LGBT
13/07/2018 09:12 -03 | Atualizado 13/07/2018 19:05 -03

Ser 'queer' não cabe numa caixa: Um bate-papo sobre identidade com Pri Bertucci

"Temos que lembrar a importância do pronome de gênero. As pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso."

Arquivo Pessoal
Com o [SSEX BBOX] Pri Bertucci produz séries para internet com a intenção de educar pessoas e instituições sobre o "ser queer".

"Como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa?", questiona o artista visual e ativista Priscilla Bertucci. Foi com essa pergunta que Pri, como prefere ser chamado, iniciou seu processo de investigação pessoal para enfim se identificar com o gênero queer, que é uma identidade transgênero.

O paulistano passou dez anos em São Francisco, nos Estados Unidos. Lá, em 2011, fundou o [SSEX BBOX], um projeto de documentários que investiga as possibilidades da sexualidade humana, fora das "caixinhas azul e rosa". Para fazer a série de filmes, Pri conversou com educadores sexuais, estudiosos, ativistas e artistas que quebravam os padrões heteronormativos de gênero e sexualidade. "Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito o meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência no mundo", lembra.

Estranho, peculiar, excêntrico. A palavra queer era usada de forma pejorativa contra a comunidade LGBTQI+, mas nos anos 90, movimentos sociais e ativistas passam a ressignificá-la, usando-a como forma de denominar as pessoas dispostas a romper com ordem sexual padrão. A chamada teoria queer é consolidada no livro "Problemas de Gênero", da filósofa Judith Butler, e pressupõe que a orientação sexual e a identidade de gênero são construções sociais e que não é possível classificar as pessoas nos binarismos homem x mulher e heterossexual x homossexual.

Com a volta ao Brasil, há três anos, Pri expandiu a atuação do [SSEX BBOX] que, para além dos filmes, virou um projeto de promoção de justiça social. Hoje fazem consultoria de inclusão e diversidade para empresas e realizam diversos eventos. Em 1º de junho deste ano, colocaram na rua a primeira Marcha do Orgulho Trans de São Paulo e, mais recentemente, foram parceiros da Organização das Nações Unidas (ONU) no lançamento em São Paulo dos Padrões de Conduta para Empresas combaterem a LGBTfobia.

Durante evento, Pri revelou que havia tomado a primeira dose de testosterona, dando início a sua transição hormonal. Ao HuffPost Brasil, ele falou sobre o que é ser queer, a celebração do Orgulho LGBT, o machismo dentro do próprio movimento, a primeira Marcha do Orgulho Trans e ainda deu dicas para pessoas cisgêneras heterossexuais não errarem quando estiverem na dúvida sobre a identidade de gênero de uma pessoa.

Leia a entrevista completa:

Gui Gomes/Arquivo Pessoal
"A palavra queer representa tantas coisas, é um conceito muito complexo."

O que é ser "queer"

"A palavra queer representa tantas coisas, é um conceito muito complexo. Ela é uma identidade de gênero, é uma orientação sexual, é um adjetivo, um substantivo e pode ser um verbo. O conceito queer é tão disruptivo do sistema, que causa essa estranheza. É muito difícil de compreender, tem um aspecto muito budista do queer, que é fora desse binarismo de pensamento. E eu me identifico dessa forma. Há muitos questionamentos se o queer pode ser uma identidade de gênero, porque ela é uma identidade não identidade, é o lugar do não lugar. No Brasil, o queer está sendo representado pelo não binário, são coisas parecidas. Como o agênero, two spirit, genderless, gênero fluido, tudo isso está dentro desse espectro queer não binário. Muita gente ao invés de usar queer usa o não binário para explicar. Mas acontece que eu, particularmente, não gosto de me afirmar pela negação. Não quero ser não alguma coisa. Não binário, não branco. Prefiro ser queer, pardo."

Um aprendizado cultural e linguístico

"Há 15 anos eu milito nesta causa, há 10 anos surgiu o projeto nesse meu processo de mudar para São Francisco (EUA).Trabalhei com pessoas muito importantes que fazem parte desse movimento queer. Muito antes de Judith Butler escrever sobre teoria queer, o queer veio da rua, do movimento social, das ruas de São Francisco. E eu pude conviver com essas pessoas que estavam ali naquele momento crucial e histórico. Muito do SSEX BBOX vem dessa convivência, com Carol Queen, por exemplo, que foi responsável por colocar a letra B, de bissexuais, na sigla LGBT. Trabalhar com essas pessoas incríveis abriu muito meu espectro do que é gênero e do que é sexualidade e das possibilidades de existência. Somos 7,6 bilhões de pessoas nesse planeta, como é que a gente quer colocar 7,6 bilhões de pessoas em apenas duas possibilidades de existência: ou na caixinha azul ou na caixinha rosa? Meu processo pessoal vem disso, dessa investigação pessoal, eu fui investigando, aprendendo e filmando tudo isso e isso virou a primeira websérie sobre o tema, em 2011. Não existiam pessoas trans no Brasil dispostas a dar entrevista sobre o tema na época. Foram meses de pesquisa pra achar uma pessoa trans que quisesse dar uma entrevista. [...] Eu estava fazendo um documentário e aprendendo muito com todos esses educadores sexuais, que viveram essa questão do movimento queer. Como filmamos em quatro cidades diferentes em quatro países (São Francisco, São Paulo, Berlim e Barcelona), esse aprendizado foi cultural e também linguístico. Fui aprendendo nesse processo como a língua é limitante, se não tem uma palavra que representa certas coisas é como se ela não existisse."

NurPhoto via Getty Images
Manifestantes ocupam o centro de São Paulo na primeira Marcha do Orgulho Trans.

A identidade queer no Brasil

"Enquanto eu estava lá na Bay Area da Califórnia, que é uma bolha de consciência, a realidade é que "everybody is queer" [todo mundo é queer]. É até estranho não ser queer lá. Mas quando eu volto ao Brasil e começo a explicar para as pessoas que eu não quero que elas me chamem de 'ela' é muito difícil. Não tem espaço para isso aqui. Faz três anos que voltei para cá, três anos de uma luta de tentar existir, não só para pessoas cis que são desconectadas, mas dentro do próprio movimento. Tem pessoas que acham que pessoas não binárias ou queer vão apagar a questão trans. Existem resistências, questionam 'mas é queer de verdade?' e eu digo o que é queer de verdade? Quem é a polícia queer? Eu percebo muita dificuldade de aceitação por pessoas da militância mesmo, querendo dizer que eu sou menos importante com essa identidade. E passamos de novo por uma questão de muita disputa interna dentro do movimento e sem esse espaço de compreensão de todas as vidas precisam ser respeitadas, todas as existências e todas identidades precisam ser respeitadas."

O lugar do "orgulho" LGBT

"Eu diria que essa não é a melhor palavra para se celebrar a possibilidade de existência das nossas identidades e dos nosso desejos. Se eu pudesse escolher, eu escolheria outra. Mas eu não sei se eu tenho essa palavra ainda. Talvez no futuro a gente escolha outra. Mas vou dizer porque o orgulho tem questões. Pride é o oposto de shame. Você tem vergonha e orgulho. A comunidade LGBT vive, sempre viveu essa vergonha, só nos últimos anos tem um pouco mais de aceitação. Mas na minha época -- eu nasci e 1978, e quem nasceu antes de mim era pior ainda --, existia uma vergonha de você ser quem você é, uma vergonha que não é só sua, mas mas também dos outros: sua família, seu amigos, tinham vergonha. Dá para entender porque a gente está trabalhando com esse binarismo hoje. Se é tanta vergonha e culpa colocada em cima dessa identidades, o orgulho se torna totalmente oposto. Mas não acho que orgulho seja uma coisa muito saudável, pois vejo que estamos dentro de uma questão muito egocêntrica. As pessoas precisam mostrar a sua aparência, lutam pelos seus likes. Acaba virando uma obsessão com a imagem. De qualquer forma, eu acho que ainda não achamos um lugar intermediário para substituir essa palavra. Isso vai acontecer quando derrubarmos esse combo de culpa e vergonha, quando conseguirmos ter um lugar de muito mais aceitação - e eu não acho que isso seja na minha geração ou na sua geração, algumas gerações ainda precisam vir para a gente começar a achar um equilíbrio. Essa coisa é tão forte. E por isso a gente fez a Marcha do Orgulho Trans, porque quer ter orgulho de ser trans, porque é uma resposta nessa mesma força a essa vergonha que nos é imposta."

Arquivo Pessoal
Pri durante as filmagens de um dos conteúdos para o [SEXX-BOX].

O falocentrismo LGBT

"A Parada não é LGBT, é uma parada que deveria ser LGBT, mas é uma parada gay. [...] Existe um viés racial, de gênero, nesse combo do viés inconsciente, das pessoas que organizam a parada, que detém o poder. E quem tem poder? É o homem branco cisgênero heterossexual. Mas mesmo que ele seja gay ele continua no poder. E ele não tá afim de abrir mão ou dividir esse poder com pessoas que têm vagina. O falocentrismo reina nesse movimento LGBT. Quem tem vagina é cidadão de segunda classe. Isso é o planeta e dentro do movimento LGBT não é diferente. Lésbicas e homens trans são super invisibilizados. Pessoas queer e não binárias, então, nem se fala, isso nem existe, é um unicórnio. A vontade de fazer a marcha veio do meu processo de viver em São Francisco por dez anos e ver quão forte e organizado é o movimento trans e quanto mais respeito eles conseguiram dentro das letrinhas LGBTQIA+ com processos de diálogo, escuta, comunicação não violenta, de justiça restaurativa entre esses grupos. A Dyke March [caminhada lésbica] existe no sábado há muitos anos, na véspera da Parada Gay, e a Trans March na sexta-feira. Essa sequência acontece em outros lugares do mundo, não só em São Francisco onde eu morava. Eu via a potência que tem ter uma Marcha do Orgulho Trans, mas no Brasil ainda não tinha acontecido. No ano passado eu comecei esse projeto, escrevi, comecei a articular com o movimento, mas infelizmente não foi pra frente, acho que muito por falta de engajamento de pessoas que não acreditaram que era possível fazer. Começamos a fazer um círculo pequeno, bem tímido, de homens trans e não binários, para falar desses apagamentos que vivemos. Como é ter vivido num corpo que é reconhecido como feminino, com vagina, e todos os abusos que passamos. A gente trabalhou alguns meses com esse grupo e muitos deles eram líderes de outros projetos. A ideia era mesmo fortalecer esse lado emocional e criar esse grupo de afinidade e com uma comunicação mais coesa. Aí eu faço o convite para esse grupo de meninos trans a produzirem comigo essa marcha, que era um sonho. Eu já tinha o projeto pronto, o site tava pronto, faltava mesmo botar na rua. Fiz a parte da captação, consegui os patrocinadores. E aí os meninos trans entraram, eles representam o Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) e o Tiely Queen, do Hip Hop Mulher, para fazer esse evento acontecer. A marcha foi incrível."

Na dúvida, pergunte

"Podemos pensar em duas coisas que uma pessoa cisgênero e heterossexual pode fazer para não desrespeitar uma pessoa que ela não sabe a identidade de gênero. A primeira é perguntar 'como você gostaria de ser chamado?' E a segunda 'qual é o seu pronome de gênero preferido (PGP)?' Não adianta eu só falar, eu gosto que você me chame de Pri, porque Pri você vai assumir que é Priscilla, então é feminino e, no caso não é, eu quero que seja o Pri ou só Pri. Em qualquer reunião, ou qualquer lugar que tenha muitas pessoas cis e poucas pessoas trans, temos que lembrar a importância de falar do pronome de gênero, as pessoas não vêem a importância disso porque não sofrem por causa disso, para uma pessoa no padrão cis heteronormativo isso não importa. Muita gente fala que é frescura, que é mimimi, mas não é mimimi, é realmente uma questão de respeito."