09/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 09/07/2018 12:10 -03

Cristina Godói: A médica que enxergou na educação outra possibilidade de salvar vidas

Com consultório montado, ela escolheu mudar totalmente de carreira após passar um mês trabalhando na escola da família: "Dá para construir mais, impactar mais os meninos e ajudar de uma forma mais próxima."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Cristina Godói é a 124ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

É um som que ela conhece bem. Aquele conjunto de vozes agudas que ecoa nos corredores e no pátio. Não é exatamente uma conversa. Não se trata de um barulho. Mas é assim que soa entrar em uma escola. Dá pra ter certeza de onde estamos. Cristina Godói, 42 anos, está muito acostumada com esse ambiente e todos os ruídos que vem com ele. Há cerca de 15 anos, largou o ambiente bem mais silencioso do seu consultório de psiquiatria, montado em São Paulo, para transitar entre crianças e adolescentes. Um caminho sem volta. "Vi uma oportunidade de impactar mais gente, ter uma relação mais direta tanto na empregabilidade das pessoas quanto na educação das crianças, enquanto na medicina eu tinha uma atuação mais limitada."

Cristina se formou médica, como escolheu. Entrou na Santa Casa e virou psiquiatra. A motivação era idealista. "Teve muito a ver com desejo de fazer alguma diferença, de poder contribuir com alguma coisa de positivo para o mundo." Porém, durante um mês de férias, ela resolveu passar seus dias livres na escola que seu pai havia criado em 1993. O idealismo continuava presente ali.

Vi uma oportunidade de impactar mais gente, enquanto na medicina eu tinha uma atuação mais limitada.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A ideia era apenas ajudar a implantar um projeto de estudo de línguas na escola, mas se transformou em muito mais.

Sempre acompanhou a trajetória do pai e dos negócios da família, mas como algo um pouco mais distante e que não fazia exatamente parte do sonho dela. O sonho sempre foi de seu pai, que chegou a São Paulo para trabalhar como pedreiro, conseguiu entrar no ramo da construção civil, mas queria mesmo era abrir uma escolinha – que acabou nascendo bem maior e virou um grupo com três colégios. "Vim passar um mês na escola, me inteirar um pouco mais e não sai mais daqui. Nesse mês eu fiquei 'meu Deus, como vou resolver a minha psiquiatria? Como vou conciliar? Porque daqui eu não quero mais sair."

A ideia era apenas ajudar a implantar um projeto de estudo de línguas na escola. Mas quando se deu conta, estava mesmo querendo mudar de carreira. Resolveu estudar para conseguir contribuir com as escolas e logo percebeu que a medicina já tinha ficado em outro lugar em sua vida. Tentou levar as duas atividades por um tempo, mas como ela bem sabe não são exatamente trabalhos de meio período. "Foi muito natural [mudar], foi uma coisa que realmente foi acontecendo. A gente sabe que é bastante normal migrar de carreira ao longo da vida, mas na medicina esse número é muito baixo. Ninguém abandona medicina. Meus colegas falavam: 'Cris, o que você está fazendo?'"

Nesse mês eu fiquei 'meu Deus, como vou resolver a minha psiquiatria? Porque daqui eu não quero mais sair'.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Ninguém abandona medicina. Meus colegas falavam: 'Cris, o que você está fazendo?'."

Mas do lado da família a reação foi um pouco diferente. Ela brinca que acha que só com ela foi assim. Quando disse que queria fazer medicina os pais quase lamentaram. "ah não, filha. Tem tanta coisa para você fazer", disseram. Realmente tinha muita coisa. "Quando decidi largar [a medicina] eu falava que eu não tinha culpa, eu gostei de duas coisas na vida, não estou deixando porque não funcionou, porque tenho uma frustração, não é isso. Estava com uma oportunidade que estava amando e tenho que me entregar pra isso, então foi assim que aconteceu. Não teve gosto amargo."

Hoje ela comanda – com doçura – os três colégios em São Paulo – Albert Sabin, Vital Brazil e a escola infantil AB Sabin. Ao todo são mais de 500 funcionários e 4.300 alunos. Algo notável para um negócio que começou há 25 anos por causa de um sonho de criança. "Meu pai tinha um sonho de infância de ter uma escola, que era pra ser pequena. Ele criou do zero". Hoje, o fundador ainda passa por lá para curtir um pouco. "Ele vem todos os dias, fica duas, três horas aqui com a gente, desce para o almoço as crianças vem, abraçam ele. Ele virou meio o papai Noel da escola e é muito legal."

Quando decidi largar [a medicina] eu falava que eu não tinha culpa, eu gostei de duas coisas na vida, não estou deixando porque não funcionou, porque tenho uma frustração, não é isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje ela comanda - com doçura - os três colégios em São Paulo - Albert Sabin, Vital Brazil e a escola infantil AB Sabin.

Mesmo longe da gestão, não tem como ficar muito longe da escola. Coisa de quem está acostumado com o negócio. Como ela. Gosta de passar pelos corredores e ir falando o que mudou por ali, de mostrar, orgulhosa, os espaços novos, comentar sobre a produção e o trabalho dos alunos. "Essas letras de madeira eles que estão fazendo. Muito legal, né?", diz com olhos atentos à sala de atividade, com aquela visão de quem está dando uma conferida em tudo. Parece que não tem jeito mesmo. "Escola você entra e é difícil ficar em um cantinho. É muito intenso, muito vínculo." Tanto que divide seu tempo hoje nas três escolas. Sabe que a operação ocorre normalmente sem ela, mas não vai perder essa oportunidade. "É importante que eu esteja presente para entender senão a gente perde a percepção do que precisa. Fora que é um grande prazer."

E isso é algo unânime em todo mundo que trabalha com educação. Começa com aquele idealismo mesmo, com um sonho de criança e se transforma em um dia a dia cheio de prazer. "Eu sou uma grande apaixonada pela educação desde sempre. Gostava de estudar por estudar. A escola não é só o que vai usar no trabalho, é a paixão pelo que você aprende, por desenvolver raciocínio e isso é fundamental."

Me sinto muito realizada aqui e acho que ainda tem muita coisa para fazer, dá para construir mais, impactar mais os meninos e ajudar de uma forma mais próxima.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ao trocar o consultório pela sala de aula, Cristina se encontrou profissionalmente -- e encontrou um novo propósito.

É o que procura incentivar nas escolas que dirige. Tanto que para comemorar os 25 anos do colégio, foi criado um prêmio para que os alunos desenvolvam ações para resolver problemas de forma que gere algum impacto na comunidade. Até agora já foram mais de 200 projetos inscritos. "A ideia é que eles possam ter uma experiência de 'eu consigo fazer a mudança que eu quero'. A pegada é que as crianças experimentem isso de identificar um problema no mundo e pensar que está nas mãos deles a capacidade de fazer aquilo diferente, mesmo que seja um pequeno passo, um pequeno impacto, um grãozinho de areia pra ele se sentirem protagonistas do mundo que eles vão viver no futuro."

Assim segue tranquila e totalmente em paz com a sua escolha pouco peculiar, digamos. "Me sinto muito realizada aqui e acho que ainda tem muita coisa para fazer, dá para construir mais, impactar mais os alunos e ajudar de uma forma mais próxima."

Talvez seja uma outra forma de salvar vidas. E é isso que ela sempre quis fazer.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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