05/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 05/07/2018 00:00 -03

Wendi Yu: A pesquisadora trans que traz o meio acadêmico para a primeira pessoa

"Eu quero seguir na carreira acadêmica com isso: afrontando e fazendo um saber trans de nós, para nós e por nós - e não só sobre nós", afirma a acadêmica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Wendi Yu é a 120ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

"O Brasil é o país que mais assassina pessoas trans em todo o mundo. Segundo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o índice de violência contra pessoas trans no continente americano é 'extremamente alto'.

Segundo dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), nossa expectativa de vida é de 35 anos, níveis medievais. No primeiro semestre de 2015, 20,58% das denúncias de discriminação e violência física e psicológica feitas ao Disque Direitos Humanos (Disque 100) relacionadas ao público LGBT foram voltadas a travestis e transexuais.

O mercado de trabalho é de acesso extremamente difícil para nós, resultando em, segundo dados da ANTRA, 90% das mulheres trans e travestis estarem relegadas à prostituição. Por outro lado, o país é o que mais consome conteúdo pornográfico relacionado a mulheres trans e travestis – é o quarto item de busca mais popular do país no RedTube."

Os parágrafos acima são os que abrem o texto da monografia de Wendi Yu, entitulada: "É TUDO NOSSO: Um relato trans a partir de relatos de pessoas trans no YouTube". O uso das primeiras pessoas do singular e do plural no artigo é proposital: aos 25 anos, a jornalista e roteirista utilizou o documento para registrar não somente o seu objeto de estudo, como também se fez protagonista da história que conta.

Eu quero seguir na carreira acadêmica com isso: afrontando e fazendo um saber trans de nós, para nós e por nós - e não só sobre nós.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Então a minha posição como pessoa trans, longe dessa realidade e com a possibilidade de poder falar, é de muito privilégio."

Apesar de soteropolitana, traz consigo ancestrais bem distantes da nossa costa Atlântica. O sobrenome denuncia: os avós, chineses, fugiram da Revolução Comunista no país e se conheceram em Taiwan, onde tiveram dois filhos. Decidiram vir para o Brasil, "primeiro para São Paulo, como todo oriental", e depois firmaram casa numa fazenda no interior do Goiás, lugar que deu luz à mãe de Wendi.

Se mudaram para Salvador quando o bairro da Pituba, hoje um dos mais populosos da capital, ainda era área de veraneio e vendia os lotes a preço de banana. Lá montaram um restaurante de comida chinesa e, apesar de o estabelecimento não mais existir, o ramo da culinária ainda é presente no clã.

Mas não em Wendi. Dentro da faculdade de Comunicação com Habilitação em Jornalismo, se apaixonou ainda mais pelo audiovisual. Cursou todas as disciplinas possíveis voltadas à área e, ao decidir sobre o que escreve em sua conclusão de curso, a vertente que tanto lhe apetecia soava como o mais óbvio a ser posto no papel.

Só que, paralelamente, começava aos poucos a se assumir como mulher transexual para amigos, família e para sua orientadora, a professora doutora Itania Gomes. "O Brasil é o país quem mais mata pessoas trans no mundo. A gente tem uma expectativa de vida de 35 anos. 90% das mulheres trans e travestis se prostituem. Então a minha posição como pessoa trans, longe dessa realidade e com a possibilidade de poder falar, é de muito privilégio. Eu percebi que eu não podia desperdiçar essa oportunidade"

Quando a gente é vista como algo errado, como uma aberração, uma coisa monstruosa, o ato de se colocar como sujeito da narrativa tem um potencial muito forte.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A ideia da monografia de Wendi é apresentar uma análise da representação das pessoas trans na Internet. Especialmente no Youtube.

Após conversa com a professora, uma defensora ferrenha dos estudos acerca daquilo que é contra hegemônico – e conhecida popularmente como PHDeusa por suas sugestões assertivas –, viu na plataforma de vídeos Youtube uma maneira diferente de retrato das pessoas trans. Lá, apesar de ainda existir muito conteúdo voltado para o deboche, há um espaço no qual os transexuais conseguem dar voz a sua própria história, falar das suas vidas através das suas próprias perspectivas e quebrar algumas barreiras impostas pelo senso comum.

"Eu queria olhar os pontos de ruptura, as possibilidades de transformação. E onde eu vi isso, foi nos canais de Youtube. Na mídia tradicional, o papo é sempre: eu nasci no corpo errado, quando criança brincava de boneca, e blá blá blá. Ou, então, são representadas somente a travesti prostituída, a barraqueira, Vanessão dos 20 reais, Luiza Marilac. São dois extremos: Travestis: como funcionam? Onde vivem? O que comem?; Ou a travesti enquanto o lugar do menos que humano, que você pode rir, que está ali para te divertir, te dar prazer".

Ao mesmo tempo em que narrou a sua perspectiva – o que nunca pensou ser possível de ser feito em um trabalho acadêmico – destrinchou o conteúdo hospedado pelos canais de Mandy Candy, Thiessita, Ariel Modara, Lucca Najar, Transdiário e Barraco da Rosa TV. A ideia, é apresentar uma análise da representação das pessoas trans naquele espaço, já que "a forma com a qual a gente representa as coisas no mundo, é o que vai dar significado para essas coisas. E a gente vive em um mundo no qual as pessoas trans são vistas como o estranho – no mínimo".

São dois extremos: Travestis: Como funcionam? Onde vivem? O que comem?; ou a travesti enquanto o lugar do menos que humano, que você pode rir.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Wendi quer formar um "saber trans", que, em suas palavras,

Escreveu e defendeu. Não da maneira como a maioria do conhecimento acerca dessa temática retrata, "como objetos de um olhar acadêmico desumanizante, que nos trata como uma coisa estéril, distante". Com autores dos Estudos Culturais já consagrados como Jesus Martín-Barbero e Stuart Hall, mas também autoras trans brasileiras como Amara Moira, Viviane Vergueiro, e a americana Julia Serano. Formado um saber trans, em suas palavras, "de nós, para nós e por nós - e não só sobre nós".

Apesar de querer continuar pesquisando sobre o assunto e possivelmente ingressar em um mestrado com o tema, Wendi diz ser importante que "essas coisas não fiquem somente no âmbito acadêmico", e que esse conhecimento seja instrumentalizado também. "Você não pode dar nome àquilo que você não sabe que existe. Eu, pelo menos, demorei muito de me entender enquanto ser trans, porque eu não sabia que isso existia".

O mote de sua jornada agora é aproveitar o lugar que lhe foi dado, para ajudar aquelas outras irmãs que não têm. "O gênero é um dos pilares da sociedade ocidental capitalista, é uma das coisas que articula as relações de poder. Quando a gente tá ali sendo um lembrete constante de que o gênero é mais do que isso, a gente gera mais confusão na cabeça das pessoas. Isso gera medo, e medo leva a raiva, e a raiva leva ao ódio – como bem disse o Yoda para o Anakin Skywalker"

O gênero é um dos pilares da sociedade ocidental capitalista, é uma das coisas que articula as relações de poder.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
O mote de sua jornada agora é aproveitar o lugar que lhe foi dado.

Mas, e o audiovisual? Calma lá, não se abandona assim o meio que deu a ela a coragem de ser o que é. Ah, eu não mencionei? Foi assistindo à série Sense8, dirigida pelas irmãs Wachowski – ambas mulheres trans – e a partir da representação fidedigna da personagem trans Nomi Marks, interpretada por Jamie Clayton, que Wendi chutou as portas do armário.

"A Nomi é uma personagem trans, claramente trans, e também é uma pessoa normal. Ela tinha seus problemas por ser trans com a família, mas também tinha seus medos, desejos, esperanças, como uma personagem normal". É esse equilíbrio de narrativa que procura imprimir numa série já escrita por ela, e que busca agora uma produtora ou emissora interessada.

Sem querer revelar muito sobre o enredo e sua protagonista trans, resume o que pretende passar: "Cada um tem seus processos, cada um tem seu tempo, cada um tem as suas descobertas, você não precisa saber desde cedo. Você não precisa reproduzir certas expectativas do que é masculinidade ou o que é feminilidade, você não precisa se enquadrar em nada disso. Tem gente que acha que ser trans é o Charizard do viado, sabe? É a evolução. Chega um ponto que você tem tanto XP de viadagem que você vira trans. Trans não é bagunça".

É importante a gente estar disputando, afrontando. Não só enquanto pessoas trans que está produzindo um objeto científico, mas que também instrumentaliza esse conhecimento.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Durante ensaio de fotos para o HuffPost Brasil, Wendi pixou uma das paredes das ruas de Salvador: "Mulher trans re-xiste".

Seguindo a proposta de deixar com que a própria Wendi seja a voz de sua história, convoco o último parágrafo de sua monografia como uma oração a ser gritada aos sete ventos de agora em diante:

"Que todos os armários sejam explodidos, que todas as correntes sejam partidas. Que os socos e balas e paus e pedras e risos e ofensas e silêncios e tudo o que jogarem contra nós jamais encontre seu alvo. Que cada gota de sangue, suor, lágrima, gozo, por nós derramada formem as ondas que afogarão os cistemas. Que nossas vozes não se calem e nossos corpos não se escondam. Que possamos, enfim, ser".

Amém.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC