28/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 28/07/2018 00:00 -03

Lili Almeida: O despertar da empreendedora por meio da culinária Afro-Brasileira

A baiana encontrou na cozinha e no dendê a chave que faltava para propagar as ideias de seus ancestrais: "Eu tenho a obrigação de falar sobre a nossa temática, de falar o nome dessas mulheres."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Lilian Almeida é a 134ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O Dendê é o ingrediente mais simbólico da culinária afrobaiana, é ele que traz o aroma penetrante, o sabor especial e a cor sofisticadamente brilhante que só a nossa culinária tem. A técnica de extração do azeite parte do artesanato puro, de uma época em que a polpa do Dendê era retirada do fruto, cozida e pilada. Até o pilão ser substituído pelo rústico avanço da roda de tração animal e em seguida pela tração mecânica. O azeite fino e transparente é chamado de Flor e a borra é o Bambá.

Quando as mulheres negras adentraram às cozinhas das casas grandes, paulatinamente foram introduzindo o Dendê no lugar da oliva portuguesa e com maestria e sofisticação transformaram uma mistura nada harmônica de culturas, em uma cozinha incomparável, que se diferencia de todas as outras do mundo tornando-se insuperável, e dando base ao sistema alimentar baiano que é representado pela fusão do português, do indígena e do africano.

"Sem Dendê, não tem Axé". As palavras são da cozinheira Lilian Almeida, de 37 anos. É dela também a escolha de adotar a maiúscula que vem na primeira letra do nome do óleo, dando ares de substantivo próprio para a especiaria que é tão individual e específica.

Comecei a cozinhar e a gostar muito da coisa. Sentia que aquilo ali estava me ligando à minha família, que estava longe de mim.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Iniciou, por conta própria, uma pesquisa chamada AfrikanaBahia, na qual estuda as diversas áreas de interseção entre a África e o estado da Bahia.

Quem ouve a fama dos sabores proporcionados pelos pratos da Casa da Dona Lili, não imagina que a ideia de se aventurar pela cozinha só veio na vida adulta. Ela cresceu, brincando e catando mariscos, na mesma casa onde o estabelecimento funciona, na Ladeira do Porto do Bonfim, às margens do mar da Ribeira, na Cidade Baixa de Salvador.

Mesmo que a mãe e a avó fossem cozinheiras de mão cheia, passava batido pelo preparo. Só foi tomar gosto pela coisa quando a necessidade chegou: após alguns anos estudando Publicidade e Propaganda na faculdade, recebeu uma proposta de emprego em São Paulo. Se mudou e ao sair das asas das mulheres da sua vida, teve de aprender a se virar sozinha. E a cozinha estava na lista das coisas nas quais teve de mergulhar.

"Ligava para minha mãe e perguntava como fazia. Comecei a cozinhar e a cozinhar bem, comecei a gostar muito da coisa. Sentia que aquilo ali estava me ligando à minha família, que estava longe de mim", conta, em entrevista ao Huffpost Brasil. Gostou tanto que até no trabalho que tinha à época, de produzir shows e artistas, dava um jeito de pôr a mão na massa, fazendo a comida que era servida nos camarins.

Eu senti que aquilo dali era eu, que aquilo ali era a minha história.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

O relacionamento ficou sério e ela não teve mais como fugir. À época vegetariana, frequentava o restaurante do gênero Apfel. Numa dessas idas ao estabelecimento, conheceu o dono do lugar e, no dialeto baiano, queixou uma vaga de emprego. "Falei para ele que eu não tinha experiência nenhuma, mas que eu era boa de aprender e que queria muito uma oportunidade". O papo – que aconteceu há 13 anos – colou e, desde então, a cozinha é o lugar que Lili ocupa.

Casou, teve uma filha, se separou e decidiu que era hora de voltar para casa dos pais: "Fiquei cheia de questões, ia de lugar nenhum para lugar nenhum, perdi minha liberdade, virei mãe solteira, aquela agonia toda. Até que eu falei: Agora tenho que organizar a minha vida". Pediu a benção da mãe, que a concedeu, e foi estudar gastronomia na única escola de culinária Afro-Brasileira que existe no Brasil, que fica no Pelourinho.

"Lá eu pude ter contato com a nossa culinária mesmo. E eu era aquela aluna chata, pentelha, que enchia o saco do professor. Tive acesso a literatura sobre a culinária Afro-Brasileira, e quando eu comecei a ter acesso àquilo dali, parece que enfiaram a chave na porta. Eu senti que aquilo dali era eu, que aquilo ali era a minha história".

Começaram a me chamar de 'chef Lilian'. Eu fiquei, meu Deus, chef? Eu sou cozinheira.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A pesquisadora Djamila Ribeiro foi a responsável por dar um empurrãozinho final para que Lili decidisse tornar a vocação sua profissão.

O estudo sobre a comida de seus ancestrais virou uma obsessão. Depois do curso, iniciou, por conta própria, uma pesquisa chamada AfrikanaBahia, na qual estuda as diversas áreas de interseção entre a África e o estado da Bahia. A capital baiana, por exemplo, tem a maior ancestralidade africana, a partir de estudos genéticos: 50,8%, sendo considerada a cidade mais negra fora do continente africano.

Atreladas à pesquisa, as coisas começaram a acontecer, ela conta. Em 2014, decidiu participar de um concurso internacional para concorrer a uma vaga na recém-inaugurada escola de pâtisserie da Cordon Bleu, na Austrália. Foi a única inscrita do Nordeste que passou para as finais do certame. "Depois disso uma amiga que é assessora de imprensa ligou para mim e falou: 'Gata, vamo ajeitar esse negócio aí. Vambora fazer um barulho'".

O empurrão da jornalista deu certo, e Lilian saiu nos mais diversos sites, em capa de jornais impresso, e estrelou em todas as emissoras televisivas da cidade. "Nesse período aí eu comecei a ficar conhecida e começaram a me chamar de 'chef Lilian'. Eu fiquei, meu Deus, chef? Eu sou cozinheira. Mas eu pensei: Não posso dar para trás, eu vou continuar com o meu trabalho e tentar fazer uma coisa mais sólida. Aí comecei a me vender como chef baiana mesmo".

Eu tenho a obrigação de falar sobre a nossa temática, de falar o nome dessas mulheres. Falar em Dadá, em Dinha, em Elaine. Reverenciar as que vieram antes.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Nesse período aí eu comecei a ficar conhecida e começaram a me chamar de 'chef Lilian'. Eu fiquei, meu Deus, chef?"

Começou a estudar ainda mais, comprou um tabuleiro e se esforçou em fazer eventos. "Procurei estudar a história da baiana de acarajé, porque eu não sou feita do axé, então eu não queria desrespeitar. Eu procuro ter muito respeito com as informações que eu tenho. Eu tenho a obrigação de falar sobre a nossa temática, de falar o nome dessas mulheres. Falar em Dadá, em Dinha, em Elaine. Reverenciar as que vieram antes. Muita gente se fodeu para eu estar aqui. Então eu tenho que eu procuro fazer as coisas direito".

Foi convidada a dar palestras, entrevistas e recebeu elogios até de pesquisadores acadêmicos da área. "Encontrei com um amigo meu que é mestre pela Ufba, e pesquisa sobre a comida de Axé - eu estudei muito pela pesquisa dele. Quando o encontrei, ele falou que a minha pesquisa que era uma inspiração para ele. Aí eu fiquei pensando: rapaz, olha a responsabilidade das coisas que eu escrevo".

Modificou sua cabeça, seu pensamento, sua forma de olhar o próprio trabalho e recebeu um empurrãozinho especial. A filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro, um dos nomes mais importantes do ativismo negro atual no Brasil, realizou uma palestra em Salvador. Lilian assistiu e aproveitou o encontro para fazer o convite: "A próxima vez que você vier aqui, eu vou cozinhar para você".

Quero ser a pessoa que leve luz para outras, que as inspire, que faça elas descobrirem que também podem.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Lili cresceu brincando na mesma casa onde o estabelecimento funciona, na Ladeira do Porto do Bonfim, às margens do mar da Ribeira.

Não deu outra. Djamila retornou à Bahia e foi até a casa de Lili almoçar. Uma foto no Instagram da paulista foi o suficiente para, à noite, baterem na porta da casa da cozinheira atrás dos pratos por ela tão elogiados. "Aí eu falei: porra, vou ter que abrir o restaurante". Abriu as portas de casa para os curiosos e foi um sucesso. Em tardes que se programava para receber 15 clientes, tinha de se adaptar para 35.

Com tudo dando certo no restaurante, Casa da Dona Lili, se sentiu apta a dar mais um passo em relação ao empreendedorismo. Lilian faz, atualmente, os ajustes finais para sua própria marca de acarajés e abarás. "O restaurante eu não conseguiria abrir em outro lugar, o diferencial é ser na minha casa. Os produtos eu já vejo como uma coisa que pode crescer muito mais, que pode se espalhar para outros es. Eu tô num momento novo meu, de trabalho, de descoberta, e de me lançar. Um momento mais corajoso".

Convidada para estrelar uma marca de temperos multinacional, viu ali a pitada que faltava para a sua autoafirmação. "Aquilo ali mudou a minha vida eu, comecei a me valorizar mais, a perceber que é importante o que eu faço, o que eu falo Seria muito egoísmo meu estudar e levar para o caixão. Eu acho que eu to nessa missão de receber informação e passar adiante. Quero ser a pessoa que leve luz para outras, que as inspire, que faça elas descobrirem que também podem".

A frase de Paulo Leminski e Moraes Moreira, popularizada em algumas paredes de Salvador, parece ser a que melhor resume essa relação: Mancha de Dendê não sai. Não bota para guarar, Dona Maria.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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