17/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 18/07/2018 20:15 -03

Bruna e Sâmia, as amigas que transformaram o amor pelas flores em negócio

Elas abriram mãos dos empregos tradicionais para investir mercado de flores que foge do tradicional: "Fazer buquês me trouxe carinho, um reconhecimento, uma alegria que eu nunca tive no mercado financeiro."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna e Sâmia contam a história da 132ª entrevista do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

A delicadeza do antúrio, a raridade da orquídea, a resistência da suculenta, a leveza da dália, a simplicidade da flor do campo. Imagine se seu trabalho envolve escolher qualquer uma destas flores especiais para fazer trazer felicidade ao outro. Como se você tivesse que passar o dia rodeado pelo verde das folhas, o colorido das pétalas e um cheiro floral inconfundível fizesse parte do seu escritório. Para as sócias, Bruna Pelegio, 31 anos, e Sâmia Ferreira, 32 anos, esta é uma realidade. Juntas, elas tocam duas empresas especializadas em flores e decoração. Apesar de todo o glamour e beleza que envolve o ofício, elas também batalham muito por espaço no mercado e colocam a mão na massa, ou melhor, na terra e nas plantas, para fazer o sonho dar certo.

Tudo começou com Bruna que, em abril de 2014, foi chamada para ser testemunha do casamento de uma amiga. Ela, então, teve a ideia de fazer um buquê, algo que nunca tinha feito antes ou sequer tinha experiência. Na época, ela trabalhava como analista financeira em uma empresa de microcrédito. "Fui na floricultura, contei a história pra vendedora e fui escolhendo as flores e montando intuitivamente. Quando cheguei lá com o buquê, a noiva começou a chorar, a mãe também, e ela virou e disse: você vai fazer o buquê da igreja! Foi tão diferente, tão espontâneo. Apesar de eu amar meu trabalho na época, eu acho que nunca conseguiria ter um feedback daqueles", relembra.

Fazer buquês me trouxe carinho, um reconhecimento, uma alegria que eu nunca tive no mercado financeiro.Bruna Pelegio

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Do mercado financeiro ao mercado de flores: Sâmia e Bruna encontraram uma alternativa à rotina frustrante.

E ela não parou mais: fez outros buquês para amigas, fez cursos, até ter sua primeira cliente oficial. "Ainda trabalhei como contadora nos dois primeiros anos de empresa. Saía de lá e tinha reunião com uma noiva, respondia e-mail de madrugada, fazia arranjos aos fins de semana. Tive meus momentos de ansiedade, mas ao mesmo tempo fazia plano de negócios, sonhava também", conta Bruna. Nascia assim a empresa Moça do Buquê. E a empresa começou a crescer. A ideia era fazer buquês de noiva e design floral. E ela também começou com o Clube Florido, que o cliente paga uma mensalidade para receber um arranjo de flores especial toda semana em casa.

O negócio começou a crescer e uma nova demanda surgiu: a de decoração de casamentos e festas. Em 2015, Bruna queria expandir seus leques, mas não sabia como. Ela só sabia que precisava de mais braços e alguém para plantar e colher junto dela. Durante um jantar com o marido e um casal de amigos, surgiu a oportunidade. O então noivo de Sâmia contou na mesa que ela tinha feito um curso de decoração. Na mesma hora ela ouviu de Bruna: "Você quer ser minha sócia?". A arquiteta estava frustrada com o próprio trabalho e já pensava em fazer concurso público. "Estava num universo machista que não me deixava segura e sempre ficava num dilema da maternidade. Gostava muito de decorar festas para a família e amigos e justamente de ver o que as pessoas sentiam com o resultado final", comenta Sâmia.

É muito gostoso fazer parte do momento feliz de alguém.Sâmia Ferreira

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O negócio começou a crescer e uma nova demanda surgiu: a de decoração de casamentos e festas.

Depois que voltou da lua de mel, Sâmia já tinha a primeira cliente e não pararam mais. "Antes de vir trabalhar aqui só sabia o nome de três flores. Depois fui aprendendo as texturas, o que dura mais, as folhagens, as composições", comenta. Para Bruna, ter uma sócia era essencial, mas também um desafio, como acontecem com muitos empreendedores. "As pessoas sempre acham que sociedade não dá certo, mas precisa ser algo natural e instintivo. Pra mim foi importante ter alguém com um base de valores parecida com a minha, mas que não necessariamente fosse igual à mim. E a nossa energia se completa muito bem", conta. Para dar conta da decoração, elas criaram um outro braço da empresa que chama Aura.

Durante muito tempo, as sócias fizeram grande parte do trabalho, agora, três anos depois, elas contam com outras quatro mulheres que trabalham em áreas específicas dentro da empresa, e que segundo Bruna, apesar de fazerem parte da equipe, cada uma tem seu empreendimento. "Nós duas vínhamos de frustrações em um mercado de trabalho que era muito masculino. Cansei de chegar em reunião e ser chamada de estagiária, apesar de ocupar um cargo alto. O fato de sermos mulheres e trabalharmos com outras mulheres foi uma conquista. A gente quer que elas se realizem e cresçam também".

Um dos valores da nossa empresa é ser um espaço seguro para qualquer mulher se desenvolver e se expressar.Bruna Pelegio

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Durante muito tempo, as sócias fizeram grande parte do trabalho, agora, 3 anos depois, elas contam com outras quatro mulheres que trabalham em áreas específicas dentro da empresa.

Apesar de trabalharem com flores e todo o universo que envolve beleza, segundo as sócias é impossível "ter glamour na gestão". Em dias de muito trabalho, elas passam até 13 horas em pé montando arranjo, além de fazer toda parte de planejamento, compras e atendimento ao cliente. "É um trabalho duro, mas o reconhecimento é muito bom. É maravilhoso poder participar de momentos especiais na vida das pessoas", aponta Sâmia.

"Por um lado é estressante porque trabalhamos com um produto que é ultra perecível, você não tem controle do que vai ser colhido, precisa juntar a expectativa da pessoa com o que você tem disponível, além de lidar com a questão do desperdício financeiro e da natureza. Por outro, a gente sabe que as flores tem a capacidade de muda o humor das pessoas. Tem clientes que dizem que tiveram um dia horrível e quando chegar em casa e encontra um arranjo, muda tudo, a flor transforma", diz Bruna.

Trabalhar com flores não é só um romance, sempre brincamos que está mais pra um drama solar.Bruna Pelegio

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"A gente sabe que as flores tem a capacidade de muda o humor das pessoas."

Para Bruna, trabalhar com flores também foi um processo de cura e de encontro com o seu feminino. "Eu sempre tive um lado mais masculino dos cálculos, então foi um resgate de um mundo sensível e criativo. O buquê de noivas é muito simbólico, é a fertilidade, é o útero, então criar uma arranjo para outra mulher, pensando nela enquanto pessoa, na beleza dela, me curou muito", aponta. "Além disso, quando você começa a ver coisas bonitas o dia todo, o seu olhar muda, você começa a ver beleza em tudo. É impressionante".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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