ENTRETENIMENTO
11/07/2018 14:20 -03 | Atualizado 11/07/2018 15:44 -03

'Queer Eye': Uma história oral do reality show de sucesso que ganhou revival na Netflix

Conversamos com 20 pessoas envolvidas nas duas versões de 'Queer Eye' para trazer para você um conto de fadas bom demais para a TV.

Era uma vez um canal a cabo à deriva, desesperado por uma história de Cinderela. Como se tivessem chegado a bordo de uma carruagem mágica, um grupo de gays apareceu para salvar a pátria – "fadas padrinhas" espertas o suficiente para enxergar uma história sobre um país finalmente pronto para ouvi-lo. Eles nem suspeitavam, mas estavam prestes as a mudar a TV e cultura popular que conhecíamos.

É difícil exagerar o impacto de "Queer Eye for the Straight Guy", o fenômeno do canal Bravo hoje conhecido simplesmente como "Queer Eye". Da concepção original ao revival do Netflix, o sucesso da série lembra um conto de fadas. A ideia foi uma aposta, o programa às vezes se perdia em estereótipos, e o título corria o risco de alienar tanto queers quanto héteros. Mas quando estreou, em julho de 2003, o programa desafiou todas as expectativas e se tornou o campeão de audiência do Bravo, canal que na época tinha 23 anos de vida.

E era só o começo.

Poucos fenômenos da cultura pop tiveram tanto sucesso imediato como "Queer Eye". Os cinco "treinadores", também conhecidos como Fab Five, viraram celebridades instantâneas; marcas conhecidas faziam de tudo para aparecer no programa. Não demorou para que o Bravo enchesse a grade com coisas parecidas, inclusive uma série spinoff terrível. Na quinta temporada, a audiência estava minguando, mas a série já tinha virado o modelo para os realities que seriam o pilar do futuro do canal. Essencialmente, podemos agradecer aos Fab Five originais – Ted Allen, Kyan Douglas, Thom Filicia, Carson Kressley e Jai Rodriguez – pelo golpe de mestre que deu origem à série "Real Housewives".

Quando a Netflix decidiu fazer um revival de Queer Eye, entretanto, a premissa do programa parecia ultrapassada. Gays batendo na porta de héteros sem noção? O mundo já avançou muito desde o programa original. Mas, em vez de meramente buscar visibilidade como o primeiro Queer Eye, a versão do serviço de streaming enfatiza conexões humanas mais profundas e desafia ideias convencionais de masculinidade e cuidados pessoais, sem abrir mão do consumismo ostensivo que é parte de seu DNA. A fofura das duas temporadas lançadas neste ano – com Bobby Berk, Karamo Brown, Tan France, Antoni Porowski e Jonathan Van Ness – prova que os Estados Unidos estavam com saudade desse calorzinho no coração.

Que seria possível adaptar as "fadas padrinhas" para a sensibilidade dos dias de hoje agora parece óbvio. É claro que houve muitas conquistas desde o primeiro Queer Eye – a aprovação do casamento gay, mais banheiros unissex, o fim da política "não pergunte, não conte" nas Forças Armadas, o movimento pela aceitação da comunidade trans --, mas isso não quer dizer que a igualdade seja a norma nos Estados Unidos. Os novos Fab Five sabem disso: eles encaram suas missões, agora no Sul do país, como uma vocação. Como seus antecessores, derrubam paredes com humor e elegância, confirmando que o coração aberto continua sendo um dos atributos essenciais do programa.

Mas voltando àquele "era uma vez". Conversamos com 20 pessoas envolvidas nas duas versões de Queer Eye, do início humilde em Boston ao domínio do streaming em Atlanta. Nessa jornada, estrelas surgiram, uma nova cultura de reality shows ganhou popularidade e a cultura ficou um pouco mais gay. Em outras palavras, eles viveram felizes para sempre. Mas muita coisa aconteceu pelo caminho.

Getty Images/Netflix
Top image: Kyan Douglas, Jai Rodriguez, Carson Kressley, Ted Allen, Thom Filicia. Bottom image: Bobby Berk, Karamo Brown, Antoni Porowski, Jonathan Van Ness, Tan France.

No começo

Para entender a gênese de Queer Eye, temos de voltar aos primeiros dias de uma empresa chamada Scout Productions, fundada em 1994. A produtora de filmes independentes de Boston, que lançou o thriller "Dead Dog" e "Six Ways to Sunday", de Debbie Harry, fez uma parceria com o documentarista Errol Morris no começo dos anos 2000 para criar a aclamada série de entrevistas "First Person". O acordo levou os fundadores da empresa, David Collins e Michael Williams, a conseguir um acordo de distribuição exclusivo com a Rainbow Media (hoje conhecida como AMC), que era dona de IFC, Fuse, Trio e do pequeno Bravo, na época um canal cuja programação era baseada em programas de arte e entretenimento. Em setembro de 2001, a Scout Productions estava procurando um novo projeto.

Michael Williams, cofundador da Scout Productions: A virada foi o 11 de setembro. As pessoas pararam de vir para Boston. Todas os filmes em produção foram cancelados. Ninguém queria voar para Boston. Nosso negócio estava simplesmente parado.

David Collins, cofundador da Scout Productions: Eu disse: "Esse negócio de reality show está decolando. Vamos inventar um reality show".

Williams: Em setembro de 2001, David e eu estávamos no South End de Boston [numa festa de artistas]. Estávamos entrando num loft, e houve uma comoção. Uma mulher estava esperando o marido, um cara meio nerd e todo desarrumado. Ela começou a reclamar com ele: "O que você estava pensando na hora que saiu? Olha essas meias". Ela estava falando alto, e todo mundo parou, tipo: "Uau, essa mulher tá dando aquela bronca no marido na frente de todo mundo". Ela apontou para um grupo de três caras e disse: "Olha eles. Por que você não se veste assim?" E o cara, na maior inocência, disse: "Bom, eles são gays – eles sabem se vestir".

Como eles estavam falando alto, os caras também ouviram e foram conversar com o casal: "Olha, calma. Ele não está tão mal assim. Você precisa fazer o seguinte. Isso, isso e aquilo". Assistimos à cena boquiabertos. David virou para mim e disse: "É isso. Esse é nosso programa."

Perguntei: "Que programa?" E ele respondeu – juro pela morte de todo mundo: Queer Eye for the Straight Guy".

David Metzler, produtor executivo da Scout Productions (e metrossexual): Eles voltaram correndo para o escritório e me contaram. Eu disse: "É uma ideia genial".

Williams: Na época eu era obcecado com a Esquire. A revista era dividida em moda, cuidados pessoas, design, cultura e comida e vinho. Essas verticais estavam na minha cabeça quando vimos aquele pobre hétero recebendo apoio e carinho dos gays.

Collins: Frances Berwick e Ed Carrol compraram nossa primeira série de TV, com Errol Morris. Foi essa nossa entrada na TV.

Williams: Pegamos o trem de Boston para Nova York e sentamos com Frances e Ed no antigo escritório da Rainbow Media.

Vivi Zigler, ex-vice-presidente de marketing da NBC: O Bravo na época era um canal de arte e entretenimento: Cirque du Soleil, "Inside the Actors Studio", filmes independentes.

Williams: Eu sabia que tinha montado uma apresentação muito legal para explicar o programa, sabia que a ideia era boa. Apresentei para eles e lembro de Ed Carroll gargalhando, achando que era piada.

Ed Carroll, ex-executivo da Rainbow Media: Gostamos na hora.

Pitch book, 'The Queer Eye for the Straight Guy'

Williams: Eles disseram: "É, isso é tão maluco que pode dar certo". Basicamente eles nos mandaram embora e disseram: "Deixem a gente pensar um pouco". Acho que eles ligaram no dia seguinte: "Quer saber? Vamos fazer um piloto".

Carroll: Respondemos para a Scout um ou dois dias depois. A proposta deles foi muito bem pensada. Tínhamos um reality show no ar chamado "Fire Island", que era tipo um "Casa da Praia" da MTV, mas com um público um pouco mais velho e na maioria homens. Era divertido. Durou só uns oito episódios, mas toda vez que as reprises passavam a audiência era boa. Não conseguíamos muitos anunciantes para aquele programa, mas dava para ver que o público estava à frente dos anunciantes.

Então, quando os caras da Scout apareceram com essa ideia do Queer Eye for the Straight Guy", Frances e eu nos olhamos, sabendo do sucesso de "Fire Island" e pensando no que fazer depois.

Collins: Mandamos a apresentação [para outras emissoras], sem que ninguém tivesse pedido. Meses depois alguém da MTV respondeu: "Acabei de abrir esse negócio. Adorei". A gente disse: "Vocês estão dois meses atrasados, já estamos fazendo com o Bravo".

SGranitz via Getty Images
The OG Fab Five arrive at the 2003 Emmy Awards.

Fazendo um programa fabuloso

A Scout Productions tinha encontrado seu programa fundamental. Agora só faltava o elenco. Williams e Collins olharam para as verticais da Esquire, que se tornaram as cinco categorias do programa. Bastava encontrar as pessoas com as características certas para apresentá-lo – uma tarefa complicada, porque a ideia era evitar celebridades.

Williams: Os Fab Five eram uma brincadeira com os Fab Four (os Beatles). Acho que escolhemos esse nome porque, quando estávamos gravando o piloto, a ideia era os caras aos poucos irem virando super-heróis. Um tem um secador, outro, uma frigideira, outro, o champanhe. Cada um com sua ferramenta. Eles chegavam, consertavam o hétero, deixavam um rastro de purpurina e partiam para o próximo.

Collins: O [piloto-teste, espécie de rascunho da série] foi aprovado no começo de 2002. Gravamos em junho de 2002. Então tínhamos quatro ou cinco meses para definir [o elenco]. Para o piloto, era um punhado de gente. Mas agora tínhamos de resolver.

Williams: Fizemos um chamado para homens gays nas cinco categorias. Eram anúncios no rádio e nos jornais. Foram três dias de audições no escritório do Bravo.

Metzler: Entrevistamos muita gente, tipo centenas de pessoas.

Williams: Também procuramos editores de revistas e dissemos: "Por acaso alguns dos seus caras dessas cinco categorias são gays? Adoraríamos conhecê-los". Os caras vinham fazer uma transformação em Dave Metzler e nuns outros caras que trabalham na Scout. Perguntávamos: "O que você faria com esse cara?"

Metzler: Estávamos querendo química – ver quem combinava com quem. Carson (Kressley) foi um dos primeiros que vimos, estava claro que precisaríamos dele.

Carson Kressley, especialista em moda da série original: Eu trabalhava para a Ralph Lauren e tinha um emprego maravilhoso de estilista e diretor de criação. [Um dia] um colega me disse: "Estava vindo pro trabalho de táxi e ouvi falarem desse programa 'Queer Eye for the Straight Guy'. Eles estão procurando gays especializados em moda e comida e design" e eu pensei: "Meu Deus, eu seria perfeito para isso, deveria tentar".

Então liguei para o Bravo, que eu achei que era uma marca de spray de óleo para cozinhar. Na época eu nunca tinha assistido muito o canal. [...] Não sabia como funcionavam os programas de TV nem que eles eram feitos por produtoras e depois vendidos para os canais.

[O Bravo] me deu o nome da produtora. Acho que isso foi antes do Google. Era na época do Ask Jeeves. Acho que liguei para o serviço de lista telefônica. Liguei e me disseram que os produtores, criadores do programa, estavam em Nova York fazendo testes. Disseram: "Se tiver uma foto e um currículo, mande para a gente". E eu: "Mas não tenho foto, só uma de mim com uns modelos da Ralph Lauren usando blusas com desenhos de flocos de neve. Serve?" E ele responderam: "Mande o que você tiver". Aí, cerca de um mês depois, eles disseram: "Queremos que você faça o piloto".

Williams: Carson chegou arrastando um baú da Louis Vuitton. Não era uma mala – era um baú com as coisas que ele apresentou na audição. Ele trabalhava para a Ralph Lauren e estava cheio de roupas com o estilo preppy da marca. Ele sabia exatamente o que a gente estava procurando.

Metzler: Ele virou uma âncora (do programa) desde o começo. O torturamos com semanas de audições. Estávamos procurando as pessoas que trabalhariam com ele.

Pensei: "Meu deus, eu seria perfeito para isso, deveria tentar". Então liguei para o Bravo, que eu achei que era uma marca de spray de óleo para cozinhar. Carson Kressley, especialista em moda dos Fab Five originais

Jai Rodriguez, especialista em cultura dos Fab Five originais: Quando estavam procurando alguém para a categoria de cultura, queriam uma figurinha carimbada da noite de Nova York. Meus agentes estavam pensando no assunto e alguém disse: "E o Jai? Ele é ator, mas ele tem essa coisa também".

[No meu teste eram] umas 12 pessoas reunidas em volta de uma mesa, e Carson e Ted estavam lá. Uma cadeira estava desocupada entre os dois, e sentei nela – a ideia era testar a química. A função deles era tentar mexer comigo, me deixar sem jeito para ver como eu reagiria. Mas ninguém tinha me avisado. Quando me faziam uma pergunta, eles não me deixavam falar. Aí comecei a responder sendo engraçadinho, porque pensei: "Bom, não vou conseguir esse emprego, mas vou ser memorável e alguma coisa vai rolar no futuro". Uma hora depois disseram: "Você começa segunda-feira".

[Nota do editor: quando Jai Rodriguez foi escalado, ele substituiu Blair Boone-Migura, que apareceu em dois episódios da primeira temporada como especialista "convidado". Boone-Migura depois viria a processar os produtores por quebra de contrato, mas o caso foi resolvido num acordo extrajudicial. Williams se recusou a comentar o assunto.]

Thom Filicia, especialista em design da série original: Conheci uma mulher [que era agente de artistas] que estava tendo literalmente um ataque de pânico num elevador. Meu cachorro estava no escritório até as 17h e tinha de ir no banheiro. Finalmente entrei no elevador, que parou entre dois andares. E ela: "Ai meu Deus, má notícia. Sou totalmente claustrofóbica". E eu disse: "As minhas são piores. Meu cachorro vai soltar uma bomba daqui dois segundos". Ficamos presos umas duas horas, conversamos muito e ficamos amigos.

Do nada ela me liga e pergunta se eu quero aparecer na TV. Ela recebia pedidos tipo: "Estamos procurando um gay que seja decorador e tenha experiência em TV". Ela ligou e perguntou: "Você tem experiência em TV?" Respondi: Se você considerar que eu transformei o elevador num palco naquele dia..."

Williams: Meses depois, quando entregamos o piloto [que iria para o ar], o Bravo adorou. Mas aí tudo foi paralisado porque havia a possibilidade de a NBC comprar o canal. Lembro que em janeiro de 2003 liguei para os Fab Five e disse: "Acho que não vai rolar".

Kressley: No fundo, no fundo, achei que não ia dar em nada. E tudo bem, porque eu tinha um emprego ótimo.

Rodriguez: Ninguém assistia Bravo. Não é como hoje. [O canal] tinha um programa de sucesso, que era "Inside the Actor's Studio". Achei que ninguém fosse ver nosso programa.

Zigler: Jeff Gaspin e eu tínhamos trabalhado na equipe da NBC que lidou com a aquisição do Bravo. Jeff estava checando os armários, por assim dizer, vendo o que estava sendo desenvolvido.

Jeff Gaspin, ex-presidente da NBC Entertainment: Na época, programas de transformação estavam na moda. "What Not to Wear", na TLC, fazia bastante sucesso, mas não tinha nenhum focado em homens e, ainda por cima, apresentado por cinco gays, o que era realmente uma novidade. Nosso timing não poderia ser melhor, porque naquele ano o termo "metrossexual" estava começando a entrar no vocabulário das pessoas. Foi um exemplo clássico de alinhamento dos astros. Nunca vi um programa estourar tão rápido em toda a minha carreira.

Filicia: Éramos parte da "reality TV" numa época em que isso ainda era meio novo e um pouco mais puro.

Stephen Shugerman via Getty Images
The OG Fab Five in 2004, with their Emmys for Outstanding Structured Reality Program.

Sobre a palavra 'queer'....

Quando "Queer Eye for the Straight Guy' estreou, "Will & Grace" tinha acabado a quinta temporada, "Queer as Folk" era um hit cult no Showtime e "The L Word" estava prestes a estrear. Programas com temática gay estavam aparecendo com cada vez mais frequência, mas o termo "queer" ainda tinha um certo estigma. E, como descobririam os produtores, essa não era a única controvérsia no nome da série.

Zigler: Tantos canais e tantos executivos são definidos pelo primeiro programa que anunciam. Então fiz essa escolha interessante, corajosa, diferente e definidora. Lembro de participar de reuniões com outros executivos para discutir o título, e falava-se muito do termo "queer".

Rodriguez: Eu estava preocupado com a associação a um programa com "queer" no nome. Não eram tantos programas LGBT assim.

Filicia: Acho que a estratégia era [...] "vamos chacoalhar as coisas um pouco". Acho que o plano sempre foi apresentar [a palavra] de maneira muito positiva.

Collins: Sempre soubemos que [o programa] nunca seria maldoso. Era para melhorar. Era para levantar as pessoas.

Gaspin: A equipe de vendas da NBC estava com medo de ter dificuldade para vender [anúncios] por causa do nome, e isso realmente aconteceu no começo. Aí a equipe de vendas afiliada teve receio que o nome dificultaria a venda do canal para os operadores de TV a cabo. As duas equipes pediram para mudar o nome do programa. E eu disse não.

Filicia: Uma empresa grande de móveis com quem acabamos trabalhando por bastante tempo ficou muito ofendida com o nome no começo.

Durante um tempo, as pessoas erravam o nome do programa. Falavam: "Ah, você é do 'Gay Eye'", porque "gay" era uma palavra mais leve e as deixava mais à vontade.Jai Rodriguez, especialista em cultura dos Fab Five originais

Zigler: A palavra "queer" na época não era usada tão amplamente na época e com certeza não em contextos positivos. Ninguém queria usar uma palavra que sugerisse exploração de gays e lésbicas.

Rodriguez: O engraçado é que, durante um tempo, as pessoas erravam o nome do programa. Falavam: "Ah, você é do 'Gay Eye'", porque "gay" era uma palavra mais leve e as deixava mais à vontade.

Gaspin: Meu departamento procurou a GLAAD (uma ONG que monitora como os meios de comunicação tratam a comunidade LGBT) para se certificar de que o nome não seria ofensivo. Eles responderam que na verdade estavam tentando tirar o estigma da palavra "queer" e queria reintroduzi-la no léxico de maneira mais positiva. Com esse apoio, eu não ia mudar de ideia em relação ao nome.

[Nota do editor: representantes da GLAAD não quiseram comentar.]

Collins: Embora a gente quisesse retomar o poder da palavra "queer", sabíamos que ela significava apenas "diferente". É só uma perspectiva única.

Williams: Na apresentação original, o programa chamava "The Queer Eye for the Straight Guy". Quando a NBC assumiu o Bravo, recebemos uma ligação: "Temos de falar sobre o nome". Pensamos: "Ih, lá vem. Querem tirar o 'queer'". Mas era só o "the". Eles achavam que era desnecessário.

Metzler: Achamos que o artigo definido "the" dava a sensação de algo definitivo. Como se houvesse um único "olhar queer". De repente viramos professores de gramática.

Collins: Era o olhar queer, não um olhar queer qualquer.

Zigler: Como pessoa de marketing, tinha de pensar como as pessoas falariam [do programa]. David e eu conversamos: "Todo mundo vai acabar chamando de 'Queer Eye'". [...] No final, ele concordou.

Collins: Acho que foi lá pelo 30º episódio que tiramos o "for the Straight Guy". Até na versão da Netflix tem essa segunda parte, mas nós tiramos desde os tempos do Bravo.

A grande estreia

Com o elenco definido, um nome chamativo e a aquisição do Bravo pela NBC por 1,25 bilhão de dólares, a equipe de marketing do canal lançou uma blitz promocional. O resultado foi excelente: mais de 1,6 milhão de pessoas assistiram à estreia de "Queer Eye for the Straight Guy", em 15 de julho de 2013.

Frances Berwick, chefe de programação do Bravo: Quando decidimos fazer o programa, era de longe a nossa maior aposta entre tudo o que tínhamos em desenvolvimento. Jeff Gaspin tomou a decisão de usarmos basicamente o orçamento de marketing do ano inteiro para promover o programa.

Gaspin: Usei o que chamei de teoria da bala única, ou seja, "temos só uma bala no revólver e vamos atirar em 'Queer Eye'".

Zigler: Fizemos o que chamaram na época de uma das campanhas de marketing [para programas de TV a cabo] mais caras até ali: 10 milhões de dólares. [Nota do editor: Gaspin estima que o orçamento anual fosse algo como 7 milhões ou 8 milhões de dólares, contra 200 milhões para a NBC.]

Berwick: [A NBC] nos deu [espaço] de promoção que jamais conseguiríamos pagar. Isso foi decisivo.

Gaspin: A ideia era: se você pensar pequeno, ninguém vai prestar atenção. Usamos aviões sobrevoando praias com faixas "Queer Eye vem aí". O título chamava muita atenção, e poder vender uma coisa dessas é o sonho de quem trabalha com marketing.

Zigler: Começamos com uma campanha de teasers, mostrando pedaços provocantes, mas sem entregar tudo. Queria escolher uma paleta de cores distinta para um programa que já tinha sua paleta de cores distintas, se é que você me entende. Lembro de conversar com a equipe de design da NBC. Eles apresentaram várias combinações de cores. Estávamos fazendo pontos de ônibus, outdoors, metrô, tudo isso.

Carson foi o estilista do ensaio. [Os Fab Five] eram supertalentosos e ajudaram muito no lado criativo. Contei muito com a ajuda deles durante [a fase do] marketing.

Williams: Durante uns seis meses, brigamos por causa de um lírio. Era uma silhueta da flor que aparecia no fundo do pôster original do programa. A polêmica era que o lírio é associado a enterros. Trocamos centenas de emails sobre isso, porque usar um "lírio da morte" no pôster de Queer Eye. Nenhum programa na história da TV teve uma briga mais gay.

Rodriguez: Acho que fomos os primeiros a obter autorização para fechar a ponte do Brooklyn, onde gravamos o videoclipe. Foi épico e histórico.

Collins: A gravação do vídeo foi um negócio gigantesco. Fechamos a ponte do Brooklyn para começar a gravar às 3h. Filmamos em toda a cidade de Nova York. Tínhamos de gravar tudo em 18 horas, porque os caras iam participar de uma entrevista com Barbara Walters [uma das apresentadoras de TV mais famosas dos Estados Unidos]. Eles ficaram chateados porque pareciam cansados. Passaram 24 horas acordados. Wayne Isham, que tinha feito clipes para Madonna, foi o diretor.

Zigler: O programa estreia e é a melhor audiência da história do Bravo. O canal entra no mapa. Começamos a receber pedidos para que os caras apareçam na Oprah e na capa da Entertainment Weekly. Virou esse fenômeno cultural.

Lauren Zalaznick, ex-executiva da NBC: Foi tipo 20 vezes – 20 vezes! – o recorde de audiência anterior.

Zigler: Estreamos numa terça-feira às 22h. Uma semana depois, o FX estreou a série "Nip/Tuck", no mesmo dia e horário. O programa era incrível e inovador. Lembro de ligar e brincar com Chris Carlisle, chefe de marketing do FX na época: "Você tinha de escolher terça às 22h? A gente tem de trocar figurinhas, amigo".

Gaspin: Tinha decidido que um programa com cinco caras gays era uma ilha no canal, então encomendei um [programa de encontros] chamado "Boys Meet Boys" para acompanhá-lo. Tínhamos um bloco de programação gay, o que era bem novo. Na verdade eu achei que esse outro programa fosse estourar, não "Queer Eye".

Kressley: Eu não sabia se teria longevidade, e felizmente teve. Tipo em agosto daquele ano estávamos no [programa de entrevistas] "The Tonight Show" e fazendo "Ellen" – foi um furacão, fomos ao Emmy. Porque seis meses antes a gente nunca tinha aparecido na TV.

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Top image: Beyoncé at the 2003 MTV Video Music Awards. Bottom image: Ashton Kutcher at VH1's Big In 2003 Awards.

Mais que um programa

Se havia dúvidas sobre a premissa ou o nome de "Queer Eye", elas logo desapareceram. A resposta do público foi excelente. Não demorou para que as marcas brigassem para incluir seus produtos de luxo nas transformações – uma mudança radical para quem tinha medo que o formato voltado ao público LGBT pudesse ser um problema.

Zigler: Entrei no escritório na manhã seguinte, acendi a luz e é claro que a luz da secretária eletrônica estava piscando. A central não sabia o que fazer com tantos telefonemas. Lembro de ouvir dezenas de mensagens no viva-voz. Algumas eram de ódio, o que não foi surpresa. Estávamos recebendo muitas reclamações por causa da campanha de marketing.

Mas lembro de uma mensagem incrível de uma mulher que disse ser professora na Flórida. Ela disse que assistiu ao programa com a mãe, professora aposentada, e as duas queriam nos aplaudir pela lição que demos ao mundo.

Rob Eric, chefe de criação da Scout Productions: O que fez diferença para a gente foi conhecer pessoas reais. Uma carta que sempre menciono é de um cara da Geórgia que morava em Boston. Massachusetts na época era o único estado que permitia o casamento gay, e ele iria casar. Ele não tinha contado para a família. Queria que todos fossem ao casamento, mas disse: "Vou convidar, mas sei que eles não vão vir".

Aí ele mandou o convite para a família, e a irmã respondeu: "Meu Deus, que incrível, é claro que vamos". Ele ficou surpreso. "Ótimo! Empolgado! Surpreso! Por que vocês mudaram de ideia?" E ela diz: "Bom, desde que começamos a ver aquele 'Queer Eye for the Straight Guy' entendemos um pouco melhor e adoraríamos ir para o seu casamento." Toda vez que lia a carta, pensava: era isso o que a gente queria.

Kressley: Um dos motivos pelos quais as pessoas responderam tão positivamente é que nunca tiramos sarro dos héteros. Sim, dávamos risada, mas todo mundo era parte da piada.

Filicia: Éramos cinco gays muito diferentes, nos divertindo juntos e ajudando esse hétero. Acho que isso foi muito importante.

Kressley: Acho que sendo gays desde pequenos e talvez alvo de bullying ou provocações e gozações etc – acho que inconscientemente pensávamos: "Jamais vamos fazer isso. Vamos dar uma risada gostosa e vamos nos divertir com esses caras, mas jamais vamos diminuí-los". Crescer gay nos deixou mais sensíveis. É claro que a gente fazia brincadeiras, mas nunca era "nós contra eles" e nunca tirávamos sarro.

Acho que sendo gays desde pequenos e talvez alvo de bullying ou provocações ou gozações etc – acho que inconscientemente pensávamos: "Jamais vamos fazer isso".Carson Kressley

Zigler: Avance um ano, e a GLAAD nos premiava como Outstanding Reality Show. Lembro de estar num jantar com o pessoal da GLAAD. Eles nos elogiavam e davam muito apoio.

Collins: Fomos o formato mais vendido internacionalmente pela NBC Universal durante muito tempo. O programa era exibido em mais de 180 países. Um departamento enorme cuidava da venda. E versões começaram a aparecer no mundo inteiro: os Fab Five do Reino Unido, da Austrália, da Holanda.

Kitty Boots, figurinista do "Queer Eye" original: Demos muita sorte e conseguimos estilistas ótimos para ajudar a vestir os meninos. O primeiro episódio foi feito por Etro, o segundo por Marc Jacobs, que eu adoro – ele é meu amigo. Passava um tempão no telefone, dizendo: "Oi, sou de um programa chamado 'Queer Eye for the Straight Guy'. As pessoas diziam: 'Peraí. Como é o nome do programa?'"

Berwick: No começo era tudo mais difícil, mas depois um monte de marcas queriam participar.

Boots: Quando o programa recebeu boas críticas e uma audiência enorme, tudo ficou mais fácil.

Filicia: [Minha vertical] era muito ligada a produtos, e eu tinha de estabelecer relações com todos os varejistas. Tentamos criar essas relações para que eles patrocinassem os episódios.

Rodriguez: Lembro que na primeira temporada a gente ia muito à IKEA, porque eles embarcaram completamente. E lembro que no começo [a rede de supermercados] Whole Foods não queria se comprometer antes de o programa ser um sucesso garantido. Mas lembro deles como uma das marcas que não queria se envolver com a gente na primeira temporada.

[Nota do editor: representantes do Whole Foods não quiseram comentar. Em um comunicado ao HuffPost, representantes da IKEA disseram: "O Queer Eye estava alinhado com os valores centrais da IKEA de inclusão, apresentava ótimas ideias para uma vida melhor em casa e parecia um parceiro natural para a IKEA desde o começo".]

E os estereótipos?

"Queer Eye" é parte de um grupo de programas que avançou a agenda LGBTQ na grande mídia, mas não sem detratores. Desde o princípio, críticos questionaram se os apresentadores não estavam meramente perpetuando estereótipos. E, com exceção da temporada única do spin-off "Queer Eye for the Straight Girl", em que três apresentadores homens e uma mulher eram conhecidos como Gal Pals, o elenco da série não teria feito muito para ir além do ponto de vista masculino e cisgênero. Mas, apesar de sempre haver espaço para mais inclusão, os Fab Five originais refutam as críticas.

Kressley: [Se] estivéssemos interpretando papeis em vez de sermos nós mesmos, talvez fosse um argumento válido. Mas éramos cinco caras gays na TV – em um reality show --, simplesmente sendo quem somos. E éramos bons naquilo. Então acho que isso meio que refuta a ideia de "reforçar estereótipos".

Rodriguez: O que fazer se você reúne cinco caras bons no que fazem em suas respectivas áreas e essas áreas por acaso coincidem com coisas estereotipadas?

Se estamos falando de estereótipos, acho que você poderia dizer que eu e Carson eram os mais fabulosamente exagerados, porque sou artista e Carson, tipo, solta glitter quando espirra. O que você vai fazer? Jai Rodriguez

Berwick: Antes que [qualquer pessoa] tivesse visto o programa, já havia muita crítica negativa, porque achavam que estávamos estereotipando homens gays. [...] Quando o show foi ao ar, provou ser o contrário, e a imprensa dizia: "Isso é tão caloroso, é um programa ótimo e inovador".

Filicia: No começo houve reações negativas. Um estilista famoso comentou que estávamos perpetuando estereótipos. Não vou mencionar o nome, mas ele disse isso.

Rodriguez: Antes de "Queer Eye", não havia programas com um elenco completamente gay. Kyan era o cara do cabelo, mas também era o cara "machão". Ted falava de ser casado. Você tinha pessoas como Thom – as pessoas sempre achavam que ele era o "hétero". Se estamos falando de estereótipos, acho que você poderia dizer que eu e Carson eram os mais fabulosamente exagerados, porque sou artista e Carson, tipo, solta glitter quando espirra. O que você vai fazer? São as pessoas com quem ando. Tenho meus Kyans. Tenho meus Thoms e meus Carsons.

Kressley: Lembro que quando fizemos o TCA (associação dos críticos de TV), e um repórter disse: "Assisti o programa, e parece que vocês estão implicando com os héteros, isso parece justo, isso já aconteceu com você?" E eu respondi: "Sim, aconteceu. Chamava ensino médio". E todo mundo riu e achou engraçado. Foi esse o tom que adotamos, sem pedir desculpas por nada.

Jon Kopaloff via Getty Images
The old cast meets the new.

Nada dura para sempre

É difícil pensar em outro programa que tenha tido o sucesso de Queer Eye antes das redes sociais. Os Fab Five eram o centro do zeitgeist quando o programa ganhou o Emmy de Outstanding Structured Reality Show em 2004. Mas a audiência foi caindo gradualmente nas temporadas seguintes. No começo de 2007, depois de cinco anos no ar, o Bravo acabou com o programa e decidiu aproveitar o sucesso de outros programas "gay-friendly", como "Project Runway", "Top Chef", "Million Dollar Listing" e a nascente franquia "Real Housewives". Mas, sem Queer Eye, nenhum desses programas teria sido possível.

Collins: De repente os caras eram celebridades, e estávamos entrando na mesma. Fomos ao Grammy, ao Emmy. As estrelas, tipo "Ai meu Deus, Sarah Jessica Parker", vinham falar com eles, eram superfãs. Sarah Jessica Parker disse: "Adoro o programa. Vocês são tão legais com as pessoas. É tão diferente do que tem na TV".

Rodriguez: Lembro de Ashton Kutcher me puxando de lado. [...] Ele estava numa festa com a namorada, Demi. Ele disse: "Ei, adoro seu programa. Olha, olha, sei fazer como você". Eu tinha ensinado um passo de dança para um casal [no programa] e ele fez igual com Demi. Eu: "Morri. Oficialmente morri. Estou morto."

Collins: Lembro de Demi Moore e J. Lo falando muito bem do programa. Demi sabia o nome de todos os héteros.

Rodriguez: [O então presidente George W. Bush] fez referência a nós algumas vezes. Éramos parte das piadas dos talk shows. [...] Apresentamos um prêmio no VMA quando Beyoncé ganhou por "Crazy in Love". Vimos Madonna e Britney se beijando ao vivo naquele ano.

Gaspin: [O programa] era muito popular, e o que tende a acontecer quando algo brilha tanto é que a luz tende a perder a força. E o programa começou a perder o brilho muito mais rápido que eu esperava, mas rápido do que costumava acontecer com um programa de tanto sucesso.

Zalanick: Diferentemente de um hit da TV a cabo, em que a ideia é estrear e crescer aos poucos, Queer Eye funcionou mais como um programa da TV aberta: estreou no auge e nunca mais manteve aquele nível.

Linda Lea: Era muita pressão para entregar tanto em tão pouco tempo.

Collins: Os pedidos de episódios aumentaram muito rápido por causa do sucesso. Acho que passamos de 12 para 15, e depois pediram 40. Era uma loucura.

Lea: A gente ficava procurando caras com histórias diferentes. [...] Teve um que a gente achou que era exagerado demais, nos perguntamos se realmente deveríamos fazer. Pensamos: "OK, conhecemos todos os caras, contamos todas as histórias. O que mais? Vamos encontrar um nudista".

Zigler: Como era esse fenômeno, parecia agarrar um tigre pelo rabo. Todo mundo estava empolgado com o sucesso tão grande e tão rápido. Não tínhamos equipe suficiente para lidar com aquilo.

Gaspin: Por algum motivo, e até hoje não entendo o porquê, a audiência caiu de repente. Simplesmente não conseguimos manter o sucesso. Até hoje isso me deixa confuso. Mesmo quando voltamos anos depois, não deu certo. Não tenho a resposta.

Lea: Todo mundo sabia que havia um prazo, e fomos inteligentes o bastante para prever e planejar com antecedência, para termos 100 bons episódios. Nós e o canal fomos inteligentes de parar ali.

Gaspin: O programa custava caro para o Bravo naquela época. [...] E eram muitas reprises, o que é normal na TV a cabo quando você tem um hit nas mãos. Mas, felizmente, conseguimos outros hits depois, como "Project Runway" e "Top Chef". Não dependíamos muito de Queer Eye. Quando olhamos para a audiência e para as finanças, percebemos que era hora de parar por ali.

Zalanick: Apesar do declínio rápido, foi o programa que transformou o Bravo no canal que é hoje.

Williams: O canal soube aproveitar as cinco verticais para criar outros produtos. Elas viraram as áreas de foco do Bravo. "Top Chef", "Project Runway", todos nasceram do Queer Eye, porque essas categorias viraram áreas de interesse para o público.

Lea: Éramos um grupo bem próximo, então ninguém queria se separar. Mas não houve uma sensação de perda. Foi mais uma sensação de "uau". Foi uma conquista da qual todos nos orgulhamos e que vai continuar disponível para o público muito depois da nossa morte. O programa foi tão transformador que pode ir parar numa cápsula enviada a Marte.

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Karamo Brown, Bobby Berk, Antoni Porowski, Tan France, Jonathan Van Ness.

Tudo de novo

Em 2007 foi exibido o que era considerado na época o último episódio de Queer Eye. Mas hoje em dia parece que nenhum programa morreu para sempre. A era do streaming nos trouxe uma infinidade de revivals e reboots. Depois de oferecer uma nova versão de Queer Eye para emissoras tradicionais, Collins e Williams encontraram uma nova e improvável casa: o Netflix.

Williams: [A ideia do revival] veio da [agência de talentos] WME. Eles fizeram uma reunião e alguém disse: "Acho que 'Queer Eye' e outros formatos estão começando a pipocar de novo". Quando conversávamos com os canais, eles pediam: "Tragam o seu 'Queer Eye'". E a gente respondia: "Bom, a gente pode trazer de volta o próprio 'Queer Eye'". Mas ninguém se interessava, por causa da identificação com o Bravo. Chegamos perto [de fechar] com alguns [canais].

Bela Bajaria, vice-presidente de aquisição de conteúdo do Netflix: A Scout Productions já estava oferecendo a série antes de procurar a Netflix.

Williams: A dificuldade do processo de escolha do elenco era que Rob, David e eu tínhamos de passar dias vendo fitas desses gays lindos. Foi difícil.

Bobby Berry, especialista em design dos novo Fab Five: Recebi uma ligação da minha agente, dizendo que estavam fazendo o programa de novo. [Ela] conseguiu uma audição via Skype. Acho que estava marcada para 13h30 e tipo 13h15 acaba a luz no meu prédio. "Meu Deus, não tenho Wi-Fi. Não tenho como fazer a entrevista por Skype!" Entrei no carro e fui o mais rápido possível para o escritório, que fica a uns quatro quilômetros. Fiz a entrevista e pensei: "Que pesadelo. Foi muito ruim. Não vou conseguir de jeito nenhum. Nunca mais vão entrar em contato comigo".

Eles ficavam mostrando fotos de ambientes horríveis achadas no Google, perguntando: "O que você faria com esse espaço?" Bobby Berk, especialista em design dos novo Fab Five

Karamo Brown, especialista em cultura do novo elenco: Estava em casa assistindo um talk show do Bravo, e Carson Kressley era o convidado. Ele disse que o programa voltaria, mas com novos caras. Liguei para meu agente e disse: "Ei, consigo participar?" Faltavam três semanas para o fim das audições, e eles disseram para o meu agente que era tarde demais. Meu agente disse: "Vocês têm que conhecê-lo". E essa mulher foi um doce: "OK. Faço esse favor para você". E três semanas depois eu estava contratado.

Collins: Os testes de química são tudo, tanto na primeira versão como agora. Estávamos em hotéis aqui em Glendale com os 40 finalistas para o "Queer Eye" atual. Ficamos umas seis, sete, oito horas. A mágica se revelou quase instantaneamente. Você vê o grupo se formando.

Você via Tan e Jonathan se destacando. Eles dizem que formaram um grupo para trocar mensagens e diziam: "Vamos fazer isso juntos. Vamos ser uma equipe".

Berk: [Um dia] foi como um speed-dating. Eles montaram três mesinhas, e cada pessoa de cada categoria passava cinco minutos em cada mesa. Design de interiores foi a última categoria, então acho que esperei 12 horas para fazer 15 minutos de entrevistas. Eu estava gripado. Meu pai ia fazer uma cirurgia no coração aquele dia. [Dias depois], eles começaram a nos colocar em salas, cinco de cada vez, uma pessoa de cada categoria, e depois foram fazendo rodízios. Aí Karamo e Tan não saíam mais da sala, depois Jonathan e aí Antoni. Todo mundo perdeu a noção do tempo. Acho que eram 20h ou 21h.A gente precisava de um tempo. Todo mundo saiu da sala e não tinha mais ninguém. Sobramos nós cinco.

Nos entreolhamos e dissemos: "Ai meu Deus, acho que conseguimos".

Tan France, especialista em moda dos novos Fab Five: Nunca vi ninguém como eu representado no programa, então fui fazer a audição. Primeiro, fizemos uma entrevista por Skype. Durante a conversa, lembro de pensar: "É isso, não vai rolar". Uma semana depois, fiz uma audição ao vivo – que eles chamaram de teste de química. Nunca imaginei que me escolheriam. Só pensei: "Vou lá fazer novos amigos".

Berk: Eles ficavam mostrando fotos de ambientes horríveis achadas no Google, perguntando: "O que você faria com esse espaço?" Bobby Berk.

France: Quando me mostravam as fotos, eu não queria detonar aquelas pessoas. Eu dizia: "Não sei quais são as circunstâncias. Talvez elas precisem de macacão para o trabalho. Quero saber mais sobre elas". Não ia destruir aqueles caras para arrancar umas gargalhadas. Não sou assim. E eles disseram: "É exatamente isso o que queríamos ouvir".

Bajaria: No fim das conta, os Fab Five escolheram uns aos outros tanto quanto os produtores os escolheram. Bobby, Tan, Karamo, Antoni e Jonathan estavam unidos antes da decisão final. A conexão deles é uma parte enorme do sucesso do programa.

Williams: Queríamos encontrar as melhores pessoas das cinco categorias e, quando fizemos a primeira peneira, fomos testando combinações para ver a química. Não estávamos procurando o "novo Carson" e o "novo Thom".

Bajaria: A ideia era continuar o diálogo do programa original, desmontando estereótipos. É muito mais que um programa de transformações.

No fim das contas, os Fab Five escolheram uns aos outros tanto quanto os produtores os escolheram. Bela Bajaria, vice-presidente de aquisição de conteúdo da Netflix

France: Eu conhecia o "Queer Eye", mas não sabia que seria diferente da versão anterior. E não queria fazer a versão anterior. Adoro o que fizeram, mas queria falar dos detalhes da vida gay [...], pelo menos do fato de ser casado, de querer filhos e de ter esperanças em relação ao futuro, como os héteros. Não acho que os Estados Unidos estavam prontos para isso 15 anos atrás.

Berk: Acho que o "Queer Eye" original nos colocou nessa jornada de normalização e fez as pessoas perceberem que somos pessoas como quaisquer outras. Foi o começo da aceitação. E acho que o novo programa está reforçando isso.

France: Para mim, ir para o Sul [dos Estados Unidos] foi um dos grandes atrativos. Foi o que me empolgou, porque conheceria gente que nunca viu uma pessoa parecida comigo, que falasse comigo, se comportasse como me comporto.

Jonathan Van Ness, especialista em cuidados pessoais dos novos Fab Five: Sou da área rural de Illinois, então ir para a área rural da Georgia não foi tão diferente. Posso usar um kilt e uma blusa que mostra os ombros para participar de uma reunião do Rotary sem problema nenhum.

Brown: Ir para o Sul de cabeça e coração aberto, dispostos a aprender com esses caras assim como eles aprendem com a gente, foi a coisa mais especial. Fiquei muito contente, porque recebo mensagens nas redes sociais dizendo: "Agora não tenho medo de procurar pessoas diferentes de mim".

Van Ness: Eu realmente queria acabar com essa ideia de que todos os gays se depilam e todos têm sobrancelhas feitas [...] e que isso é o que tem de fazer para parecer bem cuidado. Queria acabar com esses mitos. A ideia de que só existe um tipo de beleza [...] é tão velha e tão arcaica. [...] Queria empoderar as pessoas para que elas encontrem suas próprias verdades, em vez de eu ter de dizer qual é a verdade delas.

Antoni Porowski, especialista em comida dos novos Fab Five: O formato pede intimidade e conversas verdadeiras.

Williams: Como num bom terno, a fundação é sempre a mesma, mudam os acessórios.

O legado de ontem de hoje

Embora o formato seja muito parecido com o da primeira versão, no novo "Queer Eye" os héteros não são os únicos personagens. A primeira temporada incluiu um gay que não tinha saído completamente do armário; a mais recente mostra uma mulher religiosa e um homem transgênero. E, na era das redes sociais, os Fab Five são ainda mais notórios, viajando pelo mundo e interagindo com os fãs em várias plataformas.

Kressley: ["Queer Eye"] foi uma benção para mim. O programa ajudou a sair do armário para minha família. Me ajudou a ficar mais à vontade comigo mesmo e com várias pessoas.

Rodriguez: O que me deixa mais contente é que nos últimos 14 anos incontáveis pessoas me puxaram de lado e disseram: "Por causa de vocês, foi mais seguro sair do armário para meus pais". Isso para mim é o melhor resultado possível.

Filicia: Se fizemos 101 episódios, 100 dos héteros estavam completamente envolvidos. Queriam nos conhecer, participar do programa, ouvir nossos conselhos e se empolgar com o processo.

Berk: Religião era minha vida e, quando saí do armário, ela me virou as costas para mim, o que é algo que não consigo perdoar. Agora temos esse episódio da nova temporada, bem no meio de uma igreja, e quase não participei. Houve muitas conversar de bastidores, e eu dizia: "Não". Foi só quando conversei com Joel, da Scout Productions. Ele disse: "Você tem de fazer pelos pequenos Bobbys. Os pequenos Bobbys e Joels que ainda estão nas igrejas do mundo..."

Foi essa conversa que me convenceu a participar do episódio. Foi uma experiência profunda. Fomos ajudar [Tammye], e ela me ajudou. Foi uma das minhas experiências prediletas, não só no programa, mas na vida.

Porowski: Minha sexualidade sempre foi uma coisa meio íntima [...] e agora não é mais o caso. Sou grato por isso.

Nos últimos 14 anos incontáveis pessoas me puxaram de lado e disseram: "Por causa de vocês, foi mais seguro sair do armário para meus pais". Jai Rodriguez

Kressley: Estava num voo e a comissária me deu um guardanapo dobrado. Dentro, uma mensagem: "Assisti seu programa quando era adolescente. Tinha medo de sair do armário para minha família, mas seu programa ajudou a ter essa conversa e hoje sou um cara feliz, ajustado e bem-sucedido graças a você e ao seu programa". Isso acontece muito, sempre fico arrepiado.

Brown: Quanto mais as pessoas nos virem, conhecerem outros gays e entenderem que temos os mesmos desejos, medos e esperanças – isso é o que muda as cabeças.

Quando A.J. saiu do armário [quarto episódio da primeira temporada], muita gente não viu a cara que ele mandou. Conversamos durante uma hora e meia, e o inspirei a escrever aquela carta. Na conversa, ele chorou e riu, foi muito inspirador.

Diria que o que quero trazer para o programa [...] é fazer os caras chorar [...] criar esses momentos de catarse.

Porowski: Adoraria explorar comunidades diferentes.

Van Ness: Adoraria tipo ir para Porto Rico. Vamos ajudar a reconstruir Porto Rico, vamos arregaçar as mangas. Ajudo Bobby. Vamos lá.

France: Queria representar o maior número de demografias possível. Acho que começamos muito bem, mas ainda há muito a fazer. Gostaria de continuar nos Estados Unidos, mas o programa é global – vai ser um programa global. Adoraria continuar em outras partes do mundo, ver o que seríamos capazes de fazer.

Rodriguez: "Queer Eye" é épico, e estou feliz de passar o bastão para essa nova fraternidade.

France: O que você vê no programa é só uma pequena parte do que gravamos. Fazemos muito mais, mas você acaba não vendo.

Filicia: Acho que fomos humildes, fomos amigos, fomos próximos, fomos divertidos e fomos gentis uns com os outros e com todas as pessoas.

Kressley: Sinceramente, eu só queria que os caras parassem de usar calças cáqui com pregas.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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