12/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 12/07/2018 13:19 -03

A força da escrita e da voz que se faz escutar: A ressignificação de Cristiane Sobral

Ela queria tanto ver sua própria representação das mulheres que precisou escrevê-las: "A gente não é a mulher que o Chico Buarque inventou. E a gente não dá conta de existir dentro dessa construção."

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Cristiane Sobral é a 127ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

"Amanhã, estaremos vivas/ Com as unhas pintadas de vermelho/ Os lábios rubros beijando nossos pretos em praça pública/ Com prazer/ Protestando contra a violência/ Que reine a resiliência/ Porque vamos encher a terra com nossos filhos/ Até que cesse o choro pelos outros filhos, assassinados/ Seremos as loucas que sabem sorrir/ As bruxas que sabem brotar diante do mal/ Mulheres inteiras que sabem gozar/ Sabem gostar da vida"

As palavras do poema Resistência, de Cristiane Sobral, falam por si. Aos 43 anos, a escritora, atriz, poeta, professora e ativista é uma mulher que passa a segurança de quem quer traçar sua própria história, escrever seus próprios contos e versos sem medo. A primeira mulher a se formar em artes cênicas na Universidade de Brasília, a carioca radicada em Brasília (DF) hoje tem seus poemas do livro Não vou mais lavar os pratos lido nas escolas públicas do Distrito Federal. É com a força da sua escrita e da sua fala que ela se faz escutar e tenta mudar não apenas a sua jornada, mas de outras mulheres.

Quando escrevo quero me reinventar através dessas mulheres e aprender com elas.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O teatro e a escrita a levaram Cristiane para outros lugares de pertencimento.

Sentada na praça no centro do Núcleo Bandeirante, cidade que fica a 13 quilômetros do centro da capital federal, Cristiane fala com desenvoltura e segurança. Relembra da infância no subúrbio do Rio de Janeiro, com os pais que gostavam de ler, da mãe que era líder comunitária, e de como as palavras se tornaram natural pra ela. O caminho de atriz e escritora começou a se formar com a inquietação de não se sentir representada nem nos livros, nem nas novelas. "Eu não me via nos programas, nas novelas, nem nos livros, fui uma menina muito questionadora e veio com isso o desejo de escrever e inscrever um espaço meu para estar neste mundo", lembra.

Quando era pequena, viu a apresentação de uma orquestra no bairro de Santa Teresa e ficou impactada com um homem tocando clarineta. "Eu vi aquilo e comecei a chorar, achei que era a coisas mais bonita que eu tinha visto na vida. Era arte! Era uma coisa que quase não dá pra explicar, esse desejo de afetar as pessoas e ser afetada, produzir um mundo diferente desta realidade que a gente vive hoje em dia", conta.

Estamos todos inseridos no sistema machista.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O caminho de atriz e escritora começou a se formar com a inquietação de não se sentir representada nem nos livros, nem nas novelas.

Com 7 anos, perdeu a mãe e entrou num universo muito particular. "Eu vivia uma solidão, de sentar e observar o jardim, de absorver uma vida interior muito rica por conta desses silêncios, eu estava prestando a atenção", relembra. O teatro e a escrita a levaram para outros lugares de pertencimento. Ela fez cursos e com 17 anos foi para Brasília com o irmão mais velho, que era funcionário público.

Na Universidade de Brasília, no curso de arte cênicas, criou uma companhia de teatro negro, a Cia de Arte Negra Cabeça Feita, e escreveu as próprias peças para protagonizar o papel da mulher negra na sociedade. "Faz 20 anos que escrevi e as coisas não mudaram. Pelo contrário, estão mais urgentes porque não estamos conversando sobre isso, nossa situação é jogar debaixo do tapete, até o ponto de explodir. Precisamos dizer eu também tenho o direito de estar aqui", comenta.

Nos últimos anos, ela escreveu e publicou de forma independente poemas e contos que falam sobre amor, maternidade, o empoderamento feminino, o cabelo e a beleza da mulher negra, do cotidiano à luta que as mulheres passam todos os dias. Além de Não vou mas lavar os pratos, tem publicado Terra Negra, Tapete Voador, Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção e Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, ela agora se prepara para escrever o primeiro romance e publicar um livro infantil junto com a filha Ayana, de apenas 7 anos.

A realidade é essa, qual mulher hoje em dia não sofreu algum tipo de abuso?

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Nos últimos anos, ela escreveu e publicou de forma independente poemas e contos que falam desde o quotidiano até as lutas mais significativas do movimento feminista.

Cristiane Sobral queria tanto ver sua própria representação das mulheres na literatura brasileira que precisava escrevê-las. "Temos Gabriela, Iracema, Capitu, mulheres muito erotizadas dentro de uma visão machista e patriarcal. A gente não é a mulher que o Chico Buarque inventou. E a gente não dá conta de existir dentro dessa construção. A gente fica sem saber que mulher a gente pode ser", diz. Onde estavam então as mulheres reais, com as suas dores, prazeres e lutas? Era preciso trazê-las à tona. "O que é uma mulher de 40 e 60 anos hoje em dia? Antigamente ela era uma velha senhora, hoje ela tem desejos e descobrindo o afeto que elas não tinham. Onde estão as mulheres escritas por mulheres?"

Para a escritora, é ainda mais difícil para as mulheres negras. Ela explica: "É muito dolorido porque estamos construídas na violência do estupro, da escravidão, de não cuidar dos próprios filhos, de não ter o cabelo dela, de ver os filhos assassinados pela polícia. Quando a gente fala de Marielle Franco, por exemplo, que estava ali ocupando um espaço que os outros consideravam que não era dela. É muito difícil, até dar conta de um processo criativo dentro de uma sociedade machista e preconceituosa".

Recentemente, a escritora sofreu um ataque dentro de um ônibus, quando um homem começou a se masturbar do lado dela -- um episódio que ela ainda precisa superar. "Qual história você vê de uma mulher que entra no ônibus, abaixa a calcinha e começa a se masturbar? Estamos distantes, são mundos diferentes", aponta. "E ainda existem pessoas que acham que abusos têm outras qualificações, que existem partes do nosso corpo que podem ter mais dor ou menos. Qualquer invasão é uma violência. E quando somos mulheres incide o fato de que nossa sexualidade vai sofrer com isso, a gente vai se olhar através do abuso", completa.

A gente precisa ser muito criativo. É muita vontade de viver.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu não fui tentar ser outro, eu fui ser eu mesma."

Ela tem orgulho de sua trajetória e, além escrever, participa de debates, feiras e visitas em escolas e trabalha como professora. Além de estar sempre no teatro, claro. "Eu gosto de falar nas escolas. Quando eu estudava, eu era a feia, que sofria bullying, agora eu entro pra trazer uma referência. Eu não fui tentar ser outro, eu fui ser eu mesma. Vai ter um espaço nesse mundo para eu entrar, para eu me colocar como escritora de literatura brasileira que não pode ser propagada só como branca. As pessoas querem ser representadas. A resistência não é contar as suas mazelas. Viemos pra dizer que somos competentes, somos capazes, tudo que temos aqui foi a gente construiu".

Nos próximos dez anos, ela sonha em viver profissionalmente do teatro e da literatura. "Quero estar viva, quero ser foda. Ainda tenho muita coisa para aprender. Quero atingir um público maior porque não escrevo só para negros. Quero ser uma mulher de terreiro que não tenha que esconder sobre isso ou não. Quero ler e escrever muitos livros".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.