NOTÍCIAS
25/07/2018 14:09 -03 | Atualizado 27/07/2018 15:45 -03

Cadeia de mandantes do caso Marielle envolve atores com funções públicas, diz ministro

"O caso de Marielle reflete exatamente a crise de segurança no Rio de Janeiro", disse Jungmann, ao destacar que os 3 últimos governadores estão presos.

Ministro da Segurança, Raul Jungmann destaca que há representantes de facções com projeção na política, no Estado, nos órgãos de controle, nas polícias.
Montagem/GettyImages
Ministro da Segurança, Raul Jungmann destaca que há representantes de facções com projeção na política, no Estado, nos órgãos de controle, nas polícias.

Dois meses depois de afirmar que as investigações sobre a morte da vereadora Marielle Franco (PSol) e do motorista dela, Anderson Gomes, estavam perto de um desfecho, o ministro da Segurança, Raul Jungmann, disse, nesta quarta-feira (25) que o caso não tem prazo para chegar ao fim.

O entrave, segundo ele, é que envolve atores que ocupam funções públicas.

Jungmann ressalta que a investigação prossegue, mas diz que é complexa e tem, no ponto de vista dos mandantes, reflexo do que é o Rio de Janeiro. "O Rio vive uma metástase em termos de que o crime organizado, quando ele controla os territórios, 1,1 milhão pessoas, ele começa a ter projeção na política, no Estado, nos órgãos de controle, nas polícias. Tudo isso se reflete no crime da Marielle. A cadeia que envolve os mandantes é um reflexo da crise que vive o Rio de Janeiro porque envolve atores que têm funções públicas - em certa medida até onde se pode chegar aqui e dizer alguma coisa - na comunicação com as milícias, mas eu acredito que o trabalho que está sendo desenvolvido é sério", disse.

Embora tenha comentado, o ministro afirmou que falar sobre um crime em investigação implica em restrições. Explicou, no entanto, que há uma probabilidade de que as duas pessoas que foram presas na terça-feira (24) tenham ligação com a execução da crime. Para ele, no entanto, também é preciso focar nos mandantes.

"Essa cadeia que envolve os mandantes é ampla e complexa. (...) Há indícios fortes de participação de milícias. Milícia está muito associada a facção, está muito associada a tráfico, eles têm alianças. Infelizmente, agentes do próprio estado também. Rio de Janeiro é um caso complexo. Por isso, eu dizia que o caso de Marielle reflete exatamente a crise que você tem de segurança no Rio de Janeiro. Não é por acaso que dos 7 membros do Tribunal de Contas do Estado, 6 estão na cadeia. E não por acaso, os 3 últimos governadores do Rio de Janeiro também estão presos e até recentemente os 3 últimos presidentes da Assembleia do Rio de Janeiro também estavam presos, o que demonstra que o crime de Marielle não pode ser dissociado da situação que vive o Rio de Janeiro, mas ele será desvendado, será esclarecido. Não tem prazo para desvendar isso, mas acho que estamos em bom caminho."

Questionado se há um temor de que o crime organizado possa influenciar nas eleições, o ministro foi enfático:

O crime organizado já influencia nas eleições.Ministro da Segurança, Raul Jungmann

E seguiu:

"O crime organizado tem suas bancadas. Dentro do nosso presidencialismo de coalizão, o que é o presidencialismo de coalizão? É o seguinte: o Executivo se elege e o partido dele, como acontece em todos os níveis, tem 20%, 10%, 15% dos votos, precisa ter maioria. E é feita a distribuição de cargos. Essa distribuição de cargos atende aqueles que têm representação no Parlamento, seja municipal, estadual ou federal. Ora, se o crime organizado tem representante, ele vai participar diretamente dessa distribuição de cargos".

Para o ministro, esse cenário "é o coração das trevas". "Você permitir a eleição de um representante do crime, da milícia, e ele poder indicar nomes, efetivamente, ligado aos seus interesses para órgão do Estado. E isso tem que ser de fato evitado. Evidentemente, nós lidamos com isso não só no Rio de Janeiro, mas lidamos com isso não apenas lá."

Marielle, presente!

Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram atingidos por um total de 13 tiros em Estácio, na região central do Rio, em 14 de março deste ano. Negra, da periferia e lésbica, a vereadora, que era uma das vozes de denúncia sobre violência policial, se tornou um símbolo de luta pelos direitos humanos.

Quatro meses após o assassinato ainda não se sabe quem matou Marielle. Logo após o crime, um artigo da Human Rights Watch alertou que a ousadia para assassinar uma pessoa com tanta visibilidade pressupunha que não haveria consequências na Justiça.

"A impunidade no caso das execuções extrajudiciais é particularmente devastadora, não apenas pelo sofrimento das famílias das vítimas", ressaltava a HRW.