ENTRETENIMENTO
13/07/2018 19:46 -03 | Atualizado 14/07/2018 13:02 -03

O poder catártico de Maeve na 2ª temporada de 'Westworld'

Maeve é toda mulher negra que já teve que salvar a si mesma (e a você) porque as outras pessoas estavam demorando demais para socorrê-la.

HBO

Aviso: spoilers pela frente!

Há uma tomada gloriosa de Maeve no último episódio da segunda temporada de Westworld. Ela está em pé em pose de desafio, utilizando seu poder de controle de código para congelar uma horda inteira de anfitriões enlouquecidos para proteger a Porta, uma espécie de caminho para a salvação da Nação Fantasma e seus seguidores. A cena é excepcional em muitos níveis, em primeiro lugar porque é o instante em que a série cristaliza plenamente algo que só havia reconhecido pela metade durante toda essa temporada: que Maeve é o centro moral da série e sua personagem mais interessante.

Maeve é boa, e os personagens bons, especialmente em uma série como Westworld, podem ser entediantes, correndo o risco de parecer bonzinhos demais. Mas existem vários aspectos de Mae, do modo como ela se orienta em seu mundo, que encontram eco muito além dos limites sufocantes da série.

Houve momentos durante a segunda temporada de Westworld em que tive que fazer uma pausa mental, olhar para mim mesma e indagar "você está bem?" e, com mais frequência, "por que estou assistindo isto daqui mesmo?".

Westworld é uma série ótima de uma maneira em que são ótimas muitas séries da era pós-TV de prestígio. Ou seja, ela faz todas as coisas certas: tem um visual fenomenal; tem som fenomenal; faz o suficiente do que precisa fazer, justamente o suficiente para desviar a atenção do espectador do fato de que às vezes há um monte de nada acontecendo. Simplesmente intermináveis labirintos de diálogos crípticos, versões instrumentais antigas de Paint It Black e uma aura geral de estar fazendo o máximo possível com o mínimo possível.

Não tem problema. O que é divertido em Westworld é que, não importa quantas teorias de fãs e mensagens ocultas tentamos decifrar ao longo da série, em última análise, lá no fundo, todos sabemos que a série não faz um pingo de sentido e provavelmente continuará não fazendo mesmo quando todas as respostas finalmente forem reveladas. É essa sua beleza frustrante. Se nada faz sentido, então tudo faz sentido, certo?

Mas há outra coisa que me fez ficar voltando à série esta temporada, mesmo quando a violência incessante e dessensibilizante e as tramas cheias de inconsistências me davam vontade de desistir. E essa coisa é Maeve Millay, é claro.

Porque há uma espécie de catarse proporcionada por ficar vendo uma personagem como Maeve, uma atriz como a eternamente subvalorizada Thandie Newton. Esse elemento sempre esteve presente, mas ficou mais potente e mais identificável para mim – e possivelmente para a própria série – no episódio final.

Ao longo de seu arco narrativo nas duas temporadas, Maeve foi ganhando profundidade e complexidade crescentes, passando de cafetina em um dos "saloons" de estilo antigo de Westworld a uma anfitriã plenamente consciente e determinada a salvar sua filha. Maeve já mostrou ser capaz de crueldade extrema (em nome da sobrevivência) e compaixão extrema.

Em um dos melhores episódios da segunda temporada, Akane no Mai, vamos Maeve interagindo com sua contraparte do Mundo Xogum, sacrificando o último trecho de sua busca por sua filha para ajudar a gueixa Akane a salvar (e vingar) sua própria filha.

Não, Maeve não é fascinante pelo fato de ser boa em seu íntimo. Ela é fascinante pelo modo em que sua bondade inata, não obstante seus possíveis defeitos, se depara com a maldade dos outros e acaba trazendo para fora o que esses outros têm de bom.

É através de Maeve que muitos dos personagens encontram sua força e seu norte moral – desde o técnico Felix, que inicialmente morre de medo de Maeve mas acaba virando devotado a ela, até Hector, um anfitrião programado para cuidar apenas de seus próprios interesses, mas cuja missão na vida muda, passando a ser a de ajudar Maeve na busca por sua filha. Mesmo Lee, o líder da narrativa, um homem que passa a maior parte da segunda temporada reclamando, se queixando e se desviando de balas, literalmente sacrifica a própria vida nos momentos finais da temporada para dar uma chance maior a Maeve, uma mulher que ele chegou a descrever certaz vez como nada mais que uma máquina.

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Meu lado cínico quer duvidar desse último detalhe dramático, na realidade, duvidar da ideia inteira de que tantos personagens possam acabar cegamente leais a Maeve e sua busca, mas então penso em Dolores e suas mentiras e penso "tudo bem".

Essa é outra coisa sobre Maeve – o modo como ela complementa Dolores e forma um contraste com ela. Essas personagens nos foram apresentadas na primeira temporada como subversões dos arquétipos da Madona e da prostituta. Nesta temporada elas são como planetas gêmeos, uma orbitando em volta da outra, ambas correndo o risco de em algum momento sair de seu eixo e colidir com a outra. Nos dois momentos significativos em que vemos essas personagens interagindo, Dolores tenta convencer Maeve a abandonar a busca por sua filha e unir-se à cruzada para destruir a humanidade. Tudo que Dolores enxerga quando olha para Maeve é a "vingança" dentro dela e a possibilidade de explorar essa vingança para suas próprias finalidades.

"Vingança é apenas uma oração diferente feita diante do altar deles, querida", responde Maeve calmamente. "E eu não pretendo me ajoelhar."

Há um significado nesse diálogo que ecoa o significado maior do conflito subjacente de Maeve com Dolores e, na realidade, em Westworld como um todo. É significativo o fato de que Maeve conversa com os anfitriões japoneses, espanhóis e da Nação Fantasma em suas próprias línguas, enquanto Dolores se comunica com eles em inglês. É significativo que Maeve possui o poder de controlar a mente de outros anfitriões, mas, mesmo assim, diante de diversas oportunidades para isso, opta por não fazê-lo. E é significativo, sim, que Maeve é uma mulher negra que está usando sua voz recém-encontrada para combater seus opressores sem forçar ninguém que não atrapalhe sua visão a literalmente mudar quem é ou então morrer.

O fato de Dolores ser a antítese de tudo isso não faz Maeve ser necessariamente "melhor" que ela. Se há uma coisa que Westworld nos mostra repetidas vezes, é que não existem heróis ou vilões de verdade. Porém, em uma série que questiona constantemente a natureza da liberdade e do livre arbítrio, o mais significativo de tudo talvez seja ficar vendo uma personagem negra e mulher contestar implicitamente a escolha de uma personagem branca mulher de criar a liberdade, literalmente desmontando a individualidade de outras pessoas em nome da chamada "revolução".

(Mas por que essa imagem de Maeve protegendo a Porta parece uma metáfora visual da condição de mulher negra)

Conheço muita gente que já está cansada de política de identidade quando o assunto é cultura pop. Noções como "diversidade" e "representatividade" são tratadas como desvios pouco sérios de uma crítica séria. Mas me ouçam, por favor, porque quero discutir o conceito conforme se relaciona com Maeve e com o momento cultural atual.

Maeve é toda mulher negra que já teve que salvar a si mesma porque os outros estavam demorando demais para vir socorrê-la. Maeve é verdadeiramente a salvadora que Dolores apenas pensa ser. No final, a utopia que Dolores talvez visualize se esvai em comparação com o tipo de utopia que Maeve cria para si com seu puro e simples poder pessoal. É uma utopia em que anfitriões e humanos se unem em nome do bem comum, arriscam suas vidas uns pelos outros e reconhecem o valor uns dos outros.

Sei que isso é uma mensagem que parece piegas. Mas em uma semana como esta, em um mês como este mês, em um ano como este ano, em que as manchetes sobre fronteiras e a erosão dos direitos humanos fundamentais não param de subir para o topo do ciclo noticioso, como creme azedo, a catarse de assistir àquela cena final no episódio 10, de ver Maeve se postar na fronteira literal, barrando as massas de violência e raiva para que algumas poucas outras pessoas possam alcançar a salvação, é, apesar de simplista, profunda. E profundamente comovente.

"Oh, ok", pensei quando assisti à cena pela primeira vez. "Então é assim que é essa sensação."

No final da segunda temporada, Maeve e seus seguidores perdem. Eles morrem. Estranhamente, esse fato também nos proporciona uma catarse. Sim, é quase certo que ela retorne na terceira temporada ("vocês acham que tenho medo da morte? Já passei por isso um milhão de vezes.") Mas, como é o caso da maioria das coisas em Westworld, não são realmente os resultados das batalhas intermináveis que me intrigam ou me fazem continuar a assistir.

É engraçado: Dolores fica tão focada sobre a ira de Maeve e enxerga isso como a única coisa que torna Maeve útil ou importante. Os convidados e criadores de Westworld aproveitam o poder dela para escrever por cima do código de outros anfitriões, para literalmente controlar suas mentes. Eles estão focados sobre a coisa errada. O que torna Maeve verdadeiramente convincente e faz com que realmente valha a pena torcer por ela é sua empatia. Em um mundo real em que a empatia parece estar em falta tão grande neste momento, é a empatia dela que a torna tão crucial.

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