24/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 24/07/2018 00:00 -03

Dramaturga, poeta, escritora e travesti: Ave Terrena é o palco de sua própria história

Ela usa seu trabalho e arte para trazer a tona memórias invisibilizadas: "A arte é o grande canal. Foi como eu consegui me entender e depois expressar isso para o mundo."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ave Terrena é a 134ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

"Sou dramaturga, poeta, escritora, travesti."

Tudo isso e muito mais, como ela mesma diz sobre a vida de uma mulher trans. Se apresenta assim, com um sorriso, tranquilidade e um tom de orgulho. Com razão. Além de suas peças escritas e montadas, lançou recentemente seu primeiro livro de poesias e está cheia de projetos. Realizada no meio cultural e artístico. O único lugar onde se encontrou. O grande meio de se expressar. Pudera. Seu próprio nome já é poesia. Mas não se engane. Não tem personagem. É só quem ela é.

Ave Terrena, 26 anos, é sua arte e seu trabalho. "A arte e cultura são lugares onde conseguimos naturalizar as nossas presenças sem que a gente precise ficar explicando tudo, didaticamente, ponto por ponto, o que a gente às vezes precisa fazer. Mas [na arte] tem uma tranquilidade de você observar as pessoas vivendo aquilo e não é exatamente o que pensam sobre as travestis. Sempre tem o estigma da violência absurda, que é real, mas não é só isso. Aí tem a objetificação sexual ou achar que travesti são todas maravilhosas, divas. Isso também é verdade. Mas é tudo isso e muito mais."

Para ela começou cedo. Aos 8 anos foi para o teatro por ser uma criança muito tímida. "Fiquei porque era um lugar que encontrei uma liberdade de me expressar e nunca mais parei". Fez curso técnico na área, começou faculdade de artes cênicas e sempre teve envolvimento com arte e cultura, mesmo que indiretamente. "Fiz de tudo, fui guarda volume durante a Bienal, assistente de produção de cantor, trabalhei em biblioteca, sempre com alguma relação com cultura e consegui aos poucos encontrar pessoas que eu tinha afinidade artística e pessoal."

A arte e cultura são lugares onde conseguimos naturalizar as nossas presenças sem que a gente precise ficar explicando tudo.

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Aos 8 anos foi para o teatro por ser uma criança muito tímida: e hoje é dramaturga, poeta, escritora (e muito mais).

Em 2015 passou a integrar o grupo de teatro Laboratório de Técnica Dramática e iniciou uma pesquisa sobre os relatórios da Comissão da Verdade interessada nos casos de tortura e perseguição da época. Daí nasceu sua peça O Corpo que o Rio Levou. "Foi o começo do mural da memória que eu chamo, que é um conjunto de peças que resgata essa memória do período da ditadura por várias óticas e pontos de vista para ter uma totalidade desse período tão apagado."

Na sequência, dando continuidade à sua pesquisa e já conectando ao seu processo de transição de gênero que se iniciava, ela foi pesquisar a história das operações de perseguição às travestis na ditadura e escreveu outra peça,As 3 uiaras de SP City. Esta foi montada em maio deste ano com atrizes trans e ganhou curta temporada no CCSP (Centro Cultural São Paulo).

"Entrei no debate da representatividade trans e de como é importante que nós tomemos posse das nossas narrativas e contemos com nossos corpos em cena também." A peça ficou em cartaz por uma curta temporada no Centro Cultural São Paulo, mas o sucesso foi grande. Ela conta que além de lotar a plateia, mais de 70 pessoas ficavam para fora. Um reflexo da força e importância do trabalho. "É uma memória muito invisibilizada. A gente escreveu e compôs as músicas também e isso vem de uma renovação que está acontecendo na área da cultura porque as pessoas que estavam à margem, não tinham nem direitos mínimos e básicos, quando assumem esse protagonismo para narrar as próprias histórias é uma explosão; as pessoas ficam passadas em ver o talento", aponta. "É que na verdade ficou muito tempo represado, escondido e quando vem tem uma força de vida!"

Entrei no debate da representatividade trans e de como é importante que nós tomemos posse das nossas narrativas e contemos com nossos corpos em cena também.

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Ave mostra seu primeiro livro de poesias, "Segunda Queda".

Em meio a toda essa produção, mais vida. Ave acaba de lançar seu livro de poesia Segunda Queda, que conta também com ilustrações feitas por ela. Assim, meio sem perceber, se viu ativista. "Nunca me identifiquei assim, mas depois que comecei a debater esses assuntos, e comecei a debater isso por necessidade da minha vida, para me entender e me aceitar dentro do meu grupo, virei ativista."

Tudo ali... vivido, sentido e agora publicado e encenado. Todo o seu processo pessoal realmente está muito conectado à sua produção literária e artística. "A arte é o grande canal. Não só ajudou como foi o veículo, o meio pelo qual eu consegui entender pra mim e depois expressar para o mundo."

quem ditará o nome ungido pelo direito

Burocrático divino

a restar bolor e lápide oposto ao trato

Diário manuscrito

sem nexo de corpo decifrado a fundo, ranhuras do

genital batismo

dúvidas que sangram, lutas contornadas

Contra-instinto

[Trecho de poema publicado no livro Segunda Queda]

Há cerca de seis meses começou o processo de hormonização. Mas o nome social já usa há algum tempo. Na verdade, conta que usava muito antes de iniciar seu processo de transição. Era uma espécie de nome artístico, pseudônimo. "Era como as pessoas me chamavam mesmo sem a questão do gênero e ai virou meu nome social. Se fosse Jessica, Priscila seria mais fácil [risos]. Mas não estou nem aí. Acho interessante a confusão que causa nas pessoas. E falo que é Ave mesmo. Acham esquisito, desconfiam de mim."

As pessoas que estavam à margem, quando assumem esse protagonismo para narrar as próprias histórias é uma explosão.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Tudo o que é sentido por Ave, é agora publicado e encenado: em formato de livro e de peças de teatro.

Não liga para isso. E reivindica mais do que ser chamada por seu nome. Ela quer o respeito pela sua identidade de gênero e quer a aceitação de seu corpo – e de tantos outros como o dela. Apesar das dificuldades do dia a dia e dos diversos casos de preconceito e violência que já sofreu, se sente privilegiada e luta para abrir caminho para outras mulheres e pessoas trans. "O fato de eu ter uma produção intelectual é um privilégio. [Além disso] eu tenho um lugar pra morar, trabalho com o que eu gosto e procuro trazer outras e outros junto comigo para que não seja eu sozinha ali porque fica muito frágil."

Essa é uma grande luta de Ave. Mostrar os outros espaços que podem ser tomados. Ela sabe muito bem da importância de reconhecer os ambientes marginalizados a que são sujeitas. Mas sabe mais da relevância de brigar e marcar presença em outros lugares. "Não nego a prostituição, acho que tem que ser protegida socialmente, ela é totalmente desregulamentada e é por isso que acontecem tantos abusos e estigmas. Mas temos que reconhecer que a maioria que está não é por escolha. É porque é a obscuridade, a clandestinidade. Nesse lugar você pode existir, no lugar da invisibilidade. E a gente tem que mudar isso e querer estar em todas as áreas. Temos talento e tudo que é e necessário, só não temos oportunidade."

Virei ativista e procuro trazer outras e outros junto comigo para que não seja eu sozinha ali porque fica muito frágil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O interesse maior de Ave é justamente jogar luz sobre aquilo que estava escondido, invisibilizado, esquecido.

Agora, aos poucos, sente que algumas oportunidades estão surgindo. Além de todos os trabalhos no teatro, Ave está também na universidade cursando letras. Já trancou, saiu e voltou. As vezes é um esforço grande para ela, mas sabe da importância de estar ali na academia. E resiste. Porque grande parte do processo é feito disso. E busca ainda ressignificar muita coisa. Foi o que fez com seu livro. O título para ela é bastante emblemático. "Queda sempre foi visto como algo negativo. Várias quedas são enxergadas como se você estivesse mal, expulsa, derrotada, separada, tudo isso. Como esse lugar da margem... Colocaram a gente aqui, não foi nossa escolha. O que vamos fazer? Ao invés de lixo humano vamos fazer uma reunião de pessoas que podem transformar e construir outro nível de sociedade. A queda também é isso... um outro tipo de queda como fala no prefácio. Nossa queda será cada vez mais para o alto."

Ela realmente acredita na virada. E apesar do sentimento de realização e de sentir reconhecimento por seu trabalho, não se dá por satisfeita não. "Não estamos naturalizados, não estamos! Mas é um outro momento, de fato, onde alguns espaços se abrem, mas isso não quer dizer que os lugares da vulnerabilidade deixaram de existir. Pelo contrário. Essa falsa sensação de que tem mais aceitação...Tá bom, tem, mas quem estava lá 'cagada' [sic] continua desse jeito e a gente esquece dessas pessoas observando os poucos espaços que se abriram. Não podemos esquecer e usar uma coisa para apagar ainda mais quem já estava apagado."

A gente tem que mudar isso e querer estar em todas as áreas. Temos talento e tudo que e necessário, só não temos oportunidade

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Temos talento e tudo que é e necessário, só não temos oportunidade."

Não é o que ela quer. Seu interesse é justamente jogar luz. Bem no meio do palco. Onde ela quer estar com seu corpo, seu nome, sua poesia. E muito mais.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.