumentaram com o agravamento da crise. Até que no governo do presidente Temer tivemos a emenda constitucional que congelou os gastos.

Não adianta eu dizer que já vi outras crises. Para o jovem, esta é a primeira. E é uma crise tão grave que eles estão perdendo a esperança. Ninguém pode acabar com a esperança de alguém.

Então a situação é crítica e dramática. Ou se reverte este quadro ou nem exportador de commodities nós vamos poder continuar sendo. Porque há muita ciência nessas áreas também.

Achar o pré-sal foi resultado de décadas de investimento. Está certo que isso tem um impacto ambiental, mas todas as energias têm impacto ambiental, maior ou menor, o que é preciso fazer é mitigar esses impactos. O petróleo ainda é a energia do mundo, e foi o Brasil que conseguiu a tecnologia para atingir o pré-sal. Então falta visão estratégica, falta uma percepção do quanto a ciência já rendeu para o País.

Que outros exemplos a senhora citaria?

O Brasil deu um show para o mundo em relação à síndrome do zika vírus. O zika já existia, já estava no mundo, e ninguém tinha feito a relação entre o vírus e a microcefalia. Mas o Brasil tem uma ciência forte nessa área, e nós resolvemos e mostramos para o mundo, publicamos nas revistas mais importantes. Nós temos capacidade científica.

Outra coisa. Todos dizem que o Brasil vai ser o País da segurança alimentar. Sem ciência? Sem investir na Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária]? Sem investir nas escolas de agricultura?

Falta visão estratégica. Falta uma percepção do quanto a ciência já rendeu para o País.

Temos a Embraer. Basta ver o orgulho que todo brasileiro tem de ter uma Embraer. Ela nasceu da ciência, nasceu da Escola de Engenharia do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] e de outros engenheiros e profissionais e hoje é uma empresa de classe mundial. O Brasil precisa decidir o que quer ser.

É triste assistir a essa depredação do patrimônio. A falta de sensibilidade é total. É falta de visão de nação. É falta de um projeto de Estado, eu insisto nisso. Nenhum de nós está pedindo benesses próprias. Ninguém está pedindo aumento de salário, é dinheiro para poder trabalhar.

A crise também afeta as bolsas de pós-graduação. Que análise a senhora faz desse quadro?

É uma tragédia. A ciência brasileira cresceu, o que é bom para o País. Antigamente, tudo era centrado no eixo Rio-São Paulo-Minas-Rio Grande do Sul, mas hoje a ciência está espalhada pelo Brasil, todo o mapa do País tem programas de pós-graduação. E para aprovar um programa de pós-graduação é preciso ter um lastro científico.

Então o Brasil ficou mais igual. Claro que ainda muito desigual, mas hoje temos programas de pós-graduação na região amazônica, temos programas de excelência no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste. Mas isso vai retrocedendo porque, sem investimentos, como manter a qualidade da ciência? Sem bolsa, como sobreviver?

Ou se reverte este quadro ou nem exportador de commodities nós vamos poder continuar sendo.

O número de estudantes que não têm bolsa é muito alto. Quando você vê que, em meio ao crescimento, o número de bolsas é o mesmo, você percebe que há uma demanda reprimida. E as bolsas não estão sendo corrigidas [pela inflação]. Muitos jovens chegam à conclusão de que não dá para viver e vão buscar outra coisa. Outros vão embora para o exterior. Também quase não há mais bolsa de pós-doutorado, são muito poucas.

Eu ainda não joguei a toalha porque eu acredito nos brasileiros. O brasileiro é um povo muito inteligente, capaz e dedicado. Mas, para o jovem, é muito difícil. Não adianta eu dizer que eu já vi outras crises. Para o jovem, esta é a primeira. E é uma crise tão grave que eles estão perdendo a esperança. Ninguém pode acabar com a esperança de alguém.

Conhecer - Eleições Presidenciais 2018

Dia 29 de julho, pesquisadores e divulgadores científicos vão entrevistar os presidenciáveis para debater o futuro da ciência no desenvolvimento do País.

Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciência (Facebook) e HuffPost Brasil