27/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/07/2018 00:00 -03

Eny Matos, a 'tia' do cachorro-quente que conquista o Rio de Janeiro com seu tempero

Há 36 anos, a “Tia” criou empreendimento para ajudar complementar a renda e ajudar a criar os três filhos. Hoje, o negócio é sensação em uma das principais áreas do Rio.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Eny Matos é a 142ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Existe um lugar, em uma pracinha do Rio de Janeiro, que já deixou sua marca na vida da ex-BBB Ana Clara, do grande ator Chico Anysio e do cantor Compadre Washington, para não falarmos de uma enorme lista de outras celebridades. É difícil imaginar o que poderia ser comum a famosos de tribos e formações tão diferentes, mas qualquer pessoa que esperar anoitecer e se aproximar minimamente de um quiosque de menos de 5m² vai entender o motivo: um aroma forte e convidativo da mistura entre tomate e cebola toma o lugar. E assim é, diariamente, há 36 anos, sempre a partir das 17h. A responsável é Eny Matos, 79, mas para todos que passam por ali, ela é a "Tia do cachorro-quente".

E se hoje o cachorro-quente mais famoso de Jacarepaguá sai de um quiosque de alvenaria, no início a situação era bem diferente. Eny e o seu marido, um policial militar, começaram a vender cachorro-quente em uma barraca, em 1982. A ideia era complementar a renda da família e conseguir sustentar os três filhos do casal. Até então, Eny trabalhava no cuidado da casa e das crianças. Mas a necessidade de fazer mais dinheiro foi decisiva para fazê-la colocar o avental e ir para a rua.

Sou muito feliz, pelos meus filhos e por ver o legado que estou deixando para eles.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Com vocês, ele: o cachorro-quente mais famoso de Jacarepaguá.

"Eu já comecei trabalhando porque sempre gostei de trabalhar. No começo, era só eu e mais um funcionário. Quando vi que o negócio foi crescendo, chamei mais gente porque vi que não ia dar conta. O segundo funcionário foi o Ronaldo, que trabalha com a gente até hoje", conta ela à reportagem do HuffPost Brasil, com felicidade e orgulho impossíveis de esconder.

Com a dedicação de Eny, que às vezes abria o negócio às 17h e fechava só às 7h, a fonte alternativa de renda deu certo e a situação financeira da família se estabilizou. Com isso, a barraquinha virou uma kombi, e nos períodos de férias a família desbravava outras praças, cidades e até estados — mas sempre vendendo o famoso cachorro-quente.

Em uma cidade em que a cultura de comida de rua é bem forte, a escolha pelo cachorro-quente parece ter sido planejada, mas não foi nada além de tentativa e erro. "Fui experimentando o molho, via o que funcionava, ficava bom ou não. Uma hora deu certo, e eu decidi que seria esse molho, e cachorro-quente", explica.

Ainda não dá para ensinar a receita do molho para ninguém.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu já comecei trabalhando porque sempre gostei de trabalhar. No começo, era só eu e mais um funcionário."

E o molho, capaz de abrir o apetite de qualquer um, é feito por ela até hoje. A receita, claro, é secreta: "Ainda não dá para ensinar para ninguém. Daqui a um tempo, ensino para um filho, e o filho ensina para o meu neto. Eu acho que assim o 'cachorro-quente da tia' nunca vai ter fim".

E ela nem vacila ao explicar o que acredita ser o motivo do sucesso para além da receita. "Eu sou convencida!", diz enquanto gargalha, e completa: "O principal é alegria. Eu trabalho alegre, é importante oferecer um produto bom e sempre com um sorriso no rosto!".

E é com a mesma alegria que Hugo, filho do meio, ajuda a mãe. Hoje com 38 anos, ele começou a tocar o empreendimento sob supervisão de Eny ainda na adolescência. Hugo explica que sua vontade era fazer com que a mãe descansasse mais, depois de tantos anos de dedicação integral. Eny titubeou de início — "eu tinha que estar lá!" —, mas logo se rendeu. Hugo provou que ainda que ela não estivesse sozinha na condução, o negócio continuaria a dar certo. E tem funcionado.

Não podemos trabalhar de cara amarrada, porque não dá certo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Quando vi que o negócio foi crescendo, chamei mais gente porque vi que não ia dar conta."

A kombi virou um quiosque, e a alta demanda fez com que Eny abrisse uma loja, ainda em Jacarepaguá, para atender mais clientes. Mas os cuidados que ela tinha no início das vendas ainda é o mesmo: pão e ingredientes frescos, todos os dias — e alegria. Além do molho, claro. Hoje ela prepara o ingrediente secreto em casa, e Ronaldo ou Hugo levam até os pontos de venda. As pernas dão sinais de que precisam de mais descanso do que antes, então os momentos em que visita o quiosque e a loja são mais raros.

Mas basta uma hora em qualquer um dos dois lugares para ela ser mais tietada do que qualquer famoso que passe por ali. Alguns clientes mais novos cochicham entre si "é a tia?", outros mais velhos têm coragem de abordá-la e contar seus causos marcados pelo cachorro-quente. "Nós dois vínhamos quando namorávamos, e agora nosso filho tem 22 anos" e "eu como desde que era criança" foram algumas das histórias que a reportagem do HuffPost Brasil ouviu por ali. Em absolutamente todas, Eny consentia com a cabeça e se atentava aos detalhes contados pelos clientes, como quem sabe que faz parte de milhares de histórias e dá a maior importância para isso. E ela também conta as delas, como as saudosas noites em que Chico Anysio comia o cachorro-quente após os shows e até quando sua barraca foi palco de uma festa de casamento.

Quando olho para trás, tenho a sensação de dever cumprido.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Além do molho (que tem ingredientes secretos) o pão é sempre fresquinho na barraca da "Tia" Eny.

"Tem cliente que até hoje é nosso amigo, que a gente liga e conversa. Uma vez, um casal saiu do próprio casamento e parou na kombi. Desceram com a mesma roupa: vestido de noiva, véu e tudo o mais! Disseram que iriam comemorar o casamento ali, e comeram o cachorro-quente", conta orgulhosa.

Ela tenta se lembrar de mais algumas histórias, mas reconhece que a memória anda falhando um pouco. Os créditos disto, ela diz, vão para a vida agitada e a criação de três filhos. Mas não há tristeza, e sim muita gratidão ao cachorro-quente. "Não foi nada fácil, mas deu certo. Quando olho para trás, tenho a sensação de dever cumprido porque meus filhos foram bem criados."

O principal é ter alegria para levar a vida.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
É desde 1982 que Eny conquista seus clientes com seu tempero.

Não foi fácil porque a Tia diz ser "chata", principalmente com a montagem do cachorro-quente e a limpeza. "Eu sou muito exigente, acho que igual a mim é difícil ter. Mas eu sou assim, e não é agora que vou mudar, né?", afirma uma mulher doce, que se ancora nos cabelos brancos para viver da forma que melhor lhe cai.

A sabedoria de quem já é avó e e viveu muito é concedida como bênção também às mulheres que tentam um recomeço, pela primeira ou incontável vez, rumo à independência financeira. "Tem sempre que pensar pra cima! Pensar que vai começar e dar certo. Claro que tem que ser cuidadosa com o negócio também, mas o principal é enfrentar tudo. É possível. Foi assim que eu fiz", ela diz com a firmeza de quem um dia já enfrentou rotinas de trabalho sem descanso por mais de 10 horas.

Sou muito feliz, graças a Deus.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
É em uma das calçadas de Jacarepaguá que a história de Eny começou.

Para aguentar o tranco da vida, o mais importante mesmo é aquele ingrediente especial do molho. "O principal é ter alegria para levar a vida. Não podemos trabalhar de cara amarrada, porque não dá certo. E eu sou muito feliz, pelos meus filhos e por ver o legado que estou deixando para eles. Sou muito feliz, graças a Deus", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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