COMIDA
14/07/2018 16:17 -03 | Atualizado 14/07/2018 16:23 -03

Sobremesas com frutas são mais saudáveis? Os nutricionistas explicam tudo

Sendo direto: sim, estamos nos enganando.

GreenArtPhotography via Getty Images

Sobremesa: comer ou não comer? Eis a questão. Mas escolher uma sobremesa à base de frutas porque elas seriam mais saudáveis parece duvidoso.

Ainda assim, quando se trata de alimentação, fazemos escolhas mal informadas o tempo todo.

Um conhecido postou recentemente no Instagram que prefere cookies de aveia e passas aos tradicionais de chocolate, porque eles seriam uma opção mais saudável. Imagino que ele tenha pensado algo assim: aveia e passas contêm fibras e vitaminas essenciais, então essa é a escolha correta. O post provavelmente era irônico, mas não tenho como não pensar nas implicações desse raciocínio.

Considere, por exemplo, a escolha entre duas fatias de torta: uma de maçã e outra de chocolate. Será que o valor nutritivo contido numa fatia de torta compensa a bomba de açúcar e gordura da massa? Será que a fruta mantém a integridade nutricional depois de cozida? Será que somos ingênuos a ponto de acreditar que qualquer sobremesa, independentemente dos ingredientes, pode ser considerada saudável? Ou estamos nos enganando?

Pedi a opinião de especialistas de várias áreas sobre o valor nutricional das sobremesas à base de frutas. Eis o que eles disseram.

Com tantos regimes da moda por aí, estamos confusos em relação ao verdadeiro significado de nutrição

Parece que somos um país sempre de regime, ao mesmo tempo em busca da saúde ótima e dos prazeres dos doces.

A blogosfera está cheia de dicas que prometem que você vai emagrecer sem deixar de comer o que gosta, receitas de cookies paleo e tratados sobre os benefícios do chocolate amargo.

Em uma pesquisa recente sobre as tendências da dieta americana, realizada pelo International Food Council Foundation, mais de um terço dos entrevistados disseram fazer algum tipo de regime específico, muitos dos quais incluem comer mais proteínas, menos carboidratos, evitar o açúcar e fazer jejum intermitente. Entretanto, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, do governo americano, afirmam que o americano médio consome quase três vezes a quantidade diária recomendada de açúcar.

A dieta dos americanos parece uma bagunça. O que acontece?

Bem, não existe um consenso sobre a melhor dieta a fazer ou o que significa alimentação saudável. "Esse é o problema", diz Kima Cargill, professora de psicologia clínica na Universidade de Washington-Tacoma e autora de The Psychology of Overeating: Food and the Culture of Consumerism (a psicologia do comer em excesso: comida e a cultura do consumismo, em tradução livre).

Cientistas e especialistas do governo não chegam a um acordo em relação ao que seria uma dieta saudável, e as pessoas desconfiam dos resultados das pesquisas, pois muitas vezes elas são contraditórias. Isso pode explicar a popularidade crescente das evidências empíricas disseminadas por blogueiros ou influenciadores digitais.

"Sobremesa saudável é quase um oximoro", brinca Cargill. "Digamos que não é saudável ... a sobremesa é feita de açúcar. Se você olhar para as pesquisas sobre o açúcar, [verá que ele já foi] associado a câncer e mal de Alzheimer. Queremos acreditar [nas sobremesas saudáveis], e os marqueteiros sabem disso."

Marisa Moore, nutricionista de Atlanta, aborda a questão da dieta saudável de maneira ligeiramente diferente. "Acho que você sempre tem opções para nutrir o corpo", afirma ela. "Quando falamos de sobremesa, vamos lembrar que elas são parte da vida. Não quero que as pessoas achem que não podem comer sobremesa. Mas tente comer uma fatia menor [de torta] e fazer escolhas moderadas."

Moore orienta seus clientes a reduzir o consumo total de açúcar, estabelecendo um limite de seis colheres de chá de açúcar adicionado para as mulheres e nove, para os homens – seguindo a recomendação da Associação Americana do Coração.

O paradigma do cookie

Segundo a base de dados sobre a composição dos alimentos elaborada pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, a quantidade de açúcar, gordura, fibras e calorias é praticamente a mesma em cookies de aveia e passas ou de chocolate (do mesmo peso e tamanho).

Paul Adams, editor-sênior de ciência da revista Cook's Illustrated, disse por email que só há uma maneira científica de determinar se sobremesas à base de frutas são mais saudáveis:

"Um estudo longitudinal em que uma parte dos participantes coma sobremesas à base de frutas durante anos, e outra parte coma outros tipos de sobremesas durante anos. Além disso, suas dietas e estilos de vida têm de ser os mesmos. Só então poderemos comparar os resultados."

"É muito tentador (e muito comum) achar que somos determinísticos, como um carro: você usa uma certa mistura de combustível e espera um certo resultado", acrescenta ele. "Mas não temos esse tipo de entendimento do corpo humano, então não podemos afirmar que uma determinada comida ou determinado nutriente possam ter um determinado efeito na saúde."

A psicologia tem muita influência sobre nossas escolhas de comida

Melissa Bublitz, doutora em marketing e professora da Universidade de Wisconsin Oshkosh, diz que, na hora de decidir se uma comida é saudável, costumamos tomar um de dois caminhos.

O primeiro é tomar uma decisão automática e inconsciente baseada em sinais heurísticos. Fazemos isso o tempo todo como consumidores ao considerar alimentos chamados de naturais ou orgânicos como bons para o organismo. Isso é conhecido como efeito halo, e o marketing tem um papel muito importante em nos fazer acreditar nisso.

O segundo caminho é decidir o que comer e fazer "acordos" consigo mesmos. Sendo diretos: sim, estamos nos enganando.

"Quando dizemos que algo é mais saudável que a alternativa", explica Bublitz, "para mitigar a culpa que sentimos por comer uma sobremesa à base de frutas – mesmo que o cérebro racionalize "é um cookie, eu não deveria estar comendo" --, a escolha parece um pouco melhor."

Motivações sociais são outro aspecto importante na tomada de decisões sobre o que vamos comer.

"Há pessoas que estão mais preocupadas em 'se encaixar'", diz Bublitz. "Às vezes isso inclui mudar o que queremos ou o que comeríamos normalmente. ... Se você for a única pessoa da mesa que quer pedir sobremesa, pode ficar constrangido."

Outro aspecto disso é tornar públicas suas escolhas, como no exemplo do cookie de aveia citado acima. Bublitz acha que as redes sociais podem ser uma ferramenta importante para algumas pessoas.

Publicar essas coisas quando você está fazendo regime ajuda a manter-se comprometido com o objetivo.

Acreditamos em coisas esquisitas no que diz respeito à comida

A explicação generosa para nosso comportamento é o fato de realmente não sabermos o suficiente sobre saúde alimentação, então acabamos acreditando em informações incorretas ou "achismos". Cargill observa que o consumidor médio não tem um alto nível de "alfabetização nutricional". Mas somos muito bons em nos enganar.

"A racionalização é uma maneira de defender nossas escolhas", diz ela. Outra é tentar "desfazer" certas coisas – ou seja, comer um cookie de aveia para "anular" os efeitos negativos de uma sobremesa tradicional.

O excesso de informações também pode levar à paralisia. "A abundância de pesquisa pode ser massacrante, você não consegue entender tudo e resumir em algumas poucas regras, então acaba comendo o que estiver à mão", explica Cargill.

"É o que os psicólogos chamam de fadiga de decisão. Você está tentando pesar todas as evidências e variáveis para tomar a melhor decisão, mas precisaria de um computador para fazer os cálculos, então acaba desistindo e escolhendo o que parece mais apetitoso. Não acho que as pessoas tenham a confiança suficiente para fazer as melhores escolhas no que diz respeito à comida. À certa altura, nos damos conta de que tanto faz."

Em relação às sobremesas baseadas em frutas, os especialistas parecem concordar.

"Comemos sobremesa por prazer, e o prazer é essencial para a boa saúde", conclui Adams. "O estresse e a infelicidade são fatores que contribuem para problemas de saúde. Em geral, acho que pensar 'X vai fazer bem' não é uma atitude muito saudável. Se você tenta controlar os níveis de nutrientes de cada prato que come, não está se divertindo muito."

"Moderação sempre, claro", acrescenta ele, "mas, na minha opinião, a escolha mais saudável é a sobremesa que dá mais prazer. O estresse de escolher algo saudável o tempo todo, em detrimento de algo que não te vá te satisfazer, faz mais mal que qualquer torta."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.