20/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 20/07/2018 10:32 -03

Flávia Maoli: Quando o diagnóstico do câncer traz uma nova forma de encarar a vida

Ela foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin pela primeira vez aos 23 anos, e deixou a arquitetura para cuidar de outras pacientes: "Conforme o tempo vai passando e o câncer fica longe, tu voltas a ser imortal."

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Flavia Maoli é a 135ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Aos 23 anos, a estudante de arquitetura Flávia Magalhães de Oliveira percebeu uma bolinha no pescoço, que aumentava de tamanho a cada novo exame no espelho. Na mesma época, começou a ter reações alérgicas cada vez que tomava cerveja - inchaço e uma espécie de taquicardia a acometiam.

Logo descobriu que eram sintomas de um linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que ataca o sistema linfático e que é mais comum em jovens adultos, entre 15 e 40 anos, e, entre estes, mais frequente entre os 25 e os 30 anos, segundo o Instituto Nacional do Câncer. Em um ano, Flavia tratou a doença com radio e quimioterapia, eliminou o tumor de 5 centímetros, retomou a faculdade.

Não se reconhecer no espelho é a pior parte. Ou não.

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"Este foi o momento mais difícil de todos. Eu estava ótima, correndo, estudando. Não sentia nada!"

Dois anos depois, silenciosamente, o câncer voltou. Desta vez o nódulo dentro do peito foi descoberto em um exame de rotina. "Este foi o momento mais difícil de todos. Eu estava ótima, correndo, estudando. Não sentia nada!", conta Flavia. Além da quimioterapia, o tratamento exigia um transplante de medula óssea. "Era a segunda vez passando por tudo aquilo, perdendo cabelo. Eu abria a internet e não achava nada que me ajudasse". Foi a motivação para criar o blog Além do Cabelo, definido por ela como um "portal de entretenimento para pessoas com câncer". Ali, dava dicas de maquiagem, uso de perucas, de lenços. O foco era no bem estar de outros pacientes.

Autoestima é se sentir bem na parte física e psicológica, e também ver o seu valor como ser social, sentir-se útil.

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No dia 26 de julho de 2014, aconteceu a primeira Feira da Beleza, ação que inaugurou o Projeto Camaleão, do qual Flavia é diretora-presidente.

Foi cerca de um mês depois do segundo diagnóstico que Leon Golendziner e Bruno Kautz a chamaram para conversar. Conheciam o blog e convidaram Flavia a trabalhar com eles na ideia de um projeto social para pacientes de câncer. "Eu já atuava com terapia de grupos, e imaginei o efeito que aquilo que ela dizia no blog teria se fosse ao vivo", lembra Leon, então recém-formado em psicologia.

No dia 26 de julho de 2014, aconteceu a primeira Feira da Beleza, ação que inaugurou o Projeto Camaleão, do qual Flavia é diretora-presidente. No evento, viabilizado por um financiamento coletivo, foram oferecidos consultorias de moda, oficinas de maquiagem e de uso de lenços e perucas, fotógrafos, coquetel. "É uma feira de autoestima, para mostrar que a gente pode ser feliz durante o tratamento e vivendo com a doença", diz Flavia. De lá para cá, as feiras se repetiram, contando com ajuda voluntária de profissionais e apoio de patrocinadores.

No hospital, eles tratam o câncer; aqui, tratamos as pessoas.

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"Nada é. Tudo está", dizem as tatuagens de Flávia, que servem de lembrete.

Enquanto se dedicava ao Camaleão, Flavia perseguia outras metas: o transplante de medula e a formatura em arquitetura. Escreveu o trabalho de conclusão do curso durante o tratamento quimioterápico, e, contrariando as próprias expectativas, conseguiu participar da cerimônia de colação de grau - usando uma peruca bem bonita. "Eu não queria receber o diploma careca, fazer um monte de gente que nem me conhece chorar. A formatura era minha, não do câncer!". A comoção foi inevitável, entretanto: quem conhecia a história dela puxou uma salva de palmas do auditório inteiro em pé.

O transplante finalmente aconteceu, e Flavia concluiu o segundo tratamento em outubro de 2014. Mas abriu mão da carreira de arquiteta. Passado o período de recuperação, voltou às palestras e oficinas no Camaleão. "Sentíamos falta de um espaço nosso, pois dependíamos que apoiadores emprestassem os lugares. Resolvemos dar outro peitaço". Em março de 2017, os três empreendedores organizaram um novo financiamento coletivo para alugar o imóvel que hoje é a sede da associação, a Casa Camaleão, em Porto Alegre.

Muita gente se dá conta de que a vida é curta para trabalhar no que não gosta, para viver um relacionamento ruim.

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Pelo terceiro ano, a organização está produzindo o calendário beneficente chamado 'Camaleoas contra o Câncer'.

Além das feiras, a Casa abriga um brechó permanente, cursos, oficinas, sessões de terapia. A ideia é tirar os pacientes da rotina de hospital e remédios, trazê-los para um lugar alegre e produtivo. Os cursos, como escrita criativa, fotografia, encadernação, crochê, são abertos ao público (que, diferentemente dos pacientes, paga pela participação). Também há uma grade semanal de aulas de yoga ministradas pela própria Flavia, que descobriu a prática durante o segundo tratamento. "Quando curei o primeiro câncer, voltei à vida normal: comia Doritos com Red Bull enquanto virava noites trabalhando, almoçava um Miojo. Na segunda vez, mudei minha alimentação, cortei o açúcar, fazia yoga todos os dias", recorda. Hoje, ela mantém uma dieta equilibrada, mas sem radicalismos. "Tenho fases superorgânicas, outras em que tomo Cola-Cola. A vida é muito curta para passarmos dizendo não, tem que se permitir de vez em quando".

"A gente vive várias fases, desde o diagnóstico. Quando termina o tratamento, é: sobrevivi, e agora? Muita gente se dá conta de que a vida é curta para trabalhar no que não gosta, para viver um relacionamento ruim. Eu passei três anos com medo, qualquer dor no dedo achava que era metástase". Flavia, a "veterana", tem o papel de acalmar, de trocar com quem está passando pelo que ela já passou.

Estar em contato com pacientes me lembra que tudo é relativo.

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Flávia escreveu o trabalho de conclusão do curso durante o tratamento, e, contrariando as próprias expectativas, conseguiu se formar.

A Casa Camaleão também mantém um banco de perucas, que são emprestadas às pacientes. E, pelo terceiro ano, a organização está produzindo o calendário beneficente Camaleoas contra o Câncer, no qual as fotos são protagonizadas por mulheres em tratamento. Na edição 2019, a temática é cinema: cada imagem reproduzirá uma cena famosa, como a da cerâmica em Ghost e a cama de rosas de Beleza Americana.

Flavia está transformando os registros do blog e sua experiência em livro. Vai ser uma espécie de manual, diz ela: como amarrar lenços, como dar a má notícia, como se defender de colocações infelizes. "A gente ouve cada frase idiota... 'você deixou a doença entrar'; 'a tia da prima da minha vizinha teve linfoma e morreu'; 'tu ainda estás no primeiro câncer?'".

Passar duas vezes por esta experiência fez Flavia lembrar de um personagem do livro O Pequeno Príncipe, o aviador que queria ser artista. Quando era criança, ele desenhou uma jiboia que engoliu um elefante - mas quase todo mundo enxergava no desenho um chapéu. Crescido, ele usava a ilustração como filtro: quem via nos traços o chapéu era tratado como adulto; quem reconhecia um elefante dentro de uma jiboia acabava conversando com o homem sonhador e verdadeiro. A tatuagem é para Flavia um lembrete dos tempos em que via os outros chocados diante da sua careca: nem sempre vale a pena explicar que não é um chapéu.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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