ENTRETENIMENTO
23/07/2018 10:12 -03 | Atualizado 23/07/2018 10:50 -03

'Objetos Cortantes' deixa truques de histórias policiais de lado e entrega drama hipnotizante

O diretor e editor da minissérie da HBO, Jean-Marc Vallée, usou técnicas experimentais para focar a ação sobre uma cativante Amy Adams.

Quando Amy Adams entra em cena em Objetos Cortantes - de jeans skinny escuros, um top casual de manga longa e bolsa a tiracolo – a câmera corta para uma visão de uma garota num caixão, pálida e de batom cor-de-rosa. Depois voltamos a ver a ruiva Amy Adams, que está abrindo a porta de um quarto com ar de receio, antes de desaparecer outra vez, desta vez dando lugar à imagem da adolescente Sophia Lillis dentro de uma funerária.

Dali o espectador é levado num vaivém constante entre os olhos de Adams cheios de lágrimas olhando o quarto de sua irmã quando criança e os gritos e o choro de Lillis, tentando limpar o batom da boca da menina morta. Finalmente a porta se fecha na nossa cara.

Essa é a história de Camille Preaker, a protagonista (representada por Amy Adams) do romance de estreia de Gillian Flynn, Objetos Cortantes, filtrada pela mente do diretor e editor Jean-Marc Vallée. A minissérie em oito partes da HBO acompanha a jornalista Camille quando ela volta à sua cidade natal para cobrir o assassinato de duas meninas. Flynn diz que é um mistério policial do tipo "quem é o assassino" disfarçado de romance psicológico do tipo "quem é ela", contado através do olhar de uma mulher traumatizada que está tentando dar conta de sua própria vida trágica.

Algo que poderia ser simplesmente mais um thriller policial como tantos outros na TV vira um drama onírico com Vallée, Flynn e Marti Noxon, a criadora da série, optando por intercalar os elementos de suspense policial com flashbacks constantes e incômodos. É uma experiência experimental que chega ao clímax pouco a pouco, em lugar de jogar todo o trabalho de investigação na nossa cara. Alguns espectadores poderão amar, outros acharão um tédio, mas a maioria vai explorar a narração exploratória, que permite que Amy Adams, o centro das atenções de toda a história, brilhe forte.

"Decidimos desde o início que não haveria uma voz narradora. Acho que isso teve um impacto grande sobre o modo como filmamos e sobre o clima geral da série", falou Flynn na semana passada em entrevista à Build Series. "Entrar e sair das memórias de Camille, que formam uma parte tão grande desta história, envolve os lugares que ela percorre ao longo do dia na cidade de Wind Gap (Missouri), para onde ela voltou. Com isso pudemos criar um clima muito mais bizarro, algo que lembra sonhos."

Camille é a narradora do livro, no qual ela alerta o leitor de quando está tendo um flashback. Mas na minissérie, a personagem fica em silêncio a maior parte do tempo. O espectador mergulha em suas memórias, mas não tem uma orientação ou explicação, enquanto ela toma um gole de vodca, ouve uma canção depressiva ou toma um banho de banheira. Vallée prefere deixar as explicações a cargo das ações dos personagens. Para preencher as lacunas na trama, ele mostra ao espectador os rituais cotidianos dos habitantes de Wind Gap, inserindo clipes de cafés da manhã, velas e ventiladores, em meio ao silêncio, nos alertando que devemos prestar atenção a todos os detalhes.

"Jean-Marc fez isso realmente bem: ele criou esse clima de liberdade e naturalismo, ao mesmo tempo em que nos deu muita informação, porque afinal, estamos tentando elucidar um homicídio", disse Amy Adams na mesma entrevista.

"Ele possui uma linguagem cinematográfica maravilhosa que é só dele", acrescentou Chris Messina, que faz o detetive Richard Willis.

Conhecido principalmente por Clube de Compras Dallas, Wild e a série da HBO Big Little Lies, Vallée faz uso intensivo de música, montagens e imagens alternativas para narrar suas histórias. Já Noxon prefere focar sobre o roteiro. É o casamento dos dois que torna Objetos Cortantes tão convincente.

Criadora de UnREAL e Dietland, Noxon admitiu que ela e os coprodutores, incluindo Jessica Rhoades, Gillian Flynn e Amy Adams, bateram de frente com Vallée em relação ao roteiro.

"Foi uma questão das nuances de linguagem, porque Jean-Marc está muito mais interessado nas imagens, ele gosta de contar histórias através das imagens", disse Noxon à Vulture.

Vemos essa combinação hipnotizante de visuais e diálogos numa cena na metade da série, em que o detetive Willis percorre a casa da família de Camille ao lado da mãe desta, a matriarca da cidade, Adora, representada com brilho irônico por Patricia Clarkson. Enquanto Adora fala dos detalhes do design histórico da mansão vitoriana, a câmera se move suavemente em volta dos dois, oferecendo-nos vislumbres de um vitral aqui e cortinas perfeitas ali.

"Enxergar o que há de ruim é seu trabalho", diz Adora ao detetive enquanto ele toma cerveja em um copo de plástico. "Só quero lhe lembrar que há coisas boas aqui também, não interessa o que você tenha ouvido."

Produzida como uma donzela sulina, de vestido longo e chapéu de aba larga, Adora pede ao detetive que tire os sapatos antes de pisar sobre seu chão de ladrilhos cor marfim.

O diálogo é prova da capacidade da equipe de produção de traduzir as deixas visuais pelas quais Vallée é conhecido em capacidade de "filmar o texto", como Noxon sugeriu – manter-se fiel às imagens e ao texto do livro. Texto esse que detalha as cicatrizes generacionais da família de Camille, que afligem sua mãe e sua meia-irmã Amma, representada pela ótima novata Eliza Scanlen. A produção mostra essas mulheres causando dor psicológica umas às outras de várias maneiras, desentendo-se sobre roupa de festa e trocando abraços desajeitados num hall de ambiente estranho.

Amy Adams está magnética como Camille, como é o caso em quase todos os papéis que ela já fez. Seu passado em Encantada ficou para trás em Objetos Cortantes, em que ela exala a angústia e o mal-estar de uma alcoólatra depressiva que tenta superar seu próprio passado em meio a uma investigação preocupante. Se você acompanhar Objetos Cortantes até o final, a razão com certeza será a performance de Adams.

Mas a fusão dos estilos de Vallée e Noxon é o que injeta vida ao texto original de Flynn. Juntos eles ajudam Objetos Cortantes a subverter as expectativas embutidas no gênero policial. O estilo híbrido cria uma história mais fascinante do que os crimes e relacionamentos que se desdobram em torno da protagonista, e esse é um drama policial que merece nossa atenção.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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