POLÍTICA
21/07/2018 17:45 -03 | Atualizado 23/07/2018 01:22 -03

PSOL confirma Guilherme Boulos como candidato oficial para a disputa da Presidência

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) disputará a Presidência da República pela primeira vez e foi escolhido neste sábado (21).

Guilherme Boulos foi apresentado como candidato oficial do PSOL à Presidência por aclamação durante convenção neste sábado (21), em São Paulo.
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Guilherme Boulos foi apresentado como candidato oficial do PSOL à Presidência por aclamação durante convenção neste sábado (21), em São Paulo.

O PSOL oficializou, na tarde deste sábado (21), o nome de Guilherme Boulos, de 36 anos, como candidato à Presidência da República, ao lado de Sônia Guajajara na chapa, como co-presidente. Boulos é líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), e Sônia é liderança indígena e ativista ambiental.

"Queiram eles ou não, nós vamos implementar uma política de se apropriar de prédios vazios para fazer moradia popular. Porque trabalhador pode morar em lugar bom também. Queiram eles ou não nós vamos fazer reforma agrária e vamos enfrentar o agronegócio no Brasil", disse em discurso oficialmente como candidato à presidência.

O partido entra nas eleições 2018 com o discurso de combate aos privilégios e enfrentamento das desigualdades. Também promete levar temas como legalização do aborto e segurança pública para o palanque.

Participaram do evento lideranças do PSOL, como os deputados federais Ivan Valente (SP) e Luiza Erundina (SP), as vereadoras Sâmia Bonfim (SP) e Talíria Petrone (RJ) e os deputados estaduais Carlos Giannazi (SP), Marcelo Freixo (RJ) e o deputado federal Chico Alencar (RJ).

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Sônia Guajajara é ativista ambiental e vice na chapa com Guilherme Boulos à Presidência pelo PSOL.

Em seu primeiro discurso como candidato à presidência, Boulos afirmou que irá enfrentar "o golpe em sua agenda", defender a democracia, e citou a recente condenação de 23 presos nas manifestações de 2013. "Nós queremos denunciar o absurdo que foi a condenação das pessoas que foram presas em 2013. E não foram 23, não, foram 24, que também tem o Rafael Braga, que foi preso injustamente", afirmou.

O candidato fez críticas ao judiciário que, segundo ele, "toma lado e quer decidir no 'tapetão' o que é melhor para o País" e citou a prisão do ex-presidente Lula. "É uma questão de democracia. O compromisso com a democracia não se faz pela metade, se faz por inteiro". Em seu discurso, Boulos afirmou que será prioridade de seu governo "tirar o país da crise que a quadrilha do Michel [Temer] botou."

O candidato reforçou que sua chapa defende o "combate a privilégios" e que não fará alianças com pessoas que estão ligadas ao chamado "centrão". "Temos que dizer com todas as letras: não se avança em direitos sociais e políticas para o povo se não for enfrentando os privilégios do 1%. Temos lado. Essa candidatura tem lado, e é ao lado dos 99%."

Boulos também citou a vereadora Marielle Franco, assassinada em março deste ano, no Rio de Janeiro e garantiu que sua campanha defenderá direitos das mulheres, como a descriminalização do aborto. "Vamos sem medo, e nossa campanha não vai ter medo de defender o direito ao aborto."

O líder do MTST ainda citou que uma das suas prioridades em segurança pública será insistir em projetos que desmilitarizem a polícia, que discutam o papel do exército. "Nós queremos trazer os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil e vamos tratar disso com coragem."

A guerra às drogas no País também foi citada pelo então candidato, ao citar o genocídio da população jovem negra no País. "Não vamos recuar um minuto para dizer que existe genocídio da juventude negra nas periferias."

O candidato finalizou seu discurso afirmando que o projeto do PSOL para a presidência é um projeto de "reconstrução de futuro".

"O que está acontecendo hoje é a maior prova de que precisamos fazer diferente. Nós temos o que eles nunca vão ter: a aliança de movimentos sociais com partidos políticos. Não é o projeto de uma eleição, é o projeto de uma reconstrução de futuro do nosso país", concluiu.

O contexto da candidatura de Guilherme Boulos

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Guilherme Boulos é líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

"Nós vamos tocar nos temas que parte da esquerda se acostumou a tratar como tabu nas eleições", afirma o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, ao HuffPost Brasil. "Temos um programa muito ousado no que diz respeito às liberdades individuais. Vamos enfrentar o debate do aborto de frente, vamos enfrentar o debate da legalização da maconha de frente."

Os partidos de esquerda têm priorizado candidaturas próprias nessas eleições. O PT mantém o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como pré-candidato, e o PDT oficializou na sexta-feira (20) o nome de Ciro Gomes. Manuela D'Ávila é a presidenciável do PCdoB, embora não esteja descartada uma eventual aliança com Ciro ou até mesmo com Lula.

O PSOL defende o direito de Lula de ser candidato. O ex-presidente está preso desde o dia 7 de abril por condenação no processo do tríplex de Guarujá (SP). O petista nega que seja dono do imóvel e afirma que sua prisão é uma tentativa de deixá-lo de fora das eleições. Com a condenação em segunda instância, Lula tem sua candidatura ameaçada pela Lei da Ficha Limpa.

Boulos é próximo de Lula e esteve ao lado do ex-presidente nos dias que antecederam a prisão, quando o petista se reuniu com militância e aliados no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. No discurso que fez antes de se entregar à Polícia Federal, Lula disse que Boulos "é um companheiro da mais alta qualidade" e pediu aos ouvintes que levassem em conta "a seriedade do menino".

No PT, não falta quem demonstre simpatia por Boulos. Alguns defendem que, na hipótese de Lula não poder concorrer, o partido deve apoiar o líder do MTST. O petista Tarso Genro, ex-governador gaúcho, chegou a fazer um aceno público ao PSOL.

"Nós vamos defender que o PT lidere uma nova frente política e convide o companheiro Boulos para ser nosso candidato à Presidência", disse Tarso no debate Os Caminhos da Esquerda, realizado na segunda-feira (16) na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Para o petista, Boulos representa "um espírito que a esquerda vinha perdendo".

Tarso disse ainda que há "vários quadros do PT" dispostos a apoiar Boulos caso Lula não seja candidato. Para um nome que oscila entre 0% e 1% das intenções de voto, de acordo com a última pesquisa Datafolha, tal apoio seria bem-vindo.

"Nós evidentemente defendemos o direito do ex-presidente Lula de ser candidato, mas, se não for, acho que vai ser natural que alguns quadros do PT acabem dialogando com candidaturas de fora. Então a gente espera que o Guilherme possa ser visto por parte da militância do PT, dos quadros e dos eleitores como alternativa à ausência do ex-presidente Lula, se for esse o caso", diz Medeiros.

O PSOL tem por enquanto o apoio do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Se as demais candidaturas passaram as últimas semanas empenhadas em negociar alianças, o PSOL investiu em um programa de governo "construído a muitas mãos".

Com 17 eixos, o programa foi elaborado com a consultoria de intelectuais e especialistas como a economista Laura Carvalho, a urbanista Raquel Rolnik, a cartunista Laerte Coutinho, o filósofo Vladimir Safatle e o escritor Frei Betto.

"É um formato de construção muito inovador. Quanto ao conteúdo, nosso programa é o que vai enfrentar de forma mais veemente os superpoderosos do Brasil. Queremos dar fim aos privilégios que aprofundam a desigualdade. Dos privilégios das castas do serviço público aos privilégios de diferentes setores da economia. Nosso programa vai ser bastante radical nesse sentido", conclui Medeiros.