19/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/07/2018 09:32 -03

De menina de rua a cabeleireira independente: O caminho de Dani Laura

Daniela Laura foi acolhida por uma ONG em São Paulo, e encontrou na profissão de cabeleireira a mudança que tanto almejava: "Tenho uma vida maravilhosa e valorizo tudo o que eu tenho."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Dani Laura é a 134ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Diz que tem uma mãe branca. Chama de tia, mas no coração é mãe mesmo. Trata-se da fundadora de uma ONG que a acolheu quando era menina de rua. Hoje, cerca de 20 anos depois, muita coisa mudou na vida de Daniela Laura, 36 anos. E apesar de todas as dificuldades que passou, tem uma expressão forte, mas alegre. Sorri e logo já diz que sua história é mesmo de superação. Só ela sabe. "Eu amo minha história de vida, agradeço de mais a deus por ter colocado a tia Márcia na minha vida. Costumo dizer que depois das minhas filhas ela é a pessoa mais importante para mim." Foi a pessoa que, antes de mais nada, deu afeto para Dani. E, com o tempo, foi isso que mudou tudo.

Dani fugiu de casa aos 10 anos e morava na praça da Sé, no centro de São Paulo. Usava todo tipo de droga. Nunca tinha entrado em uma sala de aula. Um dia, a "tia Márcia", que oferecia sopa para os moradores de rua, passou com uma perua perguntando quem queria ir para um abrigo. Dani topou, mas durante anos ela e mais uma meninada fugia todos os dias da ONG, a Santa Fé. "E todos os dias a Márcia mandava alguém atrás da gente. Ela lutou mais pela gente do que a gente mesmo." Como não podia usar drogas na instituição, diz que sua única saída era fugir. Mas no fim, sempre voltada. No fim, sempre alguém ia atrás. Com afeto.

Eu amo minha história de vida, agradeço de mais a deus por ter colocado a tia Márcia na minha vida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, cerca de 20 anos depois, muita coisa mudou na vida de Daniela Laura, 36 anos.

Já na ONG, engravidou da primeira filha aos 13 anos. Quando a menina nasceu, logo depois sua mãe morreu. Muita coisa fez Dani repensar e só então largou as drogas. Começou a querer ser alguém na vida. "Eu tinha fugido de casa, mas no fundo, no meu coração, eu sabia que eu tinha minha mãe e quando ela morreu, eu me vi sem ninguém no mundo. Tomei um choque de realidade e não queria que minha filha passasse por tudo que eu passei. Então costumo dizer que minha filha veio na hora errada, mas ao mesmo tempo na hora certa. Se não fosse ela eu não ia ter saído daquela vida."

Sua filha não tinha nem um mês quando ela sentiu muito medo de perder a menina. "Eu tive uma brisa muito louca, eu estava drogada e ela estava chorando e eu não conseguia pegar ela e tomei um susto. Aquilo me deixou com muito medo. Comecei a perceber que o perigo para minha filha era eu mesma e quando eu estava muito louca não conseguia ver as realidades dos fatos. Aí parei. E foi do dia pra noite. Nunca tive recaída."

Eu me vi sem ninguém no mundo e não queria que minha filha passasse por tudo que eu passei.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu tinha fugido de casa, mas no fundo, no meu coração, eu sabia que eu tinha minha mãe e quando ela morreu, eu me vi sem ninguém no mundo."

Logo depois a mãe faleceu. Seu pai já havia morrido. "Nessa época, meu pai e minha mãe moravam na rua, na Frei Caneca, e meu pai foi assassinado e eu falei que não ia deixar minha mãe na rua sozinha. Ai mandaram uma assistente social buscar e ela ficou por um tempo na ONG, só que ela não se sentia bem porque só tinha adolescente e era alcoólatra e não podia beber. Aí acabou saindo de lá e não demorou muito ela veio a falecer na avenida 23 de maio. Atravessou bêbada e foi atropelada."

Diante disso tudo, Dani resolveu que queria brigar por sua vida – e pela de sua filha. "Acordei pra vida e comecei a ouvir os conselhos porque o desejo do pessoal da ONG sempre foi o de que eu fosse o que hoje eu sou... Queriam que a gente tivesse nossa casa, nossa independência, nossa profissão. E acima de tudo responsabilidade e caráter porque hoje ninguém pode apontar o dedo na minha cara".

Comecei a perceber que o perigo para minha filha era eu mesma e quando eu estava muito louca não conseguia ver as realidades dos fatos.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Dani fugiu de casa aos 10 anos e morava na praça da Sé, no centro de São Paulo.

Por sorte, estava no lugar certo. No lugar que ofereceu mais do que moradia e comida. Estava em um lugar que demonstrou ter fé nas pessoas. "Fiquei lá uns 12 anos da minha vida. Tudo que eu sei eu aprendi na Santa Fé. É minha referência como mãe, como acolhimento. Até por isso eu consegui ficar tantos anos lá porque eu já tinha ido para outras instituições, mas não tinha afeto e se não tem afeto... A gente é drogado e se não encontra conforto, acolhimento aí é que não temos vontade de permanecer. E lá eu encontrei tudo isso. A persistência de quem acredita no ser humano. E deu certo."

Aprendeu uma profissão. Começou um curso de auxiliar de escritório, mas se recusou a começar a trabalhar porque disse que não tinha nada a ver com ela. Um dia, uma das educadoras da ONG que fazia o cabelo em um salão especializado em cabelo crespo, a levou junto. Aí viu que podia dar jogo. Começou a trabalhar no salão e nunca mais mudou de trabalho. "Não sei fazer outra coisa."

Hoje tem orgulho de dizer que anda com as próprias pernas e não deve nada a ninguém. Tem sua casa própria, seu carro, a filha mais velha de 21 anos trabalha e está na faculdade e a mais nova, de 12, matriculada na escola. É cabeleireira autônoma. Trabalhou anos em um salão de beleza, mas hoje comanda seus horários. "Foi a melhor coisa que eu fiz porque hoje em dia tenho tempo para ficar com a minha caçula e consigo dividir minha profissão e meu lado mãe de boa".

Por isso eu consegui ficar tantos anos lá porque eu já tinha ido para outras instituições, mas não tinha afeto e se não tem afeto...

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje tem orgulho de dizer que anda com as próprias pernas e não deve nada a ninguém.

E conseguiu realizar sonhos. O primeiro foi aos 21 anos de idade, quando deixou a Santa Fé. Dani já estava há tempo demais na instituição. Conta que via gente chegando e saindo e ela lá. Bebês nascendo, crescendo, e ela lá. Criou uma meta em sua cabeça. Queria completar 21 anos fora da ONG. Não porque não gostasse de lá, pelo contrário. Mas porque queria de fato viver da forma que aprendeu ali.

Provou que era possível. Disse que um dia deu a louca nela e começou a juntar dinheiro que conseguia no salão e ia comprando alguns eletrodomésticos. Estava de olho no sonho de conseguir pagar um aluguel. Foi quando uma de suas irmãs, que também foi levada pela tia Márcia para a ONG, resolveu ir embora e Dani achou que não podia deixa-la sozinha. "Minha irmã não tinha a malícia da rua." Para acompanhar a irmã, resolveu que estava na hora de trilhar seus próprios passos.

Não tenho mais nada a pedir, a não ser saúde. Tenho uma vida maravilhosa e valorizo tudo o que eu tenho.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E conseguiu realizar sonhos. O primeiro foi aos 21 anos de idade, quando deixou a Santa Fé. Dani já estava há tempo demais na instituição.

Foi direto para o conjunto habitacional onde vive até hoje, na zona leste de São Paulo. "Resolvi enfiar as caras e fui para a casa da minha sogra na época com a minha irmã. Falo que deus sempre esteve à frente de tudo. Às vezes acontece umas coisas e a gente não entende, vamos entender só depois." Em pouco tempo, conseguiu o seu lugar. "O dia mais feliz da minha vida foi quando eu completei 21 anos aqui. Não queria ficar 'veinha' e continuar na ONG [risos]. E realmente completei aqui."

E esse foi só o primeiro aniversário dessa nova vida, com novo endereço e tudo que tem direito. Dali em diante as coisas só melhoraram para ela. Teve sua segunda filha e vive bem em família. "Hoje está tudo perfeito, graças a deus. Não tenho mais nada a pedir, a não ser saúde. Tenho uma vida maravilhosa e valorizo tudo o que eu tenho." Suas filhas por perto, sua casa, sua profissão, seu cachorro, Valente – nome propício para quem teve que ter muita força mesmo ao longo da vida.

Mas hoje respira orgulhosa e com a tranquilidade de quem sente que tudo está mesmo encaminhado. Quando olha para trás sabe muito bem de onde veio – e faz questão de lembrar e valorizar. "A tia Márcia teve uma grande influência em tudo. Até hoje a gente tem uma ligação forte. Não tem essa coisa de porque eu saí de lá acabou. Amor não se acaba, sabe?".

Não acaba mesmo. Esse tipo de amor, ao que parece, só ajuda a transformar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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