COMPORTAMENTO
10/07/2018 14:55 -03 | Atualizado 10/07/2018 15:12 -03

Como ensinar o seu filho a desenvolver empatia diariamente

Como pai, esta é uma habilidade que você pode ajudar a cultivar.

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Polarização, notícias negativas e discurso agressivo estão tomando conta do noticiário, e muita gente se pergunta o que aconteceu com a empatia e a gentileza.

Isso leva muitos pais a questionar como criar seus filhos para que eles sejam carinhosos e amorosos diante do ódio e do amargor cada vez mais presentes em nosso dia-a-dia.

O HuffPost conversou com psicólogos, pais e outros especialistas para saber como ensinar empatia para as crianças.

Converse sobre sentimentos

"O essencial é a 'alfabetização emocional'", diz Michele Borba, psicóloga e autora de vários livros a respeito de educação.

Uma das maneiras mais eficazes de fazê-lo é priorizar as conversas cara-a-cara, numa época em que as comunicações acontecem cada vez mais pelo celular. "As crianças não estão aprendendo sobre emoções quando veem um emoji", diz Borba. "Estabeleça a regra de que a criança tem sempre de olhar para a cor dos olhos da pessoa com quem estiver falando, pois isso vai ajudá-la a estar em sintonia com o outro."

Outro aspecto chave é ensinar os filhos a identificar suas próprias emoções desde cedo. "Use linguagem emocional com as crianças. Diga coisas como 'estou vendo que você está frustrado' ou 'sei que você ficou bravo'", diz Laura Dell, professora assistente da School of Education da Universidade de Cincinnati.

"As crianças precisam aprender a processar seus próprios sentimentos antes de identificar e demonstrar empatia pelos sentimentos dos outros", continua Dell. "Quando elas forem capazes disso, vão desenvolver a habilidade de controlar suas próprias emoções – e aí estarão prontas para dar o passo seguinte, que é entender as emoções alheias."

Ravi Rao, neurocirurgião pediátrico que virou apresentador de um programa para crianças, diz que ensinar emoções é tão importante quanto ensinar cores e números.

"Você vê pais brincando com os filhos no parque e perguntando: 'Que cor é o casaco daquele homem?' e 'Que cor é o ônibus', ou 'Quantas árvores tem ali'", afirma Rao. "Você também pode ensinar emoções, perguntando por exemplo: 'Está vendo aquela mulher? Ela está triste ou está feliz?'"

Rao também recomenda brincar de "Adivinha o que estou sentindo?", fazendo cara de alegria ou de tristeza e pedindo que as crianças identifiquem as emoções. "Você treina o cérebro a reparar nos sinais passados pelo rosto das pessoas.

Quando as crianças já têm uma certa noção das emoções, você pode perguntar sobre a perspectiva emocional dos outros. "'Como você acha que seu amigo se sentiu quando você pegou o brinquedo dele?' ou então 'Mamãe ficou muito triste quando você bateu em mim'", afirma Borba.

Use a mídia a seu favor

Assistir TV ou ler livros juntos é outra oportunidade para cultivar a empatia, diz Madeleine Sherak, autora de Superheroes Club (clube dos super-heróis, em tradução livre), um livro sobre a importância da gentileza.

"Converse sobre personagens gentis e empáticos. Igualmente, fale sobre personagens maldosos", sugere ela. "Uma ideia é discutir os sentimentos dos personagens e como as situações poderiam ter sido diferentes se todo mundo se tratasse com gentileza."

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Discussing books, movies and TV shows together is a great way to cultivate empathy.

Borba recomenda filmes e livros com alto conteúdo emocional, como a série Harry Potter e "O Sol é Para Todos".

Dê o exemplo

Os pais também têm de mostrar empatia, diz Rao.

"As crianças percebem o que você faz. Você pode dizer 'Preste atenção no sentimento dos outros', mas se ela perceber que você não faz o que diz, não vai funcionar", explica ele.

Rao reforça a importância de usar a linguagem para demonstrar os sentimentos, dizendo coisas como "Hoje estou muito frustrado" ou "Estou muito decepcionado".

Os pais também precisam aprender a reconhecer e respeitar as emoções dos filhos, diz Dell.

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Parents need to model empathy as well.

"Para que nossos filhos tenham empatia por nós e pelos outros, temos de mostrar empatia por eles", explica ela. "É claro que não é fácil quando seus filhos estão naquela confusão, se arrumando para ir para a escola. Mas às vezes vale a pena dar um tempo e dizer: 'Sei que você está triste porque não vai ver o desenho até o final, mas temos de ir para a escola, e é importante chegar na hora."

"Isso não significa sempre ceder à vontade dos filhos, mas sim mostrar que você entende os sentimentos deles em determinadas situações", acrescenta ela.

Reconheça quando seus filhos são gentis

"Os pais sempre elogiam os filhos quando eles tiram notas boas ou vão bem na prova. Você pode ajudá-los a aprender empatia reconhecendo quando eles são gentis", diz Borba. Ela observa que, quando as crianças demonstram bondade para com os outros, é importante mostrar você percebeu e elogiá-las."

"Diga: 'Que legal que você parou para ajudar aquele menino. Você viu como ele ficou contente?'", afirma Borba. "Assim, seu filho vai perceber que é importante ser gentil e atencioso."

Exponha as crianças a diferenças

"Os pais têm de ajudar as crianças a crescer e prosperar em uma sociedade diversa. Isso se faz com educação e exposição a pessoas diferentes, seja em termos de cultura, religião, etnia, aparência física ou deficiências", diz Sherak.

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Take advantage of opportunities for exposing your children to diversity in your community.

Existem muitas maneiras de expor seus filhos à enorme diversidade do mundo – lendo, assistindo filmes e programas de TV, comendo comidas de outros países, visitando museus, fazendo trabalho voluntário e participando de eventos.

"Também é importante conversar e responder eventuais perguntas que surjam depois desse tipo de experiência", diz Sherak. "É importante discutir as diferenças no contexto do ambiente da criança e de suas experiências na família, na escola, no bairro."

Os pais também podem pedir que as escolas ajudem na conscientização cultural por meio do currículo, afirma Rao.

"Dentro de casa, temos de acabar com piadas sobre raça e cultura", diz ele. "Talvez antigamente as piadas racistas parecessem aceitáveis. Mas as crianças não podem aprender sobre raças ou grupos de pessoas com piadas maldosas. Depois, pode ser difícil superar essas ideias com mensagens positivas."

Admita seus erros

"Se você for grosseiro com um funcionário de uma loja, por exemplo, deixe claro para os filhos que errou", afirma Dell. Os pais podem dizer algo como "Uau, ele estava super ocupado, a loja estava cheia. Eu deveria ter sido mais gentil".

Quando seus filhos testemunham esse tipo de comportamento, é importante admitir o erro e falar do assunto com eles. "A criança está assistindo tudo, prestando atenção em tudo", explica Dell. "Mostre que poderia ter agido de maneira diferente, que poderia ter sido mais gentil."

Faça da gentileza uma atividade da família

Pequenas rotinas familiares podem ajudar. Uma ideia é conversar sobre o que cada um fez de bom durante o dia. Borba também sugere fazer trabalho voluntário com toda a família.

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Volunteering is another great way to promote empathy.

"Se seu filho é apaixonado por esportes, colocá-lo para ajudar uma criança carente em aulas de artes não é a melhor ideia, mas talvez você possa encontrar outras oportunidades que sejam do interesse dele", explica ela.

Outra sugestão é que as famílias escrevam sua missão, diz Thomas Lickona, psicólogo e autor de How to Raise Kind Kids: And Get Respect, Gratitude, and a Happier Family in the Bargain (em tradução livre: como crias crianças mais gentis e obter respeito, gratidão e uma família mais feliz em troca).

"É um conjunto de declarações começando com 'Nós', expressando os valores e virtudes com os quais a família está comprometida. Por exemplo: 'Nós mostramos gentileza com palavras e ações gentis'; 'Nós pedimos desculpas quando magoamos alguém'; 'Nós perdoamos e fazemos as pazes quando brigamos'", explica ele.

Lickona também recomenda que todos da família sejam responsáveis por fazer valer esses valores. Reuniões semanais podem discutir como cada um os vem aplicando em suas vidas.

Outro conselho de Lickona: olhe à sua volta.

"Até mesmo na cultura cheia de raiva e violência em que vivemos hoje, os atos de gentileza estão por toda parte. Temos de apontá-los para as crianças", diz ele. "Temos de explicar para elas como esses pequenos gestos, por menores que sejam – como segurar a porta para o outro, ou não se esquecer de dizer obrigado – têm impacto na qualidade de vida que compartilhamos."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.