21/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/07/2018 12:08 -03

Suelen Masiero: A chef de uma cozinha pequena que traz abrigo para todos

Hoje ela administra cozinha colaborativa com foco em alimentar bem por valores acessíveis: “A Pequena Cozinha quer fazer as pessoas comerem melhor, mais saudável. E não precisa ser comida ruim.”

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Suelen Masiero é a 136ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Talvez o senso comum acredite que o caminho natural para uma pessoa que tem ascendência italiana é estar na cozinha, e se enveredar por panelas, frigideiras e fogões desde sempre. Mas definitivamente não foi o que aconteceu com Suelen Masiero, 30. Até descobrir que cozinhar era o seu maior prazer, ela apostou em muitas coisas. Mas há cinco anos, firmou o pé no Rio de Janeiro e se tornou uma chef. Hoje, é dona d'A Pequena Cozinha, junto com a sócia Susan, e diz que não saberia seguir por outro caminho. Administradora de uma cozinha colaborativa, ela sonha em levar comida de qualidade para o maior número de pessoas. Mas o caminho foi longo, e talvez ainda seja.

Antes de se formar em publicidade, graças a uma bolsa integral oferecida pelo governo, Suelen já trabalhou como técnica de informática, babá, cuidadora de idosos, sacoleira e faxineira. Com o diploma na mão, trabalhou no mercado publicitário mas logo percebeu que sua felicidade profissional não estava ali: "Era um ambiente muito massacrante, você não tem tempo para nada, trabalha muito e come mal".

Ela foi descobrir onde a felicidade se escondia. Ficou dois anos trabalhando como au pair, uma espécie de babá, em São Francisco, nos Estados Unidos. Trabalhou e ganhou também uma bolsa de estudos, mas foi o clima da cidade que acendeu nela uma chama que estava guardada ou escondida.

A gente traz os ingredientes naturais para que a comida volte a ter sentido, ser aquela comida que sua mãe fazia quando você chegava da escola.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

"É uma cidade muito cosmopolita. Tem de tudo, comida de todo lugar. É como se você mergulhasse um pouco em cada cultura, então eu me apaixonei pela comida. Comi de tudo, de todas as nacionalidades. Conheci lugares muito baratos, com comidas muito boas e diferentes. Esse mergulho na gastronomia fez eu me apaixonar", explica.

O sangue italiano, claro, também influenciou. "Na minha família todo mundo cozinha, e cada um tem sua especialidade. Qualquer coisa se reúnem para cozinhar. Tudo é comida, e eu sempre gostei, mas nunca me imaginei isso como profissão", conta ela à reportagem do HuffPost Brasil.

Mas ao voltar para o Brasil, a realidade bateu à porta e não foi imediatamente que ela conseguiu viver de cozinha. Trabalhou com marketing, naquele mercado que tanto desgostou, durante mais um ano. Enquanto os dias passavam dentro do escritório, ela traçava metas para estudar gastronomia e se profissionalizar como chef.

Eu sempre gostei de cozinhar, mas nunca me imaginei isso como profissão.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Junto com ela, a sócia Susan administra o negócio. As duas se dividem, mas quem passa maior parte do tempo na cozinha é Suelen.

Ao fim desse período, arriscou tudo. Tudo ou nada. Veio para o Rio quando conheceu o atual marido, Anderson, e deixou em Florianópolis toda a família — "só eu vim!" — em busca da felicidade. E o casamento, como num jogo de dominó, movimentou outras estruturas da vida de Suelen, e foi no Rio que também fez seu primeiro curso de gastronomia, da ONG Gastromotiva.

"Eu não queria vir pro Rio de jeito nenhum, mas vim por causa dele. Foi mais fácil eu vir porque quando se volta de um intercâmbio, estamos mais desapegadas", confessa. Mas hoje reconhece com gratidão tudo que aconteceu na capital fluminense.

No Rio, Anderson dava os primeiros passos com a Universidade da Correria, projeto que tem Suelen como sócia. Tudo conspirava para a cidade ser realmente o cenário da mudança de vida dela. Então ela fincou os pés na cidade, mas no subúrbio, bem distante do Cristo Redentor. Criou A Pequena Cozinha, seu primeiro negócio e seu projeto de vida.

"Quando terminei o curso, percebi que não me daria bem no mercado de trabalho. O mercado de cozinha paga mal e eu cairia na lógica da agência novamente. Como eu já tinha os exemplos de empreendedorismo da Universidade da Correria, eu resolvi abrir meu negócio", conta.

Cozinhar em casa é trabalho de mulher, para a sociedade, mas cozinhar profissionalmente é coisa de homem.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu me sinto realizada e privilegiada por conseguir me dedicar só a isso. A maioria dos empreendedores fazem mil outras coisas e no tempo que sobra eles empreendem."

A Universidade da Correria, por definição de Suelen, é um projeto de educação empreendedora com foco em levar aos alunos informações sobre tecnologia e conhecimento, em uma linguagem mais simples e acessível, para que qualquer pessoa, em qualquer nível social, possa empreender. Com as histórias dos alunos que passaram por ali (na sua própria casa, primeiro local das aulas), a coragem aumentou.

No início, antes do restaurante que serve o público em geral, era só catering, aquele bufê especializado em eventos corporativos ou sociais, sempre com um grupo razoável de convidados. E no início também eram só Suelen e Anderson. Assim ficaram por dois anos, até ela dar mais um passo ousado: abrir o delivery d'A Pequena Cozinha. Por um ano, a cozinha do casal fez as vezes de um restaurante, com tudo que estivesse ao alcance para atender bem.

E se tem uma coisa que Suelen nunca abre mão é de oferecer o melhor para seus clientes. Oferecer o melhor, aliás, é o que rege seu empreendimento.

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A Pequena Cozinha funciona em um espaço profissional no centro da cidade, cedida pela ONG Ação da Cidadania, desde que Suelen consiga fazer uso social do espaço.

"O negócio começou com uma necessidade, como a maioria dos negócios. Era a necessidade de comer melhor na periferia e no subúrbio. Eu nunca encontrei boas opções para comer lá. A Pequena Cozinha, em todos os serviços oferecidos, quer fazer as pessoas comerem melhor, mais saudável. E não precisa ser comida ruim, sem gosto, sem sal. Pode ser muito boa, te fazer bem e conseguir ser acessível, não ser difícil ou com técnicas muito elaboradas", explica.

Ver que a pessoa gosta do que você faz e do prato que você criou é muito apaixonante.

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Administradora de uma cozinha colaborativa, ela sonha em levar comida de qualidade para o maior número de pessoas.

Hoje, A Pequena Cozinha funciona em um espaço profissional no centro da cidade, cedida pela ONG Ação da Cidadania, desde que Suelen consiga fazer uso social do espaço. A forma que ela encontrou para aproveitar melhor todos os equipamentos disponíveis foi abrir as portas para que os empreendedores que passaram pela Universidade da Correria conseguissem tocar seus negócios.

Depois desse impulso inicial, alguns alçaram voo e têm suas cozinhas próprias. Outros chefs e negócios chegaram, não necessariamente associados ao projeto de educação, mas se depender de Suelen, o caráter colaborativo nunca vai se perder, principalmente por entender a dificuldade em empreender.

"Eu me sinto realizada e privilegiada por conseguir me dedicar só a isso. A maioria dos empreendedores fazem mil outras coisas e no tempo que sobra eles empreendem."

A Pequena Cozinha, em todos os serviços oferecidos, quer fazer as pessoas comerem melhor, mais saudável.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Suelen também define a disputa machista que há na cozinha como algo que "ofusca" o real propósito de cozinhar para servir.

Junto com ela, a sócia Susan administra o negócio. É responsabilidade total de Susan o serviço de personal chef, e é função das duas as outras tarefas, como definição do cardápio. Uma preocupação comum é a procedência dos alimentos e, claro, seguir aquele sonho inicial de todo mundo comer bem.

"A comida que a gente faz é uma comida que a gente gosta de comer. Eu não vou cozinhar bem o que eu não gosto de comer. Várias coisas as pessoas pensam que é comida, mas não é. Pensam que é uma coisa, mas é outra. A gente traz os ingredientes naturais para que a comida volte a ter sentido, ser aquela comida que sua mãe fazia quando você chegava da escola", enfatiza.

Ela ressalta que tenta atrelar o ideal, a utopia de alimentar melhor as pessoas, com o rendimento necessário para manter o negócio e sobreviver. Até hoje, tem dado certo, apesar de por sugestões alheias sempre existir a possibilidade de lucrar mais. "Eu posso estar lucrando menos, mas eu quero que o pessoal queira comer, eu quero alimentar bem as pessoas."

A comida que a gente faz é uma comida que a gente gosta de comer.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"A comida que a gente faz é uma comida que a gente gosta de comer. Eu não vou cozinhar bem o que eu não gosto de comer."

Suelen também define a disputa machista que há na cozinha como algo que "ofusca" o real propósito de cozinhar para servir.

"A cozinha é muito machista. Cozinhar em casa é trabalho de mulher, para a sociedade, mas cozinhar profissionalmente é coisa de homem. Todos os principais chefs são homens, e eles têm essa coisa voraz por técnicas, uma disputa. E essa disputa acaba ofuscando a real proposta da cozinha, que é alimentar as pessoas para que elas comam bem, bebam bem e consigam ter uma melhor qualidade de vida", destaca.

E se depender dos esforços empreendidos pela chef, aos poucos o objetivo pode ser alcançado no subúrbio, no centro da cidade e onde mais a informação sobre comida de verdade possa chegar. Paixão e brilho nos olhos não faltará.

"Cozinhar é maravilhoso, tirando a parte do cansaço. Mas você cozinhar e ver que a pessoa gosta do que você faz, gosta da comida que você preparou e do prato que você criou é muito apaixonante", define.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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