POLÍTICA
20/07/2018 16:02 -03 | Atualizado 20/07/2018 16:08 -03

Fake news: O impacto das notícias falsas em ano de eleições

O que são fake news? Por que se diferenciam dos velhos conhecidos boatos e fofocas?

O que são fake news?
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O que são fake news?

Elas estão no grupo da família, do trabalho e em correntes do Whatsapp. Aparecem na sua página inicial do Facebook em vídeos curtos e editados. Podem vir acompanhadas de imagens ou até mesmo na estética de um meme. Possuem um título chamativo, poucos parágrafos escritos e nenhum contexto sobre as informações vagas. O tom é alarmista, exagerado e desperta o que há de mais curioso em você. Ou então, são duas ou três linhas dizendo aquilo tudo exatamente que você queria ouvir sobre o "político x".

O que são fake news? Por que se diferenciam dos velhos conhecidos boatos e fofocas? Elas ganham outra dimensão na internet?

A expressão "fake news", ou notícias falsas, talvez seja um dos termos mais presentes no debate político atual. O conceito se espalhou durante as campanhas eleitorais americanas e hoje, dois anos depois da eleição de Donald Trump, segue sendo um instrumento político em meio ao debate polarizado nas redes e fora delas.

Como surgem as notícias falsas?

De acordo com a pesquisadora da Digital Harvard Kennedy School Yasodara Córdova, o conceito de fake news nasceu para desacreditar a imprensa nos Estados Unidos em meio a campanha eleitoral que culminou na vitória de Donald Trump na presidência.

Basta uma pesquisa rápida no Google para identificar que o pico de buscas sobre o termo se deu entre outubro e novembro de 2016, mantendo-se em alta até fevereiro de 2017.

As buscas estavam, sobretudo, atreladas a histórias como a de que o Papa havia apoiado a candidatura de Donald Trump; ou ainda, a de que a certidão de nascimento de Barack Obama era falsa; ou até mesmo de que o ex-presidente havia sido o fundador do Estado Islâmico.

A mentira política em um mundo de pós-verdade

Naquele mesmo ano, uma outra palavra chamou atenção do noticiário americano: pós-verdade ou "post-truth", em inglês.

Eleita como a palavra mais simbólica daquele período pelo dicionário Oxford, a instituição classificou a expressão como um substantivo "que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais".

Uma reportagem da The Economist ainda em 2016 argumentou que os políticos sempre mentiram, mas que Donald Trump havia elevado essa estratégia a outro patamar.

"A política da pós-verdade é mais do que apenas uma invenção das elites angustiadas porque foram superadas. O termo identifica exatamente que há de novo: a verdade não é falsificada ou contestada, mas simplesmente de importância secundária. Há algum tempo, o propósito da mentira política era criar uma visão falsa do mundo. Mas as mentiras de homens como o senhor Trump não funcionam assim. Não pretendem convencer as elites, mas reforçar preconceitos", diz o texto da revista.

O que marcou aquele período foi a o fato de que as mentiras espalhadas na web tiveram forte influência na radicalização do discurso do eleitorado pró-Trump no país. Elas também tiveram maior alcance do que as histórias contadas pela própria mídia tradicional.

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O presidente Donald Trump.

Com o volume até então inédito de informações produzidas pelas novas tecnologias de informação (TICs), as pessoas tendem a procurar em suas redes sociais informações que confirmem, validem, incentivem ou até mesmo respondam as suas verdades individuais.

De acordo com a pesquisa do Pew Research Center, 64% dos americanos dizem que notícias falsas causam uma grande confusão sobre os fatos básicos das questões e eventos da vida cotidiana. Tal impressão é compartilhada em todos os níveis educacionais, afiliações políticas e variadas características demográficas. A pesquisa mostra ainda que, apesar de 39% se considerarem muito confiantes para identificar fake news, 23% dos americanos já compartilharam notícias falsas, e 14% deles afirmam que sabiam que o conteúdo não era verdadeiro.

A pós-verdade no Brasil

No Brasil, o impacto de um dos principais produtos da era da pós-verdade ainda está sendo analisado. O pico de buscas pelo termo fake news está acontecendo em pleno 2018.

"Trump conseguiu banalizar a imprensa americana durante a sua campanha. No Brasil, esse movimento é ainda mais sério, pois não temos uma mídia equilibrada. O sistema de concessões não é democrático e não temos neutralidade de rede. Não temos bibliotecas decentes, atualizadas, dicionários online. As escolas públicas estão em declínio e as particulares focam mais no vestibular do que na vida atual dos estudantes. Não temos imprensa local. O Brasil vive uma crise de desinformação que vem sendo armada desde antes da Internet se tornar algo habitual e as fake news são resultado disso", explica a pesquisadora.

Para Córdova, esse tipo de conteúdo sempre existiu e sempre vai continuar existindo.

Ela lembra que ainda não há um consenso entre os cientistas que diferencie rumores de boatos, por exemplo. Mas chama atenção de que há um interesse financeiro atrelado às definições de notícias falsas.

"Boatos, rumores, notícias falsas, calúnias, difamação e muitas vezes até o discurso de ódio ou revenge porn entram no balaio das fake news, por exemplo. Na internet, certos tipos de conteúdos acabam se tornando virais, e aí são espalhados numa velocidade em que fica difícil reparar o erro. São assuntos que carregam características em comum, e provocam um certo tipo de atração nas pessoas, o que se encaixa no modelo de negócios de venda de anúncios das plataformas de redes sociais. Quanto mais absurdo o boato, mais ele 'pega'. Achar que a terra é plana é absurdo? É. Mas atrai cliques", explica a pesquisadora em entrevista ao HuffPost Brasil.

Por que as fake news interferem no debate público?

Neste contexto, é preciso entender que as fake news não são só notícias erradas ou falsas, são também informações manipuladas para enviesar o debate político.

"Isso é uma estratégia. Na internet brasileira o 'falem bem ou falem mal, mas falem de mim' faz muito sentido. Existem candidatos e pessoas que procuram o escândalo, dando declarações espúrias ou fazendo coisas bizarras só pra se manter nos holofotes. A idéia é que se o eleitor pelo menos lembrar o número do voto eles já saem ganhando", argumenta Córdova.

De acordo com a pesquisadora, a estratégia do uso de notícias falsas não é novidade nas eleições do Brasil:

É uma guerra suja entre todos os partidos políticos.Yasodara Córdova, pesquisadora da Digital Harvard Kennedy School

Mas, se antigamente a estratégia era espalhar os famosos "santinhos" com informações falsas sobre o adversário, agora a estratégia é espalhar notícias e criar redes de confiança entre as pessoas que acreditam nas mesmas mentiras.

"Pode se preparar. Vai ser um festival de teorias da conspiração e desinformação que já começou, basta ver o caso da Marielle, ou o caso do menino Marcos Vinícius da Silva, onde havia pré-candidatos compartilhando fotos fabricadas em que ambos apareciam com traficantes."

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Protesto contra fake news.

É possível combatê-las?

Córdova argumenta que o TSE deveria ter imposto regras mais duras para candidatos que espalham fake news como estratégia política. A penalização seria desde a impugnação da candidatura até o direito de resposta nas redes do próprio candidato que espalhou a mentira.

Mas, e quando não é possível identificar a origem das notícias falsas, como no caso em que perfis-robôs são criados para viralizar os conteúdos?

Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP e responsável pelo projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital, defende que a questão das notícias falsas só vai encontrar uma solução quando a sociedade estiver menos polarizada.

"Nas fake news, a gente pode atacar os sintomas ou as causas. A causa é muito difícil, por que é a polarização política. O que a gente realmente precisa é mudar a cultura política e despolarizar a sociedade", explica o professor.

Para Sergio Amadeu, professor da UFABC e coordenador do Laboratório de Tecnologias Livres - LabLivre, é preciso uma "vigilância permanente de como a verdade é formada".

"A sociedade é cada vez mais organizada na espetacularização e isso permite uma politica de escândalos, o que favorece que a mentira seja elevada a condição de debate legítimo. Na maior das boas intenções, tem pessoas que dizem que vão criar algoritmos para identificar notícias falsas. Eu acho um perigo. Como você identifica uma notícia falsa? Isso tem que ser feito a todo tempo, pela rede, com a participação de todas as pessoas. E tem que ser feito com uma disposição do exercício democrático. Porque a disputa com base em uma mentira constrói parâmetros que são muito frágeis, muito instáveis."

Como identificar notícias falsas?

Sabe aqueles conteúdos que parecem ter sido produzidos por um jornalista profissional, mas ao realizar uma leitura mais atenta, você percebe que não foi? Pois é. Desconfie.

Para Francisco Brito Cruz, diretor do centro de pesquisa em direito e tecnologia Internet Lab, o primeiro passo para se identificar notícias falsas é reconhecer o formato com que o conteúdo se apresenta ao público.

"É diferente do boato. No boato, alguém me diz algo e eu escolho acreditar naquilo ou não. O boato não tem um formato de notícia. O boato tem a ver como ele circula. O conteúdo do boato pode ser conferido depois ou não. Já a notícia falsa é um conteúdo em geral disseminado na web, que imita uma página de um jornal, de uma revista digital. Tem uma manchete, tem uma linha fina, tem um jeitão de noticia, mas não foi produzido conforme os protocolos do jornalismo. A fake news usa essa estética do jornalismo para veicular um conteúdo falso e flerta com o discurso de que ali está a verdade."

Guia para não cair em notícias falsas na internet

1. Nunca leia apenas o título ou manchete

2. Desconfie dos textos com tons alarmistas

3. Saiba diferenciar informações vagas e imprecisas de informações contextualizadas

4. Confira a data de publicação do artigo

5. Cuidado com os vídeos e áudios porque são facilmente editáveis

6. Pesquise se a informação foi publicada por outras mídias de sua confiança. Busque em sites de jornais algo relacionado aquele conteúdo

7. Consulte as fontes oficiais, caso a informação seja atribuída a algum órgão público

8. Verifique antes de compartilhar. Antes de repassar qualquer conteúdo, certifique-se de que ele é confiável