MULHERES
22/07/2018 11:04 -03 | Atualizado 22/07/2018 12:09 -03

Mães e cientistas: Como a maternidade é vista na pós-graduação no Brasil

"Para manter a produtividade, tive que abrir mão da minha saúde. Me sacrifiquei e cheguei a ter que ir para o hospital por sintomas clínicos de estresse e ansiedade."

Cientista não tem hora de trabalho. Se você está no meio de um processo, você não pode simplesmente abandonar tudo e recomeçar do zero. Mas o que fazer quando existe uma criança que depende de você?

Ter filhos em meio ao processo de pesquisa de um mestrado ou doutorado é visto, por muitos, como uma insanidade. Mas não é a maternidade que é uma loucura, e sim o preconceito em relação às mulheres que decidem ser mães e conciliam a criação de um filho com sua vida acadêmica e científica.

Aos 21 anos, Daniella de França apresentava a sua monografia de conclusão de curso de Biologia. No mesmo período, descobriu uma gravidez não planejada. Nos 9 meses que se seguiram após o parto, a pesquisadora conciliava visitas de campo com a amamentação. Mas foi ao ingressar no mestrado, e posteriormente no doutorado, que França lidou com seus maiores desafios: a cobrança pela produtividade e o financiamento escasso para projetos de pesquisa.

"Tenho feito bicos como cozinheira pelo menos 3 vezes por mês para conseguir poupar dinheiro caso precise. Ainda tenho que ser mãe, produzir artigos e ter uma vida", compartilha em entrevista ao HuffPost Brasil.

Em comum, a bióloga Carolini Kaid também conviveu com a gestação quando estava no final de seu mestrado.

"Eu tive que convencer o meu orientador. Ele queria que eu pausasse a minha pesquisa. Mas eu quis emendar o doutorado porque sabia que corria risco de não conseguir bolsa mais tarde", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Em depoimento ao HuffPost Brasil, as cientistas e pesquisadoras Daniella de França, 30 anos, e Carolini Kaid, 30 anos, compartilham os desafios de conciliar a produção científica com a maternidade.

HuffPost Brasil: No período pós-gestação, a sua produtividade em relação ao trabalho científico caiu? Como foi lidar com isso?

Daniella de França: Só consegui produzir trabalhos mais densos após o meu filho crescer um pouco. No final do mestrado eu me separei do pai do meu filho. Fiquei sozinha com a criança e precisei terminar minha dissertação, além de começar a viajar frequentemente para realizar trabalhos como consultora ambiental para conseguir o meu salário. Durante o tempo em que eu viajava, meu filho ficava com o avô. Quando eu voltava, só queria ficar com ele. Quando comecei o doutorado, eu consegui ter um pouco mais de rotina e retomei antigos trabalhos ainda da época do mestrado. Me casei novamente e tive a minha segunda filha. Apesar de ter produzido várias coisas nesse tempo, tenho certeza de que conseguiria produzir o dobro se não fosse mãe. Meus colegas ficam até tarde no laboratório trabalhando nos artigos deles. Eu tenho que ir embora às 16 horas porque é meu dia de buscar a minha filha na escola, fazer comida, arrumar a casa...

Carolini Kaid: O CNPq trabalha com uma licença-maternidade de 4 meses. Eu voltei a trabalhar após esse período e foi muito difícil. Na pesquisa, às vezes você está num processo que você precisa concluir, você não pode parar no meio. E quando uma criança depende de você, não existe ficar até mais tarde no trabalho. Então, para manter a produtividade, eu tive que abrir mão da minha saúde. Eu me sacrifiquei e cheguei a ter que ir para o hospital por sintomas clínicos de estresse e ansiedade. Eu tinha que provar para as pessoas que eu era capaz de manter o meu trabalho e ser mãe. Então eu tive que dobrar, triplicar o meu esforço físico e mental. Saiu uma pesquisa demonstrando que a produtividade das mulheres que tem filho diminui até 7 anos depois que seu filho nasce, mas depois elas se recuperam. Porque as mulheres foram acostumadas a equilibrar muitas tarefas né? Então a gente dá um jeito de correr atrás.

Para manter a produtividade, eu tive que abrir mão da minha saúde. Eu me sacrifiquei e cheguei a ter que ir para o hospital por sintomas clínicos de estresse e ansiedade. Eu tinha que provar para as pessoas que eu era capaz de manter o meu trabalho e ser mãe.
Carolini Kaid

Hoje, o Brasil oferece as ferramentas necessárias para que as mulheres equilibrem a maternidade com a produção científica?

Daniella de França: Não! Você e seu marido fazem mestrado, ambos, com bolsas Capes de R$ 1,5 mil por mês. Com esse dinheiro você precisa custear sua pesquisa, pagar aluguel, comprar comida, etc. Ok. Mas e se entra uma criança na jogada? E se a mulher é mãe solo? Piorou, né? Vai ter que pedir ajudar dos pais ou se matar trabalhando em outra coisa além do mestrado/doutorado para conseguir sustentar a si e a criança. Assim, como é que essa mãe conseguirá produzir ciência? E eu nem mencionei que quando temos bolsa de pós-graduação não podemos ter outros emprego, ou seja, essa mãe solo e essa criança vão precisar se virar com R$ 1,5 mil por mês e a mãe ainda precisará ter equilíbrio mental e físico para produzir artigos científicos, se não não conseguirá entrar no doutorado e não conseguirá um emprego. É uma situação muito crítica. Então, na prática, a mulher que tem filho durante mestrado ou doutorado é vista como louca. Ou como imprudente. É muito raro você ver mães no nosso meio. As mulheres geralmente tem filho mais tarde, depois de ter passado num concurso ou após abandonar a carreira (o que não é raro acontecer).

A mulher que tem filho durante mestrado ou doutorado é vista como louca. Ou como imprudente.
Daniella de França

Carolini Kaid: Nós ainda estamos muito no comecinho. Mas o grande problema são os professores e orientadores. Eles veem isso como um maU negócio, desvalorizam completamente a sua maternidade. O preconceito ainda é muito grande. A maioria dos orientadores jamais veem a possibilidade de você ter um filho nesse processo. Você precisa estar full time trabalhando e produzindo.

Acervo pessoal
Isaac, Henrique e Carolini Kaid.

Existem espaços hoje em que se discute ciência e maternidade? Você faz parte de algum deles?

Daniella de França: Sei que existem. No Pint of Science [evento em que se discute Ciência em bares e restaurantes] deste ano tivemos uma mesa redonda sobre mulheres na Ciência e o assunto foi secundariamente abordado. Participo de dois grupos no Facebook que tratam disso. Existem também alguns coletivos. Esses espaços são essenciais para a visibilidade e tentativa de resolução desses problemas. Com o aumento do ativismo feminista nos últimos anos, assuntos assim tem sido cada vez mais discutidos, mas existe um viés: mulheres ainda tem menos representatividade que homens na política e em cargos de chefia. E quem dita as regras e fazem as leis? Quem ocupa esses cargos. Então, além de incentivar a ocupação desses cargos por mulheres, precisamos entender que mulheres de carreira podem ou não querer ser mães. Precisamos dar condições para que uma mulher possa ser boa profissional e boa mãe e que não tenha que escolher se dedicar a apenas uma das opções. Isso é injusto e ingrato pois isso não é cobrado dos homens, apenas das mulheres.

Carolini Kaid: Eu não conheço espaços em que se discute ciência e maternidade, e isso é um problema. As mulheres deixam de ter filho ou simplesmente abandonam a vida acadêmica por conta da maternidade. Tenho amigas que abriram mão de ter filho para finalizar a carreira, depois não conseguiram colocação no mercado de trabalho, tentaram engravidar e não conseguiram. Elas entraram em um processo de depressão. É possível ter filho sendo cientista. Eu consegui com muita resiliência, sofri muito preconceito, principalmente quando estava gravida, até mesmo dos meus supervisores. E para provar que eu ainda conseguia se produtiva, eu tive que triplicar o meu trabalho. A minha saúde foi afetada pelo preconceito dos outros.

Pergunte a uma pessoas de fora da academia o que seria, para ela, um bom cientista... Provavelmente ela diria que é aquele que estuda para descobrir a cura de doenças ou algo assim. Poucas pessoas sabem que a ciência está em tudo e que toda ciência é importante.Daniella de França

Acervo pessoal
Daniella França e seus filhos.

O que está atrelado hoje em dia a valorização de um cientista no Brasil?

Daniella de França: Para ser considerado um bom cientista pela comunidade científica, você precisa produzir bons artigos com frequência e em revistas de impacto internacional ou "Qualis" (índice de qualidade ligado à CAPES) altos. Com certeza quantidade não é qualidade, mas muitas vezes somos cobrados sim, por quantidade, bem mais que qualidade. Funciona assim: a maioria das pessoas que entram na pós-graduação, pelo menos na área das Ciências Biológicas, decidem fazer mestrado e doutorado porque querem ser pesquisadores. O cargo pesquisador, salvo exceções (poucas instituições brasileiras possuem cargo exclusivo de pesquisador), não existe no Brasil sem estar atrelado à docência superior, ou seja, para ser pesquisador você necessariamente precisa ter passado em um concurso público para... professor universitário! Poucas pessoas que optam por essa carreira realmente gostam de pesquisar e lecionar, como é o meu caso (adoro sala de aula!). Bem, mas esse já é outro problema. Voltando ao problema "passo-a-passo de como conseguir ser pesquisador no Brasil": sabemos que nem sempre os melhores passam nos concursos, mas aqueles julgados melhores pelos critérios de avaliação. Qual o critério de avaliação que engloba a produção científica? O currículo! Só passa em um concurso para professor/pesquisador efetivo se tiver mestrado, doutorado e publicações. Quanto mais publicações, mais pontos, e quanto mais publicações em revistas de Qualis e impacto alto, mais pontos ainda, ou seja, quem publica mais e em revistas melhores, tem mais chances de ser empregado. Quando o pesquisador passa no concurso, ele se depara com coordenação de curso, orientação de alunos, preparação de aulas, burocracias institucionais e, além disso, precisa produzir muito e frequentemente para somar pontos à instituição à qual pertence e conseguir financiamento para os futuros projetos de pesquisa. E ainda precisa ter vida pessoal. E aí vem a visão social do cientista brasileiro. Pergunte a uma pessoas de fora da academia o que seria, para ela, um bom cientista... Provavelmente, ela diria que é aquele que estuda para descobrir a cura de doenças ou algo assim. Poucas pessoas sabem que a ciência está em tudo e que toda ciência é importante. Poucas pessoas sabem que sem o meu estudo sobre a diversidade de serpentes de uma areazinha lá do Acre, talvez nunca saberiam que lá existe aquela jararaca que no futuro pode ser usada no estudo de uma droga capaz de curar alguma doença. Então, a minha visão do que é preciso para ser um bom cientista no Brasil e em qualquer lugar é ter curiosidade, criatividade e dedicação, pois a responsabilidade que está em nossas mãos é enorme. É preciso olhar os problemas existentes e tentar resolvê-los, afinal, é pra isso que estudamos tanto.

Carolini Kaid: Produtividade, sobretudo. E ainda temos que lidar com o fato de que um pesquisador não é visto como profissional no Brasil. Somos vistos como estudantes.

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Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciencia (Facebook) e HuffPost Brasil