COMIDA
09/07/2018 14:22 -03 | Atualizado 09/07/2018 14:25 -03

A carne do futuro chegou. E ela não é feita de animais

As empresas Impossible Foods e Beyond Meat podem ajudar a reduzir o consumo de carne animal. Até as hamburguerias concordam.

Isabella Carapella/HuffPost

O hambúrguer tem alguma coisa que mexe lá no fundo da sua cabeça. As primeiras notas daquele cheiro de carne na chapa deixam clara sua prioridade imediata: achar a carne.

Por que os hambúrgueres nos enlouquecem? Talvez seja algum tipo de programação ancestral de milhares de anos, quando o homem começou a assar carnes sobre o fogo.

Pessoalmente, agora que tenho mais de 30 anos, me pergunto: "Frankie, tem certeza que quer comer isso?"

Tenho razões para evitar (às vezes) uma das minhas comidas prediletas.

A primeira é bem simples: às vezes não me sinto muito bem depois de comer um hambúrguer. Fico estufado e me sinto devagar, o que, convenhamos, é uma troca justa quando considero uma bomba de carne quente, sangrenta e cheia de sabor.

A segunda razão é minha saúde. Carne faz parte da dieta básica do americano, e a expectativa é que o consumo bata recordes neste ano. O americano médio come mais de 100 quilos de carne por ano, poluindo as artérias e também o meio ambiente. Ou seja, é insustentável.

Devo observar, entretanto, que abrir mão da carne nem sempre significa uma vida mais "saudável". Embora 6% da população americana se identifique como vegana – era apenas 1% em 2014 --, isso não parece ter influenciado o problema da obesidade nos EUA.

O terceiro motivo para me abster da carne é o bem-estar dos animais. É difícil esquecer que, se você quisesse comer carne cem anos atrás, teria de matar o animal. Hoje em dia, o sentimento de culpa está muito distante do consumo.

Como satisfazer esse desejo de hambúrguer carregando esse peso nos ombros? A ignorância pode ser uma dádiva, mas idealmente encontramos uma solução melhor.

Apresentando a "fake meat"

A "fake meat", ou carne falsa, pode ser a resposta. Há duas empresas encabeçando esse movimento que gosto de chamar de "comida do futuro": Impossible Foods e Beyond Meat.

O produto da Impossible (impossível, em inglês) é servido exclusivamente em restaurantes e tem a fama de ter um sabor muito parecido com o da carne de verdade. Ele ficou famoso quando apareceu no cardápio de um novo restaurante do chef americano David Chang, o Momofuku Nishiki, em Nova York. Fiquei embasbacado com o aroma convincente e o "sangue" que escorria pelas minhas mãos. Hoje, o hambúrguer da Impossible é servido em 1 200 restaurantes nos Estados Unidos.

A Beyond Meat também tenta imitar carne de verdade, embora o resultado seja um pouco menos convincente. A empresa começou vendendo seus produtos em supermercados como o Whole Foods, junto da carne de verdade, o que desagradou a indústria da carne. Hoje a marca também distribui seus produtos para restaurantes.

Juntas, a Impossible Foods e a Beyond Meat já conseguiram quase 500 milhões de dólares em investimentos, com o objetivo de crescer as operações.

Mas falando sério. Do que é feito esse negócio?

Imagine um hambúrguer vegano que tenha cheiro e sangue, igualzinho ao hambúrguer tradicional. Não é cheio de grãos e sementes, não tem feijão, não lembra em nada aquelas antigas opções vegetarianas do passado. Só que os produtos da Impossible e da Beyond Meat são inteiramente feitos de plantas.

O principal ingrediente do Beyond Burger é proteína de ervilhas, com adição de extrato de suco de beterraba para dar cor.

O ingrediente secreto do Impossible Burger, que é o mais convincente, é um composto chamado "heme", que carrega o oxigênio no sangue dos seres vivos. É isso o que faz a carne ter gosto de carne. A equipe da Impossible descobriu um jeito de produzir heme usando plantas e um processo secreto de fermentação.

Um representante da Impossible Burger disse ao HuffPost via e-mail que o heme criado pela empresa é "idêntico ao heme que os humanos vêm consumindo na carne há centenas de milhares de anos. Ele tem a mesma [profundidade] de sabor da carne, mas usa muito menos recursos [naturais]".

Qual é o impacto ambiental da 'fake meat'?

Esses hambúrgueres são melhores para a gente e para o planeta. O Impossible usa 75% menos água, gera 87% menos gases causadores de efeito estufa e exige um-vigésimo das terras necessárias para produzir um hambúrguer tradicional.

Mesmo que você não seja matemático, uma continha simples mostra que, se a Impossible conseguir atingir uma determinada escala, em teoria seus hambúrgueres custariam um décimo do concorrente tradicional. Se a carne de mentira realmente pegar, as redes de fast food serão praticamente forçadas as servir esse novo tipo de produto.

O site da Beyond Meat afirma que a missão da empresa inclui "ter impacto positivo na mudança climática, preservar os recursos naturais e respeitar o bem-estar dos animais".

Onde encontro esses hambúrgueres?

Vários restaurantes nos Estados Unidos, até mesmo o Saxon & Parole, de Nova York, dono de uma estrela Michelin, oferecem Impossible Burgers em seus cardápios.

A maior rede de fast food a servir o produto é a White Castle, uma das mais antigas redes de lanchonetes dos Estados Unidos. O "The Impossible Slider" está disponível em 140 unidades da rede.

Jamie Richardson, vice-presidente da White Castle, explicou ao HuffPost que a rede decidiu experimentar o Impossible Burger porque os clientes vinham pedindo mais opções vegetarianas. Há 2 anos, a empresa começou a servir hambúrgueres vegetarianos da marca Dr. Praeger.

"A Impossible parecia o próximo passo", disse Richardson. "Além disso, é um ótimo negócio para nossos clientes. Nosso Impossible Slider custa 1,99 dólar. Achamos que todo mundo deveria poder experimentar algo novo, e ninguém oferece esse produto a esse preço. Foi um golaço desde o começo."

Embora a White Castle praticamente tenha inventado o negócio das redes de hamburguerias fast food em 1921 (e a empresa também criou o slider, um mini-hambúrguer), também é interessante considerar o que significaria um futuro sem carne. As empresas sempre buscam reduzir custos e aumentar a eficiência, e servir produtos como o Impossible Burger tem o potencial de transformar toda a cadeia de suprimentos da carne.

A empresa diz que sua missão é "transformar o sistema de alimentação global para sustentar o planeta e uma população crescente. Nosso objetivo é substituir os animais como tecnologia de produção de alimentos até 2035. Queremos que o Impossible Burger custe menos que a carne de vaca assim que possível, mas será necessário obter escala para que isso aconteça".

Também vai ser necessário um produto melhor que a concorrência.

O sabor do sucesso

Você precisa experimentar. Para mim, as "carnes" da Impossible e da Beyond Meat têm sabor muito melhor que alguns hambúrgueres de baixa qualidade. Eles são provavelmente melhores que 80% dos hambúrgueres que eu comi na vida.

Mas o Impossible não satisfaz como hambúrgueres muito bons, como os dos restaurantes americanos J.G. Melon e Shake Shack. As duas empresas sabem disso e continuam desenvolvendo seus produtos para que eles possam concorrer de fato com a carne tradicional.

A Impossible nos diz que, num teste cego realizado em 2012, somente 6% dos participantes preferiram a carne de mentira. No mais recente, entretanto, a Impossible ficou com 48% das preferências.

O gráfico está apontando na direção de uma virada. Eu investiria na empresa, se eles deixassem. Bill Gates já investiu.

E a indústria da carne?

O que vai acontecer com a indústria da pecuária? A White Castle acredita numa mistura de carnes e opções vegetarianas. A Impossible afirma que o futuro será inteiramente baseado em plantas. A verdade pode estar no meio do caminho.

O sabor é a fronteira final. Um hambúrguer do J.G. Melon ainda é mais gostoso que o do Impossible Burger, mas a maioria dos hambúrgueres de verdade que eu comi até hoje não tinham tanto sabor – e é por isso que você deveria dar uma chance a essas opções inovadoras.

Empresas Impossible e Beyond Meats podem nos ajudar a reduzir o consumo de carne em um mundo superpopulado – em quem sabe você não descobre uma nova e deliciosa paixão?

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.