ENTRETENIMENTO
07/07/2018 13:12 -03 | Atualizado 07/07/2018 13:25 -03

'Pose', uma série de TV que celebra histórias que o resto do mundo ignora

Com o maior elenco trans da história, nova produção de Ryan Murphy deve estrear no Brasil neste segundo semestre de 2018.

Illustration: Gabriela Landazuri Saltos/ Huff Post Photo: FX

No início de junho a FX Network lançou Pose, uma série ambientada nos anos 1980 que trata da vida na comunidade LGBTQ+ em Nova York. Pose mergulha na chamada cultura "ball" – uma subcultura LGBTQ+ que abrange redes sociais conhecidas como "houses", ou "casas". As houses funcionam como espaços protegidos seguros para seus membros que são rejeitados pela sociedade e como famílias adotivas para pessoas que foram expulsas por suas famílias de origem.

No mundo dos balls, os membros das houses competem ("walking") entre si, "voguing" (uma dança) em diferentes categorias de performance, usando figurinos diversos. Os balls geralmente são reservados às pessoas que fazem parte desse mundo e são promovidos em locais discretos. Segundo Blanca, uma personagem da série, a cultura dos balls é "uma celebração de uma vida que pessoas no resto do mundo não acham que seja digna de ser festejada".

Pose traz o maior elenco de atores que se identificam como transgêneros que já apareceu em uma série que não seja reality e que, além disso, são em sua grande maioria pessoas negras. Esse nível de representação é um marco importante, especialmente para a televisão americana. E chama a atenção para uma contradição: ao mesmo tempo em que a representação de pessoas LGBTQ+ na mídia parece estar mudando, em muitos casos para melhor, a realidade fora das telas é dura e brutal demais para ser encarada por muitos.

O primeiro episódio de Pose apresentou Blanca e Angel aos espectadores e mostrou as diversas maneiras pelas quais pessoas LGBTQ+ negras encaram e lidam com a marginalização e a injustiça. As experiências de Angela na procura de trabalho e de amor são sintomáticas dos muitos desafios enfrentados pelas mulheres trans negras. Embora sua situação seja fictícia, os efeitos somados de várias identidades marginalizadas é muito real, infelizmente.

A sociedade frequentemente vincula identidade LGBTQ+ com criminalidade, sem base nos fatos.

As pessoas não brancas que se identificam como LGBTQ+ enfrentam disparidades incríveis em todos os aspectos de suas vidas, e a maior marginalização de todas é a das mulheres trans negras. Por exemplo, a probabilidade de mulheres trans negras terem abandonado o colégio por serem maltratadas por sua condição é duas vezes maior que a das mulheres trans brancas. As mulheres trans negras têm cinco vezes mais chances de interagir com a polícia, que frequentemente pressupõe que elas sejam profissionais do sexo..

A sociedade frequentemente vincula identidade LGBTQ+ com criminalidade, sem base nos fatos. As mulheres trans, especialmente as negras, muitas vezes são tratadas como criminosas simplesmente em função de sua identidade, e as maiores culpadas disso com frequência são as próprias organizações que supostamente deveriam proteger e servir a elas.

A U.S. Transgender Survey, a maior pesquisa realizada sobre a vida de americanos transgêneros, revelou que mais de metade dos entrevistados tinha sido vítima de tratamento incorreto ou maus-tratos por representantes da Justiça ou da polícia em uma ou mais ocasiões. Em 2011, o Departamento de Justiça dos EUA constatou que o Departamento de Polícia de Nova Orleans molestou habitantes LGBTQ+ da cidade e os converteu injustamente em alvos de revistas e prisões. Em 2014 vieram à tona receios semelhantes sobre o assédio de pessoas transgênero cometidos pela polícia de Newark e o modo como ela equivocadamente vinculava a identidade transgênero com prostituição. Os departamentos de polícia das duas cidades hoje são alvos de decretos que visam promover reformas amplas e de longo prazo. Ainda é cedo para saber se houve melhorias, e, se sim, quais foram.

É muito comum que se pressuponha que pessoas que se identificam como transgênero sejam criminosas, mas o mais frequente é que elas próprias sejam vítimas de crimes violentos. Entre 2010 e março de 2018, 142 casos conhecidos de violência fatal contra transgêneros foram denunciados, e estatísticas do FBI revelam que 48% dos crimes de ódio são motivados por raça, orientação sexual ou identidade de gênero. Mas esses números provavelmente são muito inferiores aos números reais, já que a mídia e os órgãos do Estado regularmente erram ao citar o gênero de vítimas de crimes. Através dessa prática, a vitimação das pessoas transgênero é reiterada na morte, enquanto as autoridades literalmente deletam identidades trans.

As mulheres trans são criminalizadas mesmo quando atuam em defesa própria. Em 2011, quando CeCe McDonald, uma mulher trans negra, passou diante de um bar no Minnesota com suas amigas, elas foram agredidas verbal e fisicamente. Assediada com palavras de ódio e cortada no rosto com um copo de vidro, CeCe se afastou. Um dos agressores correu atrás dela, e então ela se defendeu. O agressor morreu. CeCe foi presa, fechou um acordo com os tribunais para reduzir sua sentença e foi sentenciada a 41 meses de detenção numa penitenciária masculina.

Andrew Toth via Getty Images

O caso dela não é o único. Na Flórida, a srta. Campbell foi acusada de homicídio; Davia Spain foi presa em San Francisco; no Illinois, Eisha Love passou quatro anos detida num presídio masculino sem ter sido julgada. Todas foram punidas por terem se protegido contra agressores. O sistema de justiça criminal abandonou essas mulheres e incontáveis outras que foram criminalizadas simplesmente por sua identidade.

As discussões sobre injustiça frequentemente giram em torno de responsabilidade individual, e fala-se em "maçãs podres" ("uma maçã podre no meio das boas") e decisões "equivocadas". O que permite que a injustiça continue a grassar não são algumas poucas maçãs podres, mas os sistemas (as políticas públicas, as práticas e as ações e inações de organizações) que fazem vista grossa para a desumanização de grupos inteiros de pessoas.

Quando produtores de televisão criam programas de TV sobre comunidades que não são as suas, eles muitas vezes aprendem muito sobre a experiência e a realidade daqueles que procuram retratar na tela. Ryan Murphy, o criador de Pose (e de Glee, American Crime Story, Feud, Nip/Tuck) chamou Janet Mock – ícone LGBTQ+ e criadora de #GirlsLikeUs – para participar da equipe de roteiristas e produtores da série, demonstrando com isso que está comprometido com a voz, a experiência e a inclusão.

Talvez os órgãos governamentais devessem seguir a deixa de Hollywood e aprender mais sobre a realidade concreta das pessoas das comunidades às quais eles servem.

Talvez os órgãos governamentais devessem seguir a deixa de Hollywood e aprender mais sobre a realidade concreta das pessoas das comunidades às quais eles servem. Ouvir a comunidade LGBTQ+, em lugar de pregar sermões a ela, é uma maneira de valorizar sua voz. O engajamento real de todos os moradores incentiva a inclusão de vozes marginalizadas e demonstra o desejo de trabalhar em parceria com membros das comunidades.

Sobretudo, é imperativo que instituições públicas, em vez de proteger os violadores da justiça, os responsabilize por seus atos e os puna por eles, com sanções e demissões. Elas precisam tomar as medidas organizacionais necessárias para combater comportamentos e políticas injustos por meio de intervenções intencionais como o uso de ferramentas de igualdade, a normalização de discussões sobre as comunidades LGBTQ+ e a criação de políticas inclusivas, entre outras estratégias.

Enquanto diversas comunidades passam a ser mais representadas nas telas – pense em séries como Raio Negro e Cara Gente Branca --, precisamos também exigir que as instituições públicas encarnem uma cultura em que as diferenças não são apagadas, mas celebradas. Dizem que a arte imita a vida, mas neste caso, quem sabe não é a vida que deveria imitar a arte.

Tia Sherèe Gaynor, Ph.D. é professora assistente de ciência política na Universidade de Cincinatti. Ela pesquisa o processo decisório em organizações públicas e seus efeitos marginalizadores sobre populações subrepresentadas.

*Pose está prevista para estrear no Brasil e América Latina no segundo semestre de 2018 no FOX Premium e no FOX App, para assinantes dos pacotes FOX+ e FOX Premium.

Photo gallery Casal transexual mostra fotos da vida a dois See Gallery