14/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 14/07/2018 00:00 -03

Adrianne Elias: Da venda de esfihas na escola à 1ª agência de branded content do Brasil

Ela herdou veia empreendedora – e uma receita – da família libanesa e virou dona de seu próprio negócio: "Para uma mulher chegar e ter as conquistas que eu tive, precisei abrir mão de muita coisa."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Adrianne Elias é a 129ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Ficava sentada com uma vasilha enorme no colo. Com a ajuda de outras amigas, fazia uma pequena estação de venda de esfihas. Assim que tocava o sinal para o intervalo, de repente, tudo vendido. Não tinha caixa registradora, nada disso. Ia colocando as notas miúdas em um saco, com agilidade. Não queria deixar cliente esperando, não. Depois, durante a aula, conferia o dinheiro e fazia as contas. Um sucesso. Era adolescente e mal sabia o que estava fazendo. Na verdade, pensando melhor, sabia muito bem. Já era, nessa época, uma empreendedora. Bem do jeito que gosta. A sua maneira. "Isso é uma coisa que nasce com as pessoas. Minha mãe é descendente de libaneses e essa raça é do comércio, do empreendedorismo. Vim de uma família humilde e morava em Jacarepaguá. Chegou um ponto que minha mãe não tinha como pagar a minha escola e a faculdade do meu irmão."

Deu seu jeito. Após ver um colega vendendo sanduíche natural achou que podia vender alguma coisa também. Fez um teste um dia no recreio na escola e logo começou uma linha de produção em casa. Não tinha nem 15 anos de idade. "Resolvi vender as esfihas da minha família, uma receita árabe mesmo. Eu vendia 600 esfihas por dia no recreio, eu quebrei a cantina da escola. Eu comprei meu primeiro apartamento com 17 anos com dinheiro de esfiha, fiz minha pequena plástica aqui no nariz que ninguém diz que eu tenho, também com dinheiro de esfiha. E não era só isso."

Isso é uma coisa que nasce com as pessoas. Minha mãe é descendente de libaneses e essa raça é do comércio, do empreendedorismo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Basta conversar com Adrianne por alguns minutos para saber que ela sempre soube que iria muito longe.

Não era mesmo. Essa inquietude de Adrianne Elias, 44 anos, hoje dona da Content House e da CoCreators, rendeu à época uma bolsa de estudos e logo ela começou também a dar aulas particulares. Conta que chegou a ter 100 alunos particulares. Mas a ideia nem era essa no início. "Minha mãe era professora e eu estimulei ela a dar aula particular quando ela se aposentou e foi um sucesso, não tinha horário para todo mundo. Eu ia falando pra aumentar o preço e ia dando uma 'consultoria'[risos]. Mas os alunos foram crescendo e ela era professora primária. Mas minha mãe, muito guerreira, vinha me pedir para ensinar as equações e foi tocando."

Mas chegou uma hora que não deu mais e esses alunos mais velhos ficaram a cargo de Adrianne. Além disso, nas férias, ela iniciou mais um negócio e fazia uniformes para vender. Atuava em muitas frentes. Quem vê assim pode até achar que nessa fase ela nem tinha ideia de que criaria suas próprias agências de marketing anos mais tarde. Mas basta conversar com ela por alguns minutos para saber que ela sempre soube que iria muito longe. Não tem como duvidar disso.

Trabalhei mais porque o mercado ainda é muito machista e eu precisava fazer mais para me destacar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu fui muito workaholic. Para uma mulher chegar e ter as conquistas que eu tive eu abri mão de muita coisa."

Mas levou um tempo, é verdade. Apesar da clara veia comercial, sua facilidade com exatas a levou para a faculdade de Engenharia de Produção. Mas tem coisas que falam mais alto e logo no primeiro estágio, em um banco, já foi se voltando para a área de marketing e vendas. Foi efetivada antes de se formar e se mudou para São Paulo a trabalho. Já estava trilhando seu caminho.

Cresceu na área de marketing. Fez carreira, sempre trabalhando muito. O seu jeito super pilhado, de quem não para um minuto, deixa isso claro. E admite que já teve uma relação difícil com o trabalho. "Eu fui muito workaholic. Para uma mulher chegar e ter as conquistas que eu tive eu abri mão de muita coisa. Acredito que fui uma boa mãe, mas do meu jeito. Acho que trabalhei no mínimo 40% a mais que qualquer homem par meu. Trabalhei mais porque o mercado ainda é muito machista e eu precisava fazer mais para me destacar."

É difícil, me cobrei muito mesmo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Em 2009 ela criou a Content House, especialista em branded content, e a CoCreators, uma agência de influencer marketing que vai completar dois anos.

Conseguiu mesmo ter destaque. Adrianne saiu do banco e atuou na TVA e na Telefonica. Depois entrou na Ambev, onde ficou a maior parte de sua vida profissional. No entanto, após anos de uma carreira bem sucedida como executiva, ela mudou de rumo para abrir seu próprio negócio. "Eu já estava em uma posição que no nível acima não tinha nenhuma mulher. Acho inclusive que eu querer abrir meu negócio tinha disso também. Hoje minha filha tem 16 anos e minha enteada tem 23 anos, então no meio disso tudo tive duas filhas pra criar, junto com todas as cobranças que as mulheres se fazem de estar magra, gostosa, bonita, estar por dentro de tudo, ser uma puta mãe, uma puta filha. É difícil, me cobrei muito mesmo."

Mas acha que valeu a pena. Acha não, tem certeza. E hoje dosa isso melhor. Criou em 2009 a Content House, especialista em branded content, e a CoCreators, uma agência de influencer marketing que vai completar dois anos. Foi pioneira no mercado. "Eu era executiva de marketing e contratava agências e na verdade não encontrava nenhuma preparada para o futuro. Eu tinha um certo bode da publicidade porque eu achava que era muito antiga, unilateral, desconectada do que a sociedade estava vivendo, achava aquilo muito fadado a morte." Nessa época começou a perceber que as coisas iam mudar no mercado. Já via que a internet traria muitas transformações no consumo de conteúdo e, junto com isso, a publicidade também ia ter que mudar.

Eu tinha um certo 'bode' da publicidade porque eu achava que era muito antiga, unilateral, desconectada da sociedade.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente, Adrianne comemora o desempenho das empresas e o reconhecimento do trabalho de sua equipe.

Antes disso, mudou ela mesma. "Era uma coisa de alto risco, eu era alta executiva, estava em um nível em que já tinha ações, vendi tudo, peguei tudo que construí em 17 anos de carreira e fui abrir minha agência. Na ocasião eu consultei muita gente que era meu parceiro de mercado e todos disseram para eu desistir. Ninguém falou: 'vai'. Fiz um apanhado de tudo que eles falaram, boa parte era verdade, que ia ser difícil, para eu me preparar, foi bom ter ouvido. Mas toda a negatividade do 'não vai dar certo' eu guardei carinhosamente para hoje poder dizer que deu." Mas não é com tem de revanche não, que fique claro. É só com aquele gostinho de orgulho mesmo, de quem conseguiu construir algo do zero. "Foi como abrir uma trilha no meio do mato. Primeiro você corta o mato alto com o facão, que é o que dá mais trabalho. Depois o caminho já está aberto. Quem é inovador e sai na frente não vai pegar essa moleza. Eu cortei muito mato alto."

Realmente. Bancou sozinha eventos em que acreditava muito. Mas não se arrepende nem um pouco. Lembra bem quando em 2012, já no limite de sua reserva financeira, teve a ideia de criar um desfile de esmaltes. "Criei o Nails fashion week e era um ano em que tinha que virar. Resolvi fazer o evento e não tinha dinheiro. Falei pra entrar no negativo e não sabia que negativo do banco acabava [risos]. O primeiro evento deve ter dado um prejuízo de meio milhão. Mas não me arrependo." Segundo ela, foi esse evento que deu expressividade para a empresa e realmente colocou o nome da agência no mapa. Daí em diante as coisas foram acontecendo. Atualmente comemora o desempenho das empresas e o reconhecimento do trabalho de sua equipe. "Hoje é muito legal porque eu consigo trabalhar com tudo que eu gosto. Consigo trabalhar com criatividade, com gente. Tem uma coisa de realização pessoal, não é só o dinheiro pelo dinheiro, mas o fato de ser feliz no que você faz."

Era uma coisa de alto risco: eu estava em um nível em que já tinha ações, vendi tudo, peguei tudo que construí em 17 anos de carreira e fui abrir minha agência.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

Mas fica atenta. Diz que nunca está satisfeita. Coisa de quem sabe que nos negócios tudo pode mudar de repente. "Se enjoar você inventa outro. Volta e meia eu enjoo." Como na sua adolescência. Quando, aliás, após quebrar a cantina da escola até mudou o modelo de negócio - ela sabe que isso é preciso. Fez um acordo e passou a vender para a cantina. Lamenta que a agilidade na venda não era a mesma. "Eu vendia mais quando era por minha conta".

Com certeza. Não tem como duvidar dela.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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