13/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 13/07/2018 10:06 -03

Elem Silva: A Maestrina da Favela que tem sob a batuta um Pelourinho inteiro

Para tentar tirar o máximo de crianças do mundo do tráfico, ela montou a banda Meninos da Rocinha do Pelô: "Se for para ter AVC por ajudar as pessoas, eu quero ter AVC pelo resto da minha vida."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Elem Silva é a 128ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Richard Linklater causou o maior rebuliço entre os admiradores da sétima arte por ter levado 12 anos filmando Boyhood – Da Infância à Juventude. Em uma perspectiva nacional, Guilherme Fontes foi ainda além: demorou 20 para lançar o tão falado Chatô – O Rei do Brasil. Ambos, apesar de acompanharem o envelhecimento dos atores no decorrer dos anos, são ficcionais.

Sem saber da existência destes projetos – que ainda estavam em produção, vale ressaltar – a diretora afro-americana Falani Afrika se propôs a fazer algo parecido. A protagonista dela, no entanto, era gente de verdade. A primeira vez que encontrou Elisete "Elem" de Jesus Silva, em visita a Salvador, no ano de 2007, tinha somente 18 anos.

Gostava de ver as bandas, mas não conseguia entrar, porque tinha que saber tocar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Moradora da Rocinha do Pelourinho, a menina de 23 anos protagoniza o documentário Maestrina da Favela.

A vida da garota foi registrada pela cineasta ao longo de 10 anos, resultando no documentário de 80 minutos de duração Maestrina da Favela, lançado em fevereiro deste ano. Mas o que chamou tanto a atenção da artista a ponto de fazê-la vir todo ano, religiosamente, da terra do Tio Sam à Bahia?

Apesar de ter nascido em São Paulo, Elem, de 23 anos, vive na capital baiana desde os três meses de idade. E como vive. Desde que pisou em território soteropolitano, não morou em lugar algum que não fosse o Pelourinho – justamente o espaço que mais povoa o imaginário daqueles que pensam em visitar a cidade.

A comunidade onde reside, no entanto, não tem piso de ladrilho, casinhas coloridas ou They Don't Care About Us do Michael Jackson tocando 24 horas por dia. A semelhança da Rocinha do Pelourinho com o estereótipo do ponto turístico fica apenas nos tambores que ecoam por lá. E o ritmo deles é ditado justamente por ela: a Maestrina.

"Se chama Vila Nova Esperança, mas é mais conhecido como Rocinha – justamente por parecer com uma roça. Tem chão de barro, árvores que dão frutas, vista para o mar, tudo isso", conta. O paraíso escondido, que atualmente passa por revitalização do Governo, é lar do grupo infantil de percussionistas Meninos da Rocinha do Pelô.

Sem o primeiro contato com o instrumento, eles não conseguiam ingressar nas bandas do Pelourinho.

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Para tentar tirar o máximo de crianças do mundo do tráfico, montou a banda Meninos da Rocinha do Pelô.

Começou a tocar com sete anos de idade, de maneira autodidata. "Gostava de ver as bandas, mas não conseguia entrar, porque, tinha que saber tocar. Eu comecei então a imitar as batidas de tanto ficar olhando as bandas passarem: Banda Didá, Ilê Ayiê, Muzenza Olodum e Cortejo Afro". Sem dinheiro para comprar os instrumentos, improvisava em baldes, garrafas e latas.

Sempre quis tocar, motivada por um desejo nobre: dar um futuro melhor para as crianças da comunidade. "Sem o primeiro contato com o instrumento, eles não conseguiam ingressar nas bandas do Pelourinho. Então eu criei o grupo, para poder passar um pouco do que eu aprendia", revela. Com o tempo, foi se aperfeiçoando, fazendo freelas em outras bandas durantes o carnaval e pegando todo o dinheiro que ganhava para investir na banda.

Comprou alguns instrumentos percussivos menores, feitos de couro – aposentando os objetos que antes quebravam um galho – e ainda ganhou uma forcinha da mãe. Pouco antes de morrer, Nilzete vendeu o bar da família e reservou uma quantia para que a filha realizasse seu sonho. "Eu aprendi prestando atenção nos maestros, no que cada sinal significava, como parar, como prosseguir. Hoje eu sei tudo".

Vêm me perguntar quem é o maestro da banda e eu respondo: 'Aqui não tem maestro não, tem maestrina e sou eu'.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Atrelado ao comando do grupo e às aulas de percussão, Elem também quer fazer pedagogia:

A vontade de ensinar veio desde cedo, quando foi "encontrada" por duas freiras em uma sorveteria. As senhorinhas perguntaram à mãe de Elem se ela permitia que ambas pagassem os estudos da menina, que à época tinha só cinco anos, em um colégio particular da cidade. Dona Nilzete topou e a maestrina teve acesso a uma educação de qualidade até o Ensino Médio.

"Muitas pessoas me falam: nossa, Elem, você tem uma fala muito boa para uma menina que foi criada dentro da favela. Eu tive sim uma educação muito boa e por ter tido essa sorte, me sinto na obrigação de passar para as outras crianças o que aprendi. Não posso ajudar financeiramente, pagar uma escola para elas, mas posso ajudar com o pouco que sei", explica.

Já perdeu a conta de quanta gente ensinou. Hoje, a turma que comanda tem 36 jovens – seis mulheres e 30 homens. "Eles sabem que elas tocam tão bem quanto eles. Eles têm que ter muito respeito com as meninas, eu imponho isso. Até porque escuto muito comentário maldoso. Vêm me perguntar quem é o maestro da banda e eu respondo: 'Aqui não tem maestro não, tem maestrina e sou eu'".

Eu tive uma educação muito boa e por ter tido essa sorte, me sinto na obrigação de passar para as outras crianças o que aprendi.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

Ver a trajetória na tela grande, no seu próprio coming-of-age, foi uma emoção sem tamanho, ela conta. Mas por um motivo especial: no filme, pode rever muitos meninos oriundos da comunidade que foram mortos em decorrência do envolvimento com o tráfico. "Eu consegui tirar alguns das drogas. E fico muito feliz por ter conseguido. Não foram todos, infelizmente – oito da banda vieram a falecer. Mas os que conseguiram me ouvir, me agradecem muito".

Nessa relação, não é só ela quem aprende. Quando tinha apenas 11 anos, Elem teve o seu primeiro Acidente Vascular Cerebral (AVC). Até então, soma três. "Tenho uma má formação arteriovenosa, já nasceu comigo. É um caso muito raro, tanto que aqui em Salvador só tem um médico que realiza a cirurgia. A última vez que aconteceu, eu tive perda de memória recente. Esqueci até como tocar, como reger. E os meninos me ensinaram a tocar de novo".

Ela conta que uma vizinha evangélica chega a dizer que a doença é uma decorrência da sua "mania de ajudar esse tipo de gente", uma espécie castigo. Sobre isso, a maestrina é sucinta: "Se for para ter AVC por ajudar as pessoas, eu quero ter AVC pelo resto da minha vida (risos) ".

Ajudar ao próximo é o que eu sempre quis fazer na minha vida. E sem esperar nada em troca de ninguém. Esse é o meu grande sonho e a minha missão na terra.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
'Vêm me perguntar quem é o maestro da banda e eu respondo: 'Aqui não tem maestro não, tem maestrina e sou eu'.

Protagonista de filme e com uma banda para chamar de sua, Elem quer continuar estudando percussão. Mas não só isso: "Eu ganhei uma bolsa na Ufba para estudar percussão e também estudo no Pracatum, lá no Candeal. Mas penso também em fazer pedagogia, porque a minha vocação é trabalhar com as crianças. Ajudar o próximo é o que eu sempre quis na vida. Sem esperar nada em troca de ninguém".

Sobre o instrumento que prefere em meio a tantos que compõe um grupo de música afro, escolhe o repique. "É o mais difícil. As pessoas veem e pensam: ah, é o menor, é tranquilo. Mas é ele quem puxa o som, ele quem termina a música, ele quem tudo faz". Nem quando está sem a batuta, Elem deixa de fazer o que mais gosta: conduzir.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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