ENTRETENIMENTO
20/07/2018 12:46 -03 | Atualizado 20/07/2018 15:47 -03

Estilista brasileira Silvia Ulson é acusada de plágio em sua nova coleção de moda praia

A grife de roupa de banho Bfyne trouxe à tona semelhanças gritantes entre maiôs da linha de Silvia Ulson e uma de suas peças apresentada em coleção passada.

A Bfyne, grife de roupa de banho da designer nigeriana americana Buki Ade, acusou a estilista brasileira Silvia Ulson de plágio depois de Ulson mostrar sua nova coleção na Miami Swim Week, no último dia 12 de julho.

Uma representante da Bfyne disse ao HuffPost que a coleção mais recente de Ulson tem semelhanças gritantes com sua própria coleção Sahara, de 2017, inspirada na cultura nigeriana da grife.

"Foi muito importante para nós executar corretamente", disse a representante da Bfyne. "Quisemos levar um toque sexy ao estampado do dashiki e mudar o modo como o estampado é visto, transformando-o em algo que ninguém viu antes."

De acordo com a OkayAfrica, um dashiki é uma vestimenta folgada que tem origem na África Ocidental como uma túnica masculina de trabalho, confortável. Segundo o site, o dashiki "é reconhecido por ser distintivamente e singularmente africano".

"Nós vivemos e respiramos nossa cultura, e cumprimos nossa missão de mostrar isso através de nossos projetos e da estampa dashiki", acrescentou o representante da Bfyne.

Veja um dos maiôs da Bfyne à esquerda, e à direita um dos de Ulson, usados com cocares de penas.

Bfyne/Getty

Não há como negar: a acusação contra Ulson é forte. Não apenas as estampas são quase idênticas como o corte dos maiôs parece ser igual. Veja mais algumas comparações:

Bfyne/Getty
Bfyne/Getty

"Ficamos totalmente espantados ao ver que outra estilista pôde exibir réplicas do nosso trabalho na Miami Swim Week e dizer que era trabalho dela", falou a representante da Bfyne, dizendo que ela e sua equipe ficaram "chocadas".

A representante também criticou Silvia Ulson por colocar modelos usando cocares de penas no desfile, dizendo que intenção foi de "enganar as pessoas, levando-as a pensar que a estampa e o design eram de inspiração indígena americana".

Antes de seu desfile, Ulson compartilhou no Instagram imagens que supostamente teriam inspirado a coleção. Essas imagens foram tiradas do ar desde então. Elas mostravam amostras de cores, detalhes com contas e imagens de indígenas brasileiros usando cocares tradicionais.

Ulson escreveu em português na legenda, segundo tradução feita pelo HuffPost:

"Brasilidade. Os índios usavam pintura corporal como meio de expressão ligado a diferentes manifestações culturais em sua sociedade. Para cada evento há um tipo específico de pintura: para o luto, a caça, o casamento, a morte. Todo o ritual indígena é expresso em seus corpos na forma de pintura, essa é a forma mais intensa de expressão artística dos indígenas. A tinta usada é de urucum, jenipapo ou babaçu. Arte viva!"

O relato de Silvia Ulson também mostra imagens dela tendo um encontro com indivíduos da tribo Krukutu.

A representante da Bfyne disse que elas tomaram conhecimento da coleção de Ulson pelo Instagram e também foram alertadas para ela por modelos que trabalharam com elas anteriormente e assistiram ao desfile de Silvia Ulson. Ela disse que outro membro da equipe da Bfyne foi a Miami para falar com Ulson, que alegou que as peças eram originais e não pediu desculpas.

O HuffPost procurou falar com a equipe de Ulson sobre as acusações da Bfyne, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

A situação inteira serve para mostrar que o plágio e a apropriação cultural continuam presentes no setor da moda. Silvia Ulson não é a primeira estilista ou grife a ser acusada de uma coisa ou outra (ou das duas). Quem se lembra de quando Marc Jacobs apresentou um desfile com modelos usando dreads, sendo que quase todas eram brancas? Ou de quando a Victoria's Secret colocou Karlie Kloss na passarela usando um cocar de penas não muito diferente dos cocares exibidos por Ulson? E o que dizer de todas as grifes de "fast fashion" que plagiaram completamente as botas de Balenciaga "que pareciam meias"?

Como já escrevemos antes, os estilistas precisam ser mais transparentes em relação às suas fontes de inspiração. E precisam admitir seus erros.

LeRhonda Manigault-Bryant, professora adjunta de estudos africanos no Williams College, disse ao HuffPost em fevereiro: "Somos inspirados por outras pessoas o tempo todo, e isso também se aplica aos acadêmicos. Mas não devemos cometer plágio intelectual ou cultural. Precisamos realmente sinalizar a homenagem e dar reconhecimento onde é devido."

A equipe da Bfyne concordaria com ela. Perguntada sobre o que outros estilistas podem aprender com sua situação, a representante disse: "Inspire-se, mas não reproduza igual".

Esta reportagem foi atualizada depois de Silvia Ulson ter tirado uma imagem de sua conta no Instagram.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

ATUALIZAÇÃO:

Em nota enviada ao HuffPost Brasil, a marca Silvia Ulson menciona "perplexidade" diante dos "boatos de plágio em 5 modelos dos 18 desfilados pela marca na edição 2018 do Miami Swim Week".

O texto explica que a marca adquiriu no Brasil os modelos com a estampa em questão "através de um suposto criador de estamparia e modelagens".

Somente após o desfile e repercussão da imprensa sobre a acusação de plágio, a grife descobriu "que essas estampas e peças não eram exclusivas e sim vendidas em quantidade por sites em todo o mundo e nenhuma com referência à marca envolvida no boato".

Leia o texto na íntegra:

Em atenção à Imprensa, aos Clientes e Amigos da marca SU da estilista Silvia Ulson, declaramos nossa total perplexidade com os boatos de plágio em 5 modelos dos 18 desfilados pela marca na edição 2018 do Miami Swim Week, que aconteceu no último dia 12 de Julho, no Hotel Faena, em Miami.

O fato principal aconteceu ainda no Brasil onde os 5 únicos modelos com estampa foram oferecidos através de um suposto criador de estamparia e modelagens diferentes das que já prevíamos e fora criado para o desfile. Por se tratar de desenhos com a proximidade do tema escolhido para o evento que neste ano teve como inspiração os povos indígenas, houve um consenso que essas peças entrariam na coleção, uma vez que fossem exclusivas, o que foi garantido na compra.

Infelizmente, após o evento, que foi um sucesso e por isso houve repercussão por toda a imprensa americana e estrangeira, tivemos a desagradável notícia de que essas estampas e peças não eram exclusivas e sim vendidas em quantidade por sites em todo o mundo e nenhuma com referência à marca envolvida no boato.

A informação e a constatação de que essas peças não são exclusivas e usadas por outras marcas e sites especializados em venda de moda praia em diversas partes, desmente a denúncia criminosa e desagradável envolvendo a SU. Por conta disso, medidas judiciais nos Estados Unidos e no Brasil já foram tomadas, uma vez que tal episódio fere nosso princípio empresarial, moral e devido aos ataques que a marca vem sofrendo através de perfis fakes nas redes sociais e mesmo após bloquearmos, outras contas vem surgindo, a fim de causar alvoroços desnecessários e que precisam ser identificados de onde partem para a devida punição.

Nós da marca, bem como a estilista Silvia Ulson, nos sentimos injustiçados e usados como o pivô de um escândalo sem fundamento, diferente do histórico impecável e do profissionalismo adotado em diversos outros projetos nos mais de 5 anos de atividades, sendo que somos os maiores prejudicados e enganados nesta infeliz história.

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