22/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 22/07/2018 00:00 -03

Larissa Lima: A atleta que navega ao lado de outras mulheres em sua canoa

No 'CanoMama', ela traz força para mulheres que passaram pelo câncer de mama: "É demais estar dentro do mesmo bote, olhar outra pessoa e saber que ela também viveu o mesmo que você."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Larissa Lima é a 137ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Na cultura chinesa, o dragão é o rei da água na terra, o espírito da força e vitalidade em tempestades. Não foi à toa que a atleta de alta performance Larissa Lima, 45 anos, foi parar na canoagem, esporte que o animal mitológico é símbolo. Com uma vida dedicada à prática esportiva e à alimentação saudável, ela perdeu o chão quando, há quatro anos, recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Mas não deixou que isso a definisse. Depois de curada, ela resolveu levar o esporte à outras sobreviventes com o CanoMama, projeto que treina mulheres que passaram por cirurgia e quimioterapia a remarem e se reencontrarem na prática.

Larissa sempre foi atleta, desde criança jogava ou treinava algum esporte. Se formou em nutrição, mas também se profissionalizou como corredora de aventura, e em uma das provas — que muitas vezes incluía muitas modalidades, entre correr a andar de bicicleta, e longas distâncias — ela precisou remar em uma canoa caiçara. Se apaixonou pelo remo de canoa havaiana e dragon boat, e começou a participar de campeonatos. A vida nas corridas deu uma pausa, quando um dia, ela apalpou o seio e encontrou um nódulo. "Fiquei enrolando, achando que era menstruação, vou esperar mais um mês e assim foi indo. Fiz uma biópsia e deu negativo, mas ainda tinham duas outras lesões que precisavam ser investigadas e foram retiradas cirurgicamente", conta.

Ninguém imagina que uma pessoa vegetariana, que não tinha histórico, era atleta, dormia cedo, não usava bebida alcoólica, pudesse ter câncer.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Larissa resolveu lidar com o câncer da mesma forma que lidava com o esporte: era preciso vencer.

"Não deu bom não", foi a frase que o oncologista disse pra ela assim que Larissa entrou para pegar o resultado dos exames. "Eu falei: você pode repetir, por favor, doutor? Como assim 'não deu bom?'. Ele disse pra eu ir pra casa pensar, conversar com a família. Eu disse que não, eu tinha 40 anos, era totalmente independente, queria saber o que eu tenho que ia fazer a partir daquele momento", relembra. Ela saiu de lá com uma mastectomia marcada para a próxima semana e a indicação de radioterapia e quimioterapia. Sentou na escada do consultório e chorou tudo o que tinha que chorar. "As lágrimas pulavam dos meus olhos, mas, depois, respirei e pensei, vamos nessa, eu tenho um plano"

Pra qualquer pessoa que escuta 'você tem câncer', você pensa: eu vou morrer. Como você responde à isso é que faz a diferença.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Com uma vida dedicada à prática esportiva e à alimentação saudável, ela perdeu o chão quando, há quatro anos, recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

Larissa sabia que precisava passar por várias etapas e resolveu lidar com a situação como encarava suas provas no esporte: era preciso vencer. Fez uma segunda cirurgia e sessões de quimioterapia. "O tratamento é o seguinte: você morre e depois ressuscita, tudo é ruim. E como eu era uma garota saudável, achei que não ia sentir tanto, mas já na primeira sessão passei 19 horas vomitando. No meio do processo, fui diagnosticada com tumor metastático, estava numa canoa, e aí, de repente, tive que voltar no percurso e fazer um tratamento ainda mais forte", conta.

"O que eu entendi de tudo isso? O resultado foi uma Larissa completamente transformada. Entendi que a sincronicidade do Universo me fez ser aquela pessoa que tinha que passar por aquilo porque eu era forte. Então, cara, eu transformei isso numa oportunidade de melhoramento e mudança, que foi muito dolorosa. Entendi que eu precisava desenvolver um trabalho que desse sentido para outras pessoas, que era preciso dar amor incondicional para qualquer pessoa que se aproximasse de mim. Se eu acordo com felicidade e amor, o Universo inteiro vai me devolver isso", aponta a atleta e nutricionista.

Eu encarei o câncer como uma oportunidade de adiantamento moral, espiritual e intelectual.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"As lágrimas pulavam dos meus olhos, mas, depois, respirei e pensei, vamos nessa, eu tenho um plano."

Enquanto terminava o tratamento, Larissa começou a buscar por uma missão, uma trabalho que pudesse desenvolver para promover o bem. Tentou vários caminhos, mas nada a fazia se empolgar completamente. Até que um dia recebeu a visita do seu mestre canoeiro, que trouxe a categoria de canoa havaiana para o Brasil, Marcelo Bosi. "Ele chega lá em casa e fala: 'você não vai acreditar, eu recebi uma ligação de uma atleta argentina, naturalizada canadense, que participa de uma federação internacional de mulheres com câncer de mama que praticam canoagem e ela quer trazer o projeto em algum lugar da América do Sul, montar um time'. Aí na hora caiu a ficha, entendi que era isso, que o Universo tava me dando a resposta", diz.

É demais estar dentro do mesmo bote, olhar outra pessoa e saber que ela também viveu o mesmo que você.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Em Brasília, na falta de um barco, as mulheres treinam na canoa havaiana que comporta até seis pessoas.

Depois que terminou a última sessão de quimioterapia, foi liberada 45 dias depois, e a primeira coisa que fez foi começar a desenhar o projeto Canomama com a ajuda de um educador físico, especialista em oncologia, para ajudar as mulheres a se recuperarem, se inserirem num esporte depois de batalhar contra a doença e prevenir a volta do câncer. A embarcação usada na categoria dragon boat, ou no melhor português, bote dragão, suporta 22 mulheres, 10 de um lado e 10 de outro, uma bate um tambor e outra dá direção. A técnica começou na China durante a colheita do arroz no verão e hoje é praticada no mundo todo. Em Brasília, na falta de um barco, as mulheres treinam na canoa havaiana que comporta até seis pessoas.

Segundo Larissa, toda a parte técnica do trabalho é baseada num estudo científico feito no Canadá pelo médico Don Mackenzie, que desenvolveu e numerou as vantagens da canoagem para pacientes que tiveram câncer de mama. A atividade recupera o condicionamento, previne o linfodema, aumenta a auto-estima e melhora a qualidade de vida. Em Brasília, 24 mulheres já participaram do projeto nos últimos dois anos e elas já criaram um time para participar de competições. Em agosto, começa a terceira turma. Larissa esteve no início de julho em Florença, na Itália, em um festival internacional com cinco mil mulheres de 23 países que tiveram câncer de mama.

Sinto que já toquei pessoas suficientes para continuar. O verdadeiro amor é quando você oferece o que você tem de melhor.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"O Canomama já é a realização de um grande sonho."

O CanoMama formou uma associação entre as mulheres que participam do projeto e sonham em comprar um bote dragão, quiçá três para poder organizarem uma regata. Larissa deseja um futuro em que mais mulheres possam ter acesso ao esporte e que o trabalho voluntário perpetue. "Eu adoraria ter um centro náutico com várias canoas havaianas para atender mais mulheres, com um centro de atividade física e avaliação. Que a gente pudesse ofertar para pessoa pelo menos seis meses de treino e se ela fosse picada pela canoagem, continuasse. Mas o Canomama já é a realização de um grande sonho", conta.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail paraeditor@huffpostbrasil.comcom assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC