26/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 26/07/2018 14:37 -03

Eleuteria Amora: O feminismo com afeto para as mulheres trabalhadoras

Há 21 anos, historiadora criou a 'Casa da Mulher Trabalhadora' para dar apoio àquelas que precisam: “Qualquer tipo de luta sem afeto não adianta. Ainda mais para mulheres que não têm tempo a perder”.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Eleuteria Amora é 141ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Toda mulher é trabalhadora. Algumas, trabalham em horário comercial, fora de casa, de cinco a seis vezes por semana. Outras, trabalham sem intervalo, dentro de casa, a semana inteira. E a maioria tem as duas funções. Foi com esse entendimento que Eleuteria Amora, 61 anos, criou há 21 anos a Casa da Mulher Trabalhadora, ou Camtra. Mãe de três filhas, Iara, Iris e Iasmin, ela se juntou a outras mães que se revezavam na tarefa de cuidar dos filhos e também das outras tarefas que o dia a dia impõe. As atividades foram se transformando até que a casa se expandiu e hoje é uma das principais referências de acolhimento e orientação a mulheres no Rio de Janeiro.

Eleuteria explica que a casa já nasceu institucionalizada, e foi no lançamento em plena Câmara Municipal do Rio que ela entendeu que o sonho era realidade. "Quando você inicia um sonho, não se tem ideia aonde ele vai te levar. Então eu também não tinha ideia. O sonho sempre pode ser melhor, porque as outras pessoas também vão fazendo ele." E assim tem sido, mas a trajetória da Camtra e da Eleuteria não foram fáceis.

Quando você inicia um sonho, não se tem ideia aonde ele vai te levar.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Com 61 anos, ela criou há 21 anos a Casa da Mulher Trabalhadora, ou Camtra, no Rio de Janeiro.

A historiadora conta que o maior aprendizado é com mulheres que têm histórias mais complexas do que a dela. Apesar dos dias, lá atrás, em que abria mão de comer o necessário para que não faltasse o suficiente para cada uma das três filhas, ela encontrava mulheres em situações ainda mais difíceis. Com isso, decidiu que faria da luta pelo bem-estar de outras mulheres sua vida e iniciou um projeto acolhedor.

Decidiu, também, levar a filha mais velha para auxiliá-la no trabalho quando viu que uma prática que ela não aprova estava sendo repetida. "Eu comecei a ver que ela repetia a história das mulheres nordestinas, como eu também sou, em que a filha mais velha cuida das mais novas. Então, puxei ela com 14 anos para atender o telefone", explica.

Qualquer tipo de feminismo, de luta, se não tem o afeto, não adianta.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Bandeira de Marielle Franco na sede da Casa da Mulher Trabalhadora.

A ânsia por construir uma história diferente para as filhas e outras mulheres foi o fio condutor de Eleuteria. E o afeto, também. "Qualquer tipo de feminismo, de luta, se não tem o afeto, não adianta. Ainda mais pras mulheres que não têm tempo a perder porque há milhares de coisas para fazer. Eu tenho que fazer ela olhar para mim para apresentar a Lei Maria da Penha, os direitos dela", afirma.

E tem dado certo: anualmente, na Central do Brasil, estação que reúne milhares de trabalhadoras por dia com a integração de ônibus, trens e metrô, a Camtra distribui rosas e folhetos informativos. Na Saara, principal centro de comércio popular da cidade, a Camtra também se faz presente. A poucos metros da Central do Brasil, mensalmente, uma barraca é montada com o mesmo objetivo de informar às mulheres sobre seus direitos. É assim, no coração da cidade, que Eleuteria exerce seu feminismo. Pela barraca, um livro de assinatura testemunha, já passaram mais de 46 mil mulheres desde 1999.

Nosso feminismo é um feminismo que tenta fugir só do discurso.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A ânsia por construir uma história diferente para as filhas e outras mulheres foi o fio condutor de Eleuteria.

"Nosso feminismo é um feminismo que tenta fugir só do discurso. A gente pensa: se o feminismo não puder mudar a vida das mulheres, pra que então ele vai servir? E que mulheres são essas? As trabalhadoras, nós que não paramos de trabalhar", explica à reportagem do HuffPost Brasil.

Questionada se foi feminista durante toda a vida, Eleuteria é categórica: não. Mas a resposta está mais no presente do que no passado. "A gente nunca deixa de ser uma feminista em construção. Eu sou uma cearense feminista em construção, aos 61 anos."

O Ceará está mudando, mas ser mulher lá ainda tem uma carga muito grande.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Mãe de três filhas, Iara, Iris e Iasmin, ela se juntou a outras mães que se revezavam na tarefa de cuidar dos filhos e também das outras tarefas que o dia a dia impõe.

E marcar seu lugar de nascimento tem sido cada vez mais importante: "Eu tenho me questionado cada vez mais o que é ser uma feminista nordestina. Porque vim para o Rio e percebi, ao longo dos últimos 21 anos, que por mais difícil que seja ainda é um lugar mais aberto para as mulheres do que o Ceará. Está mudando, mas ser mulher lá ainda tem uma carga muito grande."

Ainda no Ceará, viu toda as suas familiares sempre sozinhas, trabalhando muito e atarefadas. Isso fez ela crescer com a ideia de que as mulheres eram as únicas responsáveis por tudo. Antes de aterrissar no Rio para morar com o marido da época, morou em Brasília. E era na capital fluminense que questionamentos a atravessavam o tempo inteiro: "Eu comecei a fazer perguntas, do tipo, 'para que serve um homem na vida de uma mulher?', e cheguei à conclusão que não precisava manter aquela relação e que poderia ter outros tipos de relações em que eu me sentisse mais livre", contou.

Está dando e deu certo, porque nada funciona 21 anos se tiver dado errado.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Conhecer a realidade e lutar junto com elas" é o maior desejo de Eleuteria.

Desde então, a mulher que carrega a liberdade no nome (de origem grega, Eleuteria é tradução simples para "liberdade") nunca mais abriu mão da sua. "Eu namoro, logicamente, porque estou viva, mas tem uma coisa muito importante de que eu não abro mão, que é chegar em casa e ninguém perguntar onde eu estava, sem discussão", enfatiza.

Mas isso só vale para maridos. Eleuteria conta que está vivendo a fase de perceber que, em breve, as filhas vão sair da casa em que moram com a mãe e construir sua própria trajetória: "Eu sempre quis ficar só, mas agora deu para perceber que não é simples assim". O sentimento de saudade antecipada se mistura ao de orgulho e um desejo: "Espero que elas também sintam orgulho de mim".

Às vezes eu penso que não está dando certo. Mas nada funciona 21 anos se tiver dado errado.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A mulher que carrega a liberdade no nome (de origem grega, Eleuteria é tradução simples para

O voo das filhas faz Eleuteria chorar, mas também é uma luz de ideia para um novo projeto: reunir mulheres para falar sobre "a solidão de ser mais velha". E é assim que a vida dela funciona: sempre com muitas ideias e cercada de pessoas. O celular recebe uma nova mensagem a cada minuto, os compromissos enchem o dia e ela precisa estar atenta para que o funcionamento da Camtra precisa ser, acima de tudo, acolhedor.

É naquela sala, que um dia já foi somente um canto de mesa em um escritório cedido, que passam mulheres que precisam desde um banho até orientação jurídica sobre denunciar um marido violento, passando por aquelas que só querem um ouvido amigo.

"Às vezes eu penso que não está dando certo, mas quando uma mulher volta ou manda uma mensagem dizendo que conseguiu, eu me repreendo: 'é baixa auto-estima!'. Está dando e deu certo, porque nada funciona 21 anos se tiver dado errado", reflete.

Uma mulher livre e forte como Eleuteria tem muitos sonhos, mas em relação à Casa da Mulher Trabalhadora, eles são bem específicos: "Quero que ela dure mais 20, 30, 60 anos, e principalmente que não perca o lado popular, que desenvolva sempre trabalhados voltados às mulheres em seus locais de trabalho. Conhecer a realidade e lutar junto com elas", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.