POLÍTICA
27/07/2018 09:11 -03 | Atualizado 27/07/2018 09:11 -03

Após atuação pró-impeachment, Alckmin tenta se descolar de Temer na campanha

"As pessoas não vão estar olhando para trás', afirma deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), ex-ministro de Temer.

Após fazer parte do governo Temer, PSDB quer se descolar do emedebista, que  tem hoje 79% de rejeição, de acordo com pesquisa CNI/Ibope divulgada em junho.
AFP Contributor via Getty Images
Após fazer parte do governo Temer, PSDB quer se descolar do emedebista, que tem hoje 79% de rejeição, de acordo com pesquisa CNI/Ibope divulgada em junho.

Com 40% do tempo de propaganda eleitoral de rádio e televisão, Geraldo Alckmin (PSDB) enfrenta agora outro desafio eleitoral: afinar o discurso para se descolar da imagem do governo de Michel Temer (MDB). No evento em que o apoio do centrão ao tucano se tornou oficial nesta quinta-feira (26), lideranças antes aliadas do emedebista fizeram críticas à situação atual do país e defenderam um candidato eleito pelas urnas.

"Todos sabemos que o Brasil, desde o final de 2014, vive uma das mais graves crises de natureza política, econômica e social na sua história e é fundamental que a gente possa virar essa página. A eleição de 2018 tem de ser a do reencontro com a legitimidade e com a capacidade da política resolver os problemas da política", afirmou o presidente do DEM, ACM Neto, em discurso sobre a união do chamado "centro democrático".

O democrata, que tem conduzido as negociações de escolha do vice do tucano, também defendeu a capacidade do ex-governador de São Paulo em promover reformas que a atual gestão não conseguiu, como a da Previdência. "Certamente a força que vai emergir das urnas, do apoio do voto popular, dará plenas condições ao próximo governo de encaminhar uma agenda", disse ACM Neto. Críticas à legitimidade de Temer como presidente têm sido usadas pelo PT e aliados desde 2016.

Ueslei Marcelino / Reuters
A eleição de 2018 tem de ser a do reencontro com a legitimidade e com a capacidade da política resolver os problemas da política

Partidos de esquerda têm explorado a semelhança entre o governo do emedebista e uma eventual gestão tucana. "Alckmin quer ser a segunda temporada desta série de terror que é o governo de Michel Temer", ironizou a pré-candidata do PCdoB ao Planalto, Manuela D'Ávila.

PSol e PT também têm adotado esse discurso. "Alckmin pode ficar com até metade do tempo de TV. Vai precisar, para explicar as ligações do PSDB com o governo Temer e o desmonte das políticas sociais. O Brasil voltou 20 anos em 2!", afirmou a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). O emedebista tem hoje 79% de rejeição, de acordo com pesquisa CNI/Ibope divulgada em junho.

Eleitor vai esquecer passado com Temer

Para aliados do ex-governador, esse questionamento não será uma preocupação central para o eleitor. Eles apostam em apresentar propostas para melhorar a vida da população e deixar de lado alianças do passado. "Existe uma estratégia da oposição. Resta saber se a população vai estar interessada em discutir as propostas do país ou o governo Temer. As pessoas não vão estar olhando para trás. Um debate da política pela política não vai ser o que vai interessar ao cidadão comum. Ele vai querer saber como a vida dele é afetada", afirmou a jornalistas o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), ex-ministro de Cidades do emedebista.

Na linha de "olhar para o futuro", aliados do ex-governador apostam ainda no ritmo fraco de votações no Congresso em período eleitoral e na falta de articulação do Planalto para aprovar medidas. "Esse debate de apoio ao governo acabou", afirmou ao HuffPost Brasil o líder do PSDB na Câmara, deputado Nilson Leitão (PSDB-MT).

Ueslei Marcelino / Reuters
r. Um debate da política pela política não vai ser o que vai interessar ao cidadão comum. Ele vai querer saber como a vida dele é afetada

O discurso da esquerda ganharia força em uma eventual disputa entre PSDB e PT, mas ainda não há projeções de um cenário de 2º turno. "Começa, por parte de quem vive a política e da imprensa, a apostar que pode acontecer o que acontece desde 2002", afirmou Araújo sobre um embate entre as duas legendas. O deputado foi o voto decisivo para o impeachment de Dilma Rousseff.

Outro argumento para rebater a proximidade entre Alckmin e Temer vem de 2014. "Temer foi escolhido pelo PT", afirmou a jornalistas o deputado Silvio Torres (PSDB-SP), tesoureiro do partido. A mesma frase foi dita pelo presidenciável em entrevista a Roda Viva, da TV Cultura, exibida na última segunda-feira (23).

Atualmente, Alckmin está empatado em 3º lugar com Ciro Gomes (PDT) nas pesquisas eleitorais, no cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tucano alcança no máximo 7% das intenções de voto, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada em 11 de junho. O petista lidera a corrida, com 30% das intenções de voto, mas pode ser considerado inelegível. Possível herdeiro dos votos de Lula, Fernando Haddad, por sua vez, tem hoje apenas 1%.

Do impeachment ao 'Fora, Temer'

Além do PSDB, todos partidos que apoiam Alckmin atuaram a favor da saída da petista [DEM, PP, PR, PRB, Solidariedade, PSD, PTB, PPS]. Atualmente o PP comanda 3 ministérios de Temer e o PRB tem o controle de outra pasta. O tucano Aloysio Nunes, por sua vez, continua à frente do Ministério de Relações Exteriores.

Sem olhar para o passado, lideranças não pouparam críticas ao atual governo nesta quinta. "Não é um momento fácil. Temos a consciência disso. Quem assumir em 1º de janeiro, vai ser o 6º ano de déficit primário. [São] 139 bilhões a menos que vai arrecadar. Mas, mais do que isso, [são] mais de 13 milhões de pessoas desempregadas, outro tanto no desalento ou subemprego, as dificuldades da saúde, o drama da segurança pública, enfim, desafios enormes", afirmou Alckmin em discurso.

Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Articuladores do impeachment que levaram Temer a assumir o Palácio do Planalto também reforçaram o tom. "O país passa pela maior crise econômica da história do Brasil. Milhões de pessoas desempregadas. O pequeno crescimento desse ano não chega ao emprego e 60 milhões de pessoas estão no SPC", afirmou o presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), em seu discurso. Na votação do impedimento de Dilma na Câmara, em abril de 2016, Paulinho jogou confetes e cantou "Dilma vai embora que o Brasil não quer você e leve o Lula junto e os vagabundos do PT".