POLÍTICA
20/07/2018 09:08 -03 | Atualizado 20/07/2018 10:12 -03

Flerte com centrão não é impedimento para esquerda se juntar a Ciro Gomes

“Quem olha para trás bate no carro da frente”, afirma Carlos Lupi, presidente do PDT.

Com apoio do bloco do centrão, PSB e PCdoB, a coligação de Ciro Gomes (PDT) teria 8 partidos, o que significa mais dinheiro e tempo de propaganda eleitoral.
Adriano Machado / Reuters
Com apoio do bloco do centrão, PSB e PCdoB, a coligação de Ciro Gomes (PDT) teria 8 partidos, o que significa mais dinheiro e tempo de propaganda eleitoral.

O PDT torna oficial nesta sexta-feira (20) o nome de Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e ex-ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como presidenciável, à espera de uniões partidárias que dêem musculatura à sua candidatura. Hoje, ele atinge, no máximo, 10% das intenções de voto. Apesar das diferenças ideológicas, o flerte com o centrão não é um impedimento para para o PCdoB se unir ao pedetista.

"Achamos que, a exemplo do que foi feito com Lula e Dilma [Rousseff], é uma necessidade para a governabilidade", afirmou ao HuffPost Brasil a presidente do PCdoB, deputada Luciana Santos (PCdoB-PE). Formaram parte da base dos governos petistas partidos como MDB, PP e PR, que apoiaram o impeachment e ainda ocupam cargos no governo de Michel Temer.

Conhecido como centrão, o grupo formado por DEM, PRB, PP e Solidariedade ganhou adesão do PR na última quarta-feira (18) e tende apoiar Geraldo Alckmin (PSDB), em vez de Ciro. A decisão, contudo, só deve se tornar oficial na próxima quinta-feira (26). O tucano já conta com alianças com o PTB e PSD e espera o apoio formal do PPS e PV.

Internamente, lideranças criticaram o estilo explosivo do pedetista e a agenda diferente daquela defendida pelo grupo. Também consideram o tucano mais previsível.

Uma das legendas que protagonizou o discurso de que o impeachment foi um golpe e de que Lula é um preso político, o PCdoB, por sua vez, reúne seu comitê central no fim de semana para discutir se mantém a candidatura de Manuela D'Ávila ao Palácio do Planalto. O anúncio da escolha deve ocorrer no domingo (22). O apoio dos comunidstas também é cobiçado pelo PT.

Adriano Machado / Reuters
Após encontros com Ciro Gomes, PCdoB decide no fim de semana se mantém candidatura de Manuela D'Ávila ao Palácio do Planalto.

Dentro do PCdoB, a maioria defende continuar com a deputada na cabeça de chapa. Manuela chegou a se dispor a abrir mão da candidatura se houvesse uma união do PCdoB com PT, PDT e PSol, mas não houve consenso sobre um nome único. Tanto PT quanto PSol insistem em manter como presidenciáveis, respectivamente, Lula e Guilherme Boulos.

Santos lamenta a pulverização dos nomes na corrida eleitoral e vê com bons olhos a aproximação de Ciro ao centrão. "Para nós, Ciro vai consolidando algo que sempre defendemos, que é a frente ampla, atraindo setores diversos. Precisava ser com todo mundo, com o núcleo político mais à esquerda, como o PT também, mas como isso não está acontecendo, permanece a fragmentação", afirmou.

Diante da união do centrão com Alckmin dada como certa nos bastidores, apesar de ainda não ser oficial, o pedetista têm se esforçado em uma aproximação com a esquerda. Nesta quinta-feira (19), em evento com sindicalistas em Brasília, Ciro criticou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato ao Planalto pelo PT. "O Brasil nunca será um país em paz enquanto o companheiro Luiz Inácio Lula da Silva não restaurar a sua liberdade. Eu luto por isso", afirmou.

Tempo e dinheiro para campanha

Presidente do PDT, Carlos Lupi minimiza as diferenças ideológicas entre os dois campos que avaliam apoiar Ciro. "Quem olha para trás bate no carro da frente", afirmou ao HuffPost Brasil. De acordo com ele, o objetivo é construir alianças de centro-esquerda e a expectativa é de conseguir o apoio do PSB, que também tem flertado com o PT. A sigla se reúne no próximo dia 30.

Se conquistasse o apoio do bloco do centrão e das duas legendas de esquerda, a coligação do PDT teria 8 partidos, o que garantiria mais dinheiro, maior tempo de propaganda de rádio e televisão e maior capilaridade, ou seja, reforço da campanha presidencial nos estados.

José Cruz/ Agência Brasil
Presidente do PDT, Carlos Lupi, cumprimenta a então presidente Dilma Rousseff na convenção do PDT em 2015.

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) só irá divulgar oficialmente o tempo de propaganda de cada legenda após o fim dos registros de candidaturas, em 15 de agosto, mas a estimativa é que Ciro passasse de 33 segundos para 4 mininutos e 42 segundos com o apoio das 7 legendas. A cota do Fundo Eleitoral já foi definida, sendo que o limite de gastos para qualquer campanha presidenial é de R$ 70 milhões.

Cota do Fundo Eleitoral

PP: R$ 131 milhões

PR: R$ 113,1 milhões

PSB: R$ 118 milhões

PDT: R$ 61,5 milhões

DEM: R$ 89,1 milhões

PRB: R$ 66,9 milhões

Solidariedade: R$ 40,1 milhões

PCdob: R$ 20,5 milhões

O vice na chapa de Ciro também deve vir dos partidos que formarem a coligação. Ao se unir ao bloco eleitoral do centrão, ficou definido que o grupo indicaria o empresário Josué Alencar (PR), filho do ex-vice-presidente José Alencar, para o posto, independe de escolher Ciro ou Alckmin.

Lupi disse que ainda não conversou sobre o assunto, mas que aprova o nome. "Seria uma ótima opção. É um amigo pessoal. Já convidei 200 vezes para vir para o PDT. Mas isso tem de ser conversado com todo o time da aliança", afirmou. Alencar se encaixaria no perfil de empresário do Sudeste almejado pelos pedetistas. O PSDB também aprovou a indicação.

Reprodução / Facebook
Filho do ex-vice-presidente José Alencar, Josué Alencar é cotado para vice de Ciro Gomes.

Outro nome cogitado para número 2 de Ciro é o pré-candidato ao governo de Minas Gerais do PSB, Marcio Lacerda. Nesta quarta (18), ele assumiu publicamente pela primeira vez o apoio ao ex-governador do Ceará. Questionado sobre o socialista ser um plano B, o presidente do PDT desconversou. "Cada sofrimento no seu tempo. Agora é a convenção, a indicação do Ciro [como pré-candidato] e ampliar todas conversas", afirmou.

Divergência com o centrão

Um dos entraves para a adesão do centrão ao ex-ministro são posicionamentos econômicos. Declarações de Ciro favoráveis ao controle cambial a a limites para o pagamento da dívida pública são vistas com desconfiança pelo mercado financeiro. Integrantes da campanha afirmam que estão sendo estudados ajustes possíveis.

Responsável pelo programa econômico do PDT, Mauro Benevides se reuniu na quarta com o economista Claudio Adilson Gonçalez, indicado pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), um dos nomes pró-Ciro no Democratas, mas ainda não há resultados práticos após o encontro. "Temos linhas gerais do programa de governo. O programa em si, o destrinchamento, são aspectos de cada setor depois formulados com todos partidos. Não só o centrão", minimizou Lupi.