16/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 18/07/2018 20:15 -03

Carol e Karina Lisboa: As irmãs que trocaram a adolescência por um propósito na educação

Aos 16 e 18 anos elas assumiram a gestão de um centro universitário. Hoje, querem expandir o conceito: “O primeiro passo é que todos os mantenedores possam discutir mais sala de aula e menos dinheiro."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Carolina e Karina Lisboa contam a 131ª historia do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

"Avô rico, filho nobre e neto pobre". É assim que Karina Lisboa, 35, define as gerações da sua família. Junto com a irmã mais nova, Ana Carolina, de 33 anos, elas viram a vida confortável virar de cabeça pra baixo no início dos anos 2000. Herdeiras do Centro Universitário Celso Lisboa, nenhum filme de Hollywood daria conta de inventar o que elas tiveram que fazer tão cedo para manter o patrimônio do avô. E quando estamos falando desta família, patrimônio não é dinheiro. Aos 16 e 18 anos, Carol e Karina tiveram que assumir a gestão de um centro com 1.200 alunos e à beira da falência. Sem o menor entendimento de como gerir algo tão grande, diferentemente de hoje, apenas movidas pela vontade de fazer dar certo, elas toparam.

O pai, sucessor natural do avô delas na gestão, era um "bon-vivant". Viveu bem, mas morreu cedo, elas dizem. Além da perda do único filho, o avô que dá nome ao centro universitário também viveu o avanço do alzheimer, que não permitia que ele trabalhasse como antes. Karina, a mais velha, já estagiava no negócio mas não tinha pretensão de construir carreira ali — "eu já estava até procurando estágio em outros lugares" —, mas decidiu atender ao apelo da avó.

Éramos novas e mulheres, duas coisas que agregam a um preconceito já muito forte.Ana Carolina

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
E o propósito das duas se estende além dos muros do centro universitário que comandam.

"Meus avós eram apaixonados pela educação. Antes da gente, eles pediram para um funcionário antigo assumir, mas essa pessoa, que estava aqui há 30 anos, não aceitou. Minha avó pediu: 'você assume?', e eu que sempre idolatrei meus avós, que fizeram tudo por nós, não tive como dizer não. Eu não tinha ideia do que eu estava aceitando", conta Karina.

Mas aceitou. Antes como hoje, sempre juntas e companheiras, elas colocaram o propósito do avô debaixo do braço e deram continuidade ao sonho dele. Àquela altura, Carol, a mais nova, ainda estava no ensino médio, mas já "pipocava" em várias áreas do centro universitário, para conhecer como funcionava. Mas com a instituição na mão, as coisas mudaram de figura. Primeiro, elas enfrentaram um boicote interno.

"Éramos novas e mulheres, duas coisas que agregam a um preconceito já muito forte. A gente sofreu ameaça, as pessoas diziam que estávamos aqui brincando de Barbie", conta Carol. Mas ela complementa que "o que não mata, fortalece": "Hoje somos mulheres muito mais decididas, independentes e resolvidas porque passamos pelo que passamos. Claro que uma coisa não justifica a outra. Se tem uma coisa que a gente é agora, é forte."

Eu não tinha ideia do que eu estava aceitando.Karina Lisboa

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Carol, como gosta de ser chamada, é reitora mas não tem sala fechada.

A menina que entrou de gaiato e teve de resolver as pendências de uma instituição à beira da falência hoje é reitora. Uma figura que se imagina mais velha, masculina e carrancuda, mas não tem nada a ver com os cabelos esvoaçantes e o salto alto que ela nunca tira dos pés - como foi dedurado pela irmã. Mas ela não se abala em romper esse imaginário.

"Historicamente, gestores e lideranças são homens. Nós duas entramos numa época de contexto que foi boa, porque crescemos junto com a mentalidade de que as mulheres não só ocupam cargos importantes como elas assumem papéis de liderança. Aqui conseguimos mostrar que não aconteceu porque nós somos mulheres ou jovens, mas porque a gente escolheu fazer e se capacitou para isso", explica Carol.

Carol, como gosta de ser chamada, é reitora mas não tem sala fechada. Karina hoje é presidente, mas principalmente Diretora de Artes Cênicas, uma paixão que encontrou como válvula de escape para o turbilhão de emoções que teve de lidar e levou para dentro da instituição. Ela também abriu mão da sala que a afasta do cotidiano. Carol já foi professora, Karina já circulou em outras áreas. E o principal, segundo elas, é o que ganharam com o "olho no olho", aquilo que só as andanças pelos corredores dão. E elas não abrem mão de entender o que está acontecendo em cada canto.

"Na prática, não tem dono. Às vezes eu estou no corredor e um aluno fala "cadê o dono?", eu respondo "o que você quer que eu seja hoje?", porque aqui não tem dono. Posso ser secretária, se ele quiser", afirma Karina.

Se a gente está à frente de uma instituição de ensino, e todo mundo reclama de como o país está, olha a oportunidade que a gente tinha.Ana Carolina

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Karina hoje é presidente, mas principalmente Diretora de Artes Cênicas, sua paixão.

Quando decidiram assumir a gestão, elas começaram primeiro um processo de resolver problemas, depois de estabilização e partiram para a inovação. Os quatro olhos brilham ao enumerar os feitos — "que só foram possíveis graças a funcionários dedicados" — dos últimos anos. Elas implantaram um projeto de aprendizado inovador: as salas de aula não são organizadas de forma tradicional, mas sim em formato de rodas e com amplo acesso a equipamentos tecnológicos que possam ajudar no aprendizado. As disciplinas não são como nos velhos tempos, mas adaptadas para facilitar a absorção do conteúdo pelo aluno. No pátio, livros à disposição para a leitura e um ambiente acolhedor justifica porque o número de alunos pulou de 1.200 à beira da falência para 10.000 em 2018.

"Se a gente estava à frente de uma instituição de ensino, e todo mundo reclama de como o País está, olha a oportunidade que a gente tinha de realmente gerar multiplicadores dos valores que a gente acredita?", enfatiza Carol.

Nosso papel é conseguir fazer um projeto acessível.Ana Carolina

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

"Nosso trabalho hoje é firmado em cima de três competências: autonomia, criatividade e embasamento crítico. Então a gente pensa onde pode discutir melhor isso. E essa discussão não é com a minoria, é com a massa. Isso talvez não chegue pra eles, então nosso papel é conseguir fazer um projeto acessível para que a gente consiga transformar a pessoa em um profissional que reúna essas três características", completa.

A instituição fica na zona norte do Rio, uma região que concentra menos renda do que a zona sul, por exemplo, e as irmãs deixam explícito que o foco realmente são as pessoas das classes mais baixas, exatamente por serem estas que podem multiplicar valores e "espalhar coisa boa".

Óbvio que poderíamos ter vendido, mas a gente tinha um propósito.Karina Lisboa

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 16 e 18 anos, Carol e Karina tiveram que assumir a gestão de um centro com 1.200 alunos e à beira da falência.

"A Celso fez a gente rever todo o pensamento cultural que tínhamos a partir do momento que pensamos: 'é um projeto que começamos, então temos que abraçar até o final'. Não tem como fugir, desistir, não é simples. Óbvio que poderíamos ter vendido, mas a gente tinha um propósito", explica Karina.

E o propósito das duas se estende além dos muros do centro universitário que comandam. "O primeiro passo para uma educação de qualidade para todo mundo é que todos os mantenedores possam discutir mais sala de aula e menos dinheiro. Isso muda a educação. Em congressos, quando você junta 80% dos mantenedores de instituições de ensino, tudo que as pessoas conseguem discutir é financiamento, e isso me entristece muito. Que bacana seria que essas pessoas estivessem discutindo sala de aula", reflete Carol.

Karina também opina: "O importante também é olhar para a educação básica. O ensino superior é um complemento ao ser humano, que pode escolher se complementar de várias formas, mas sem uma educação básica forte, não tem como."

A análise dos últimos 18 anos é positiva. "O mais legal foi que conseguimos fazer a transição de ser a instituição dos nossos avós para a nossa instituição. E ter o retorno de que seu projeto mudou a vida das pessoas...", diz Carol, "...mostra que aquilo tudo que abrimos mão, valeu a pena", complementa (de novo e sempre) Karina.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.