06/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 06/07/2018 00:00 -03

Rachel Bessa 'Potira': Quando tricô, bordado e crochê resgatam a ancestralidade

Com produtos e cursos voltados para o público feminino, ela busca conexão: “Durante muito tempo as mulheres se reuniam em círculo para dividir saberes e bordar e isso precisa ser resgatado."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Rachel Potira é a 121ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

É noite de lua cheia e em uma casa perto do Lago Paranoá, em Brasília, um grupo de mulheres trabalha repetidamente no mesmo movimento do ponto de tricô em roda, em volta da fogueira. Ali, elas trocam experiências e leem capítulos do livro Mulheres que Correm com Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, enquanto se dividem entre agulhas e novelos de lã. E todas estão ali por causa de Rachel Bessa Rodrigues, mais conhecida Potira, de 38 anos: uma artesã em busca do seu sonho e de conexão entre as mulheres. Além de fazer e vender produtos direcionados para o público feminino, ela quer passar seus conhecimentos adiante e resgatar o movimento dos trabalhos manuais.

A agulha que furava o tecido e coloria o branco com a linha repetidamente até formar e criar desenhos, sempre inspirou Rachel. Na infância, enquanto passava férias no interior de Minas, ela observava os movimentos da avó paterna e queria cópia-los, foi com ela que aprendeu ponto cruz e um pouco de crochê. Na adolescência, a mãe a colocou em um contraturno escolar religioso só para meninas que tinha aulas de artesanato, culinária, teatro e violão. "Era o kit completo de como ser uma boa esposa", brinca. "Poderia ter sido uma coisa traumática, mas eu fiquei muito grata pela experiência por ter aprendido a ter autonomia, e me fez despertar o fato de estar bem com outras mulheres", relembra a artesã. O apelido também surgiu na época, Potira, por causa dos longos cabelos que lembravam a personagem de uma novela.

O empreendedor que encara o desafio sozinho precisa se auto entusiasmar todos os dias.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O feminino -- e a conexão a força que ele traz -- é expressão dos trabalhos de Rachel.

Rachel foi mãe pela primeira vez aos 22 anos, na época trabalhava como professora e resolveu lagar tudo para ficar perto da filha. "Foi quando entrei de vez no artesanato, fui buscar tudo o que eu sabia fazer de manual e vender". Ela passou por diversas fases e períodos desde então. "Nunca parei, às vezes com mais entusiasmo, às vezes com mais descrença. E eu tive que me render a clássica rotina do brasiliense nascer, crescer e vivar servidor público, passei num concurso. De uns quatro anos pra cá, depois que minha segunda filha nasceu, encarei mesmo a vontade de que isso dê certo, porque estar nesse movimento do trabalho manual e cercada de mulheres é o que me move", conta.

Ela foi atrás de especialização e foco, fez um curso de economia criativa e direcionou mais seu trabalho. Não eram apenas mais um simples artesanato. "Foi preciso olhar pras [sic] coisas de uma forma mais profissional, fazer planejamento, entender como vender, como chegar nas pessoas. Por melhor que seja sua intenção não dá pra bater foto de celular e achar que seu produto vai ser vendido, tem sim que procurar um profissional". A loja Potira se transformou em um lugar de de produtos artesanais voltado para mulheres e ecologia feminina, e não apenas para comercializar, mas para multiplicar esses afazeres ancestrais também.

Durante muito tempo as mulheres se reuniam em círculo para dividir saberes e bordar e isso precisa ser resgatado.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Estar em círculo é muito poderoso, é onde a cura acontece."

Para que as mulheres voltassem a se conectar com sua ancestralidade e com elas mesmas através do trabalho manual, Rachel promove encontros para que elas façam tricô e também desenvolvam o auto-conhecimento. "Eu resolvi pegar uma obra que é referência do resgate feminino da Clarissa Pinkola Estés e trabalhar cinco contos, durante cinco encontros, em cinco luas diferentes. Nesse período fazemos tricô e começamos a fazer um diário que leva essas mulheres a se olharem a se conectarem com elas mesmas. É muito mais do que simplesmente aprender a fazer um manto de lã".

O trabalho de tecer nos faz sair da zona de conforto e fazer com outras mulheres nos fortalece, nos ajuda a não desistir.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil

No passado, os trabalhos manuais eram ensinados para as mulheres para que elas se tornassem "boa dona de casa e esposa", o que acabou criando certo afastamento por parte de algumas mulheres modernas, especialmente aquelas que saiam para trabalhar. Agora, algumas delas redescobriram o ofício como arte e uma nova forma de se expressar. "As técnicas estão sendo usadas como forma de arte e posição política da mulher, e isso é maravilhoso", diz Rachel que tem na sala de casa alguns quadros bordados com a silhueta feminina, em um deles um útero repleto de linhas que representam raízes.

O bordadinho de fazer pano de prato ganhou outros lugares e virou forma de expressão.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
No passado, os trabalhos manuais eram ensinados para as mulheres para que elas se tornassem

Para a artesã, ainda que o mundo moderno nos leve para o aspecto mais virtual das relações, a maioria das mulheres ainda está em busca de resgate, de conexão real. "Antigamente, estávamos juntas lavando roupas, criando nossos filhos, ajudando outras mulheres a parir e isso tudo foi acabando com o patriarcado. E agora existe um movimento das mulheres estarem juntas de novo, de começar a se perceber e ver a outra. Estar em círculo é muito poderoso, é onde a cura acontece", comenta Rachel. Além disso dos encontros para fazer o manto de tricô, ela promove encontro de crochês e bordados gratuitos entre mulheres uma vez por semana. "É uma forma de sentar, se conhecer, jogar conversa fora, não tem professora, aprendemos umas com as outras", diz.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.