POLÍTICA
11/07/2018 08:30 -03 | Atualizado 11/07/2018 14:28 -03

PT ganha fôlego com disputa sobre Lula e lança estratégia para mobilizar militância

Disputa judicial é vista como oportunidade para alavancar apoio a Lula, e partido prepara série de atos pelo Brasil.

O ex-presidente Lula e a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann.
Nacho Doce/Reuters
O ex-presidente Lula e a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann.

A guerra judicial iniciada no fim de semana em torno da libertação de Luiz Inácio Lula da Silva renovou o ânimo da militância e dos caciques petistas, que enxergam no episódio uma oportunidade de levar adiante, e com mais força, a tese de que o ex-presidente é preso político.

No domingo (8), o desembargador Rogério Favreto, plantonista do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), acolheu um pedido de habeas corpus apresentado por deputados do PT e deu ordem para que Lula fosse solto. Após idas e vindas da Justiça, o petista continua na prisão. Naquele dia, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e os arredores da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula está preso, foram tomados pela militância.

Novos atos já são convocados pelo PT em todo o País, com início nesta sexta-feira (13).

No próximo dia 18, data em que Nelson Mandela completaria 100 anos, o partido promete fazer em Curitiba um protesto para marcar os 100 dias de prisão do petista. Ícone da luta contra o apartheid na África do Sul, Mandela foi preso político e, após 27 anos no cárcere, foi eleito presidente e governou o país de 1994 a 1999.

Também faz parte da estratégia do partido para as eleições 2018 o lançamento de um programa com 13 pontos, que está sendo elaborado pelo ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro Fernando Haddad, coordenador do plano de governo petista.

"É uma campanha de mobilização. Faremos também o encontro nacional do PT para a escolha de Lula [como candidato] no dia 4 de agosto e uma marcha para Brasília para o registro da candidatura, no dia 15", disse o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP).

Geraldo Bubniak/Reuters
Expectativa com liberdade para Lula reacendeu a militância do PT em Curitiba, no domingo (8).

A Lei da Ficha Limpa barra a candidatura de condenados em segunda instância, e Lula responde por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex em Guarujá (SP), com condenação já confirmada pelo TRF-4.

Ao insistir na candidatura de Lula, o PT aposta que pode reverter ou suspender a inelegibilidade.

Mesmo preso, o ex-presidente pode inscrever sua candidatura na Justiça Eleitoral até o dia 15 de agosto, como qualquer candidato. Após a inscrição, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) poderá aprovar ou não o registro.

Se a candidatura for negada, restará a Lula uma última alternativa para disputar as eleições: recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) na tentativa de conseguir uma liminar. Há um artigo da Lei da Ficha Limpa que prevê a suspensão da inelegibilidade e, nesse caso, a ação seria distribuída por sorteio a um dos ministros do Supremo.

"Não aceitaremos que submetam a candidatura [de Lula] a situações diferentes do que até agora a Justiça Eleitoral e o STF realizaram. Não vamos aceitar mais violência contra Lula", disse na segunda-feira (9) a presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, em entrevista na sede do partido em São Paulo.

Miguel Schincariol/AFP/Getty Images
Militantes se reúnem em São Bernardo do Campo para manifestar apoio a Lula, no domingo (8).

O presidente do TSE, ministro Luiz Fux, já sinalizou que o tribunal poderia rever a possibilidade de um político ficha suja usar a liminar para registrar a candidatura.

O PT, contudo, briga para que Lula não seja impedido de disputar as eleições e promete levar a questão até as últimas consequências.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, os advogados do petista fizeram um levantamento dos candidatos que concorreram com registro indeferido nas eleições de 2016 e concluíram que, de 145 eleitos nessa condição, 70% conseguiram reverter a decisão após o pleito e tomaram posse.

Com esses números, a defesa argumenta que, encerrada a eleição, a maioria dos indeferimentos se mostrou equivocada.

Plano B

O PT também deve explorar a narrativa de que Lula é vítima de perseguição para tentar transformar a guerra judicial dos últimos dias em vantagem nas pesquisas de intenção de voto. Levantamentos realizados até agora pelos institutos Ibope e Datafolha mostram o ex-presidente como líder na disputa ao Planalto, mesmo preso.

O cálculo é que esse eventual ganho político pode ser transferido, nas vésperas da eleição, a um nome indicado por Lula para substituí-lo na disputa. Embora o registro das candidaturas deva ser feito até 15 de agosto, as siglas podem substituir seus candidatos até 20 dias antes da votação (17 de setembro), quando as urnas são lacradas.

Oficialmente, o PT não admite a existência de um plano B, mas nos bastidores a legenda discute os nomes do ex-governador da Bahia Jaques Wagner e do ex-ministro Celso Amorim, além de Fernando Haddad.

"Esse fato não existe. Vamos registrar Lula. Como eu disse, nós avaliamos que Lula é o único com capacidade de conduzir o País a uma pacificação, ao reencontro. É o único capaz de voltar a uma pauta de crescimento com inclusão popular", reiterou Gleisi na segunda-feira.

Foi essa mensagem que também tentaram passar os emissários de Lula nesta terça (10), com a publicação de um "recado" do ex-presidente em seu site oficial: "Podem ter certeza, vou ser candidato para, entre outras coisas, recuperar a soberania do povo brasileiro".