POLÍTICA
05/07/2018 13:50 -03 | Atualizado 05/07/2018 21:30 -03

Comandante do Exército se encontra com presidenciáveis, e especialistas criticam

General Villas Bôas tem feito reuniões privadas com pré-candidatos. Para analistas, agenda sugere pressão do poder militar sobre o civil.

General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro.
Marcelo Camargo/Agência Brasil
General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro.

O comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, tem tido encontros privados com pré-candidatos que cogitam disputar a Presidência da República nas eleições 2018.

Conforme relatou o general em sua conta no Twitter, nas reuniões são apresentados "alguns temas, sob a ótica do Exército, que consideramos importantes serem discutidos por quem pleiteia dirigir a nação".

Villas Bôas já recebeu os seguintes presidenciáveis, de acordo com o Exército: Álvaro Dias (Podemos), em 23 de maio; Rodrigo Maia (DEM), em 29 de maio; Jair Bolsonaro (PSL), em 5 de junho; Geraldo Alckmin (PSDB), em 18 de junho; Henrique Meirelles (MDB) e Paulo Rabello de Castro (PSC), em 7 de junho; Marina Silva (Rede), em 15 de junho; e Ciro Gomes (PDT) e Aldo Rebelo (SD), em 18 de junho.

Imagens de alguns desses encontros foram divulgadas pelo general em sua conta pessoal no Twitter.

No dia 20 de junho, o comandante recebeu Fernando Haddad (PT) na condição de representante de Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente está preso, mas é pré-candidato do PT ao Planalto.

A próxima reunião será no dia 17 de julho com a presidenciável Manuela D'Ávila (PCdoB), informou o Exército.

O poder armado não pode se colocar em posição de pressão em relação ao governo e à sociedade. Ignacio Cano, sociólogo.

Protagonismo

Os encontros ocorrem em um momento em que os militares assumem um protagonismo cada vez maior no País, na esteira da crise política.

Em meio ao caos provocado pela greve dos caminhoneiros, por exemplo, o governo Michel Temer convocou as Forças Armadas a agir contra bloqueios de estradas.

Semanas depois, em meados de junho, o presidente efetivou o general do Exército Joaquim Silva e Luna para o comando do Ministério da Defesa. É a primeira vez desde que a pasta foi criada, em 1999, que um militar ocupa o cargo.

As Forças Armadas lideram, ainda, a intervenção federal no Rio de Janeiro, decretada por Temer em fevereiro, algo inédito desde a redemocratização.

O general Villas Bôas é um comandante bastante sereno, mas este é um expediente inapropriado, que pouco contribui para uma democracia que se supõe madura.Alexandre Fuccille, professor da Unesp.

Em nota oficial enviada ao HuffPost Brasil, o Exército afirma que o objetivo dos encontros é "discutir o tema Defesa Nacional, atinentes ao Exército Brasileiro, e ressaltar a importância da adoção de políticas que garantam o avanço indispensável dos programas estratégicos da Força, bem como a estabilidade orçamentária, a recuperação remuneratória e a manutenção da operacionalidade da Força, com equipamentos e tecnologias atuais".

Em cerimônia nesta quinta-feira (5) em São Paulo, o general Villas Bôas disse que o Brasil atravessa momento que exige "recuperação coesão nacional", mas descartou a possibilidade de uma intervenção militar no País. Segundo ele, uma eventual interferência das Forças Armadas ocorreria no sentido de "cumprir a Constituição, manter a democracia e proteger as instituições".

'Descabido' e 'inapropriado'

Segundo especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, os encontros com pré-candidatos são equivocados. Para o sociólogo Ignacio Cano, a iniciativa sugere uma pressão do poder militar sobre o poder civil.

"São encontros descabidos. Não cabe ao comandante do Exército funcionar como suposto grupo de pressão, expondo suas reivindicações aos candidatos, especialmente em um momento como este, com intervenção federal e receios quanto à expansão do papel militar", afirma Cano, que é coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

"É um fato grave para a história da República. O poder armado não pode se colocar em uma posição de pressão em relação ao governo e à sociedade. Esses encontros configuram um cenário de pressão do poder militar sobre o poder civil", continua.

Para o sociólogo, o Exército deveria propor reuniões apenas com o presidente eleito. Antes disso, afirma Cano, a proposta pode soar como interferência nas eleições.

"Uma vez eleito o governo, aí sim cabe ao comandante-em-chefe colocar as necessidades do Exército. Mas agir como se estivesse fazendo sabatinas com eventuais candidatos soa como tentativa de influência no processo eleitoral, algo totalmente descabido em uma República democrática", afirma Cano.

O sociólogo lembrou, ainda, o episódio em que o general Villas Bôas usou o Twitter para manifestar repúdio à "impunidade" e dizer que o Exército estava "atento às suas missões institucionais", na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula no STF (Supremo Tribunal Federal). Para Cano, os tuítes também podem ser lidos como instrumento de pressão.

Alexandre Fuccille, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes), afirma que Villas Bôas é um general "respeitado" e "sereno", mas entende que os encontros são inapropriados.

"O general Villas Bôas é uma pessoa bastante respeitada, um comandante bastante sereno, mas nós temos visto, principalmente de 2016 para cá, um crescimento intenso do protagonismo militar na cena política. Então, do meu ponto de vista, é um expediente inapropriado, que pouco contribui para uma democracia que se supõe madura."

Para Fuccille, parte do crescente protagonismo do Exército se deve à fragilidade do governo Temer, que acaba conferindo aos militares um papel de destaque no funcionamento da República.

"É um governo fraco e impopular que se apoia nas Forças Armadas para conseguir se arrastar até dezembro de 2018", conclui o professor.