08/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 08/07/2018 00:00 -03

Ana Zulma: A designer de joias que usa o amor como principal ferramenta

Há 11 anos ela descobriu uma paixão e criou uma marca para levar peças assinadas, de prata e ouro, ao maior número de pessoas: “Eu sempre quis ser a marca que pessoas pudessem comprar as coisas."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Zulma é a 123ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Antes de completar dois anos de idade, três cirurgias no coração. Esta é uma marca difícil de carregar, mas a pequena Ana já nasceu doente, e lá nos anos 1980 sua vida era desacreditada pelos médicos. Os anos passaram, a criança cresceu e hoje, aos 34 anos, Ana Zulma é uma designer de joias reconhecida na sua área. Fundadora da marca que leva seu nome, a ourives descobriu sua vocação e amor há 11 anos, em um curso "tudo ou nada": tinha que sair dali uma boa fonte de renda, para fazer valer a pena o despertar às 4h e o descanso que só chegava quase 24 horas depois, às 3h da manhã.

Meu sonho sempre foi estar no porta-joias de todo mundo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
As peças são vendidas online e em feiras ou lojas compartilhadas em shoppings do Rio.

Deu certo. Hoje, suas joias compõem looks de famosas como Bruna Marquezine e Giovanna Antonelli em novelas, e a designer revela à reportagem do HuffPost Brasil que seu maior desejo mesmo é estar no porta-joias de todo mundo. E confessa que tudo o que acontece hoje, antes nem passava pela sua cabeça.

"Antes de isso tudo, meu sonho nem era esse. Meu sonho sempre foi estar no porta-joias de todo mundo. Tanto que minha joia é pra todo mundo. Quando a novela chegou, eu pensei: 'se eu não conseguir chegar no porta-joias de todo mundo, pelo menos eu cheguei na casa de todo mundo, e todo mundo está me vendo'", conta.

Eu sempre quis ser a marca onde as pessoas pudessem comprar as coisas.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
As ferramentas existem, mas o que faz Ana esculpir, mesmo, é o amor.

A designer leva a sério o seu desejo: no seu site há peças de R$ 60, mas a namorada de Neymar já usou uma peça de cerca de R$ 2.000 em cena. As peças são vendidas online e em feiras ou lojas compartilhadas em shoppings do Rio. Ou seja: a joia de Ana é para todo mundo — "ou quase todo mundo", como ela mesmo reconhece. Ter uma joia desenhada especialmente para cada um, assinada por uma designer e entregue com todo o carinho, ela acredita, é importante para os clientes.

"Eu sou uma pessoa que não posso comprar certas coisas, não importa se tenho uma marca. Não posso comprar uma joia caríssima numa loja, por exemplo. Eu fico muito frustrada de chegar numa loja que eu não posso comprar nada, então eu sempre quis ser a marca onde as pessoas pudessem comprar as coisas. Tanto uma pessoa que ganha menos, como uma pessoa que ganha mais. Ela vai olhar e se identificar com alguma coisa."

Há 11 anos eu sou muito mais feliz.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Há 5 anos, criou a sua marca, que hoje, sim, é o seu sonho.

O sentimento de Ana se justifica em sua origem. Baseada em Santa Cruz, bairro tão distante da capital fluminense que emula uma outra cidade, a designer tem origem simples. Seu contato com joias começou ainda na adolescência: gostava de bijuterias e chegou a ter sua própria loja de venda de material para confecção destas peças. Aos 23, decidiu dar um passo a mais e se arriscou no curso citado na abertura desta reportagem. Ela classifica que esta foi a virada da vida dela. Há 5 anos, criou a sua marca, que hoje, sim, é o seu sonho.

"Há 11 anos eu sou muito mais feliz. Eu tive de ficar uma vez 15 dias longe da oficina, e achei que iria morrer. Eu acordo e dou bom dia para os martelos. Não consigo imaginar um dia em que eu não esteja aqui, porque é o melhor lugar do mundo, meu lugar preferido. É onde a mágica acontece", conta ela, emocionada.

Eu não consigo imaginar um dia que eu não esteja aqui, porque é o melhor lugar do mundo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
E é essa dedicação, ela acredita, é o que diferencia a sua marca das outras.

Hoje, a mágica da vida de Ana acontece onde ela também mora. Seu ateliê é em um dos quartos da casa "com cara de casa", que recebe bem aqueles que chegam pela primeira ou décima vez. A personalidade acolhedora de Ana, aliás, é vista em suas joias. Um painel ao lado do computador, onde recebe os pedidos das clientes, tem pequenos papeis com os pedidos. Engana-se quem pensa que ali estão só as descrições da peça.

"Tudo é muito pensado. O jeito que eu vou embalar, o que o cliente vai sentir quando abrir. A joia é além da minha sobrevivência. Quero que as pessoas recebam não a peça, mas o pacote. Como se ela abrisse e pulsasse o coraçãozinho. Por isso eu não tenho estoque: faço para cada um. É o momento da pessoa, e eu sempre deixo separado por pessoa, não por peça, com nome e sobrenome. Quando eu sento para fazer a peça, penso em tudo isso."

Para sentar ao seu balcão hoje, Ana enfrentou muitas outras adversidades além da doença cardíaca. Seus obstáculos passaram desde o descrédito de colegas de um antigo emprego — "diziam que eu nunca conseguiria chegar onde cheguei" — até as dores nos braços, que a impedem de trabalhar como queria.

A joia é além da minha sobrevivência.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Seu ateliê é em um dos quartos da casa "com cara de casa", que recebe bem aqueles que chegam.

Observando que seria quase impossível continuar a rotina de trabalho, ela recrutou o marido. Edgar, ou Gagá, como ela chama, abandonou o emprego em um restaurante e teve um curso intensivo com a esposa. Hoje, as funções que demandam força excessiva são exclusivas dele.

"Eu comecei a ficar cansada, e um dia pedi para ele cortar uma peça. Ele cortou perfeitamente, e aprendeu em um dia o que eu demorei para aprender. Decidi começar a treiná-lo na parte de acabamento, porque demora muito e demanda muito do braço. Hoje eu faço as peças todas, além da organização da marca, e ele começou a me ajudar nisso."

E o envolvimento da família não para por aí. O sobrinho hoje é aprendiz e mãe de Ana é responsável pelas embalagens. Uma funcionária, a única que não é da família, cuida da parte operacional, como receber pedidos e enviar as joias, por exemplo. A família toda mora na mesma casa, e a rotina de trabalho é facilitada por isto, mas de uma coisa a dona da Ana Zulma Joias não abre mão: ela envia junto com toda e qualquer peça um bilhete escrito à mão.

Muitos clientes dizem que sentem o amor que eu deposito em cada peça.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Por isso eu não tenho estoque: faço para cada um. É o momento da pessoa, e eu sempre deixo separado por pessoa."

"Às vezes quando eu estou muito atarefada ou com dores, e não consigo escrever o bilhete, mando uma mensagem para o cliente. Se eu não puder escrever, não vai o bilhete. As pessoas sabem que mesmo sem bilhete o amor é o mesmo, mas se eu não puder fazer, ninguém faz. Eu faço um bilhete para cada um, de acordo com o que a pessoa comprou. Eu sei se a pessoa já comprou outra vezes, o que ela comprou, e às vezes dou dica de como combinar as peças", explica.

E é essa dedicação, ela acredita, é o que diferencia a sua marca das outras. Sem nunca julgar o trabalho de outras marcas, claro. "Isso é a maior diferença, a atenção dada a cada um. Quando os cliente recebem, muitos dizem que sentem o amor que eu deposito em cada peça. É amor em cada pacote", define ela.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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