ENTRETENIMENTO
03/07/2018 19:20 -03 | Atualizado 04/07/2018 12:29 -03

Como a 'fúria' impulsiona a revolução da comediante Hannah Gadsby no stand-up

Em seu especial da Netflix, 'Nanette', a humorista australiana está furiosa com o setor em que trabalha: 'Se sua única responsabilidade é arrancar risadas das pessoas, se mande da televisão'.

Damon Dahlen/ HuffPost
A australiana Hannah Gadsby, diante de um café de Nova York alguns dias antes da estreia de seu especial Nanette no Netflix, foi descrita pelo New York Times como

Horas antes de meu encontro com a humorista Hannah Gadsby em um café de Manhattan chegou a notícia de que a jovem comediante australiana Eurydice Dixon tinha sido estuprada e assassinada quando voltava para casa sozinha a pé em Melbourne, depois de fazer uma apresentação em um bar.

Gadsby admitiu que estava abalada. "Eu não conhecia Eurydice, mas 12 anos atrás estava me lançando no mundo, como ela estava", escreveu no Twitter mais tarde. "Envio minhas condolências mais profundas à família dela."

Gadsby está acostumada a falar de temas dificeis e dolorosos. Seu especial mais recente de stand-up, Nanette, que estreou no Netflix no início de junho, trata de temas como o movimento #MeToo e a homofobia que ela enfrenta, como lésbica. Ao longo do dinâmico show de uma hora de duração ela se alterna entre piadas sobre a bandeira do orgulho gay e críticas declaradas a abusadores sexuais como Bill Cosby, Harvey Weinstein e até mesmo Pablo Picasso.

É engraçado, sem dúvida alguma, com alguns trechos irônicos que você pode se descobrir repetindo dias mais tarde. Mas há uma virada que obriga a plateia a ter uma nova percepção do que uma comediante é capaz de fazer sobre o palco.

A tensão oculta vem à tona na metade do especial, quando Gadsby revela que um cenário da vida real que ela havia apresentado anteriormente não teve o final feliz que ela relatou. Em vez de contar como ela supostamente ironizou a ignorância de um sujeito que, confundindo a humorista com um homem, quis bater nela por ter falado com a namorada dele, Gadsby admite que o homem na realidade a agrediu fisicamente.

Revelando a realidade de seus próprios materiais autoirônicos sobre sexualidade, gênero e violência, ela desconstrói seu próprio stand-up e ao mesmo tempo cobra ações concretas de seus pares humoristas. Em vários momentos, deixa a plateia calada, em suspense.

Gadsby está inegavelmente irada em Nanette, mas seu tom condiz com os tempos atuais.

"Eu não teria podido fazer esse trabalho sem meus dez anos de experiência anterior com comédia. Portanto, o show é o ponto culminante de minhas habilidades, meu talento e experiência – e minha fúria", disse Gadsby. "E não ficou mais fácil fazer com o passar do tempo. Como é reviver traumas? Não recomendo isso a ninguém."

Damon Dahlen/ HuffPost

Sentada num banco do lado de fora do La Colombo, no SoHo, vestida de azul marinho casual dos pés à cabeça, com óculos de sol azuis com fones pendurados no pescoço, Gadsby tomava um café gelado... Na noite anterior ela participou do Late Night With Seth Meyers. Ela acha que o show foi bom, mas não tem certeza.

"Não gosto muito de me assistir", ela admitiu. "Mas estive lá."

Nascida na Tasmânia, a humorista fez sucesso com seus shows premiados de stand-up, participações em festivais na Austrália e Europa e na série de TV australiana "Please Like Me". Agora Gadsby está começando a chegar a um público americano maior com seu especial no Netflix. Ela escolheu a cena inicial, em que ela prepara uma xícara de chá em casa, com seus dois cachorros, para fazer um contraste com sua imagem de comediante já muito conhecida.

Mas Nanette – pelo qual o New York Times descreveu Gadsby como "uma nova e importante voz no humor" – é mais do que apenas humor stand-up.

"Antes o programa inteiro era isso, não havia piadas", disse Gadsby sobre a última metade de Nanette, admitindo que encarar a apresentação inteira como uma "crítica severa nada divertida" se mostrou inviável. "Nas primeiras apresentações, eu simplesmente estava furiosa sobre o palco, deixando a plateia completamente em estado de choque. Depois disso, fui construindo as piadas em torno disso, para fazer os espectadores entenderem por que eu estava furiosa e se sentirem em segurança."

Nanette representa uma mudança grande para Gadsby, depois de uma década fazendo humor stand-up em que ela ironizava a si mesma para arrancar gargalhadas da plateia. As piadas sobre seu corpo e sua saída do armário não chegavam a captar toda sua vivência – a de ter crescido na Tasmânia, onde a própria homossexualidade era ilegal até 1997 e onde ela própria tinha vergonha de quem era e fazia críticas aos gays.

Um ano antes de montar Nanette, ela começou a refletir sobre como estava usando a plataforma pública que possui, como humorista. No ano passado, em meio à discussão sobre o casamento homossexual na Austrália, ela viu cristãos normalmente bem-intencionados se descreverem como vítimas depois de terem sido tachados de homófobos por terem se oposto à legalização do casamento gay. Gadsby começou a perceber que seu stand-up poderia virar uma plataforma poderosa para discussões sobre intolerância, sobre vítimas e acusadores, em diversos cenários.

"Percebi uma coisa: eu tinha deixado de ser vítima, porque já tinha bastante influência", ela contou. "Mas achei que eu estava sendo irresponsável, porque não estava usando minha influência corretamente – estava contrariando meus próprios interesses. Eu estava lutando para conciliar a dinâmica de poder: tinha a liberdade de expressão que é amplificada no palco do humor, tinha um público grande na Austrália, e pensei: 'o que é que estou dizendo?""

Em Nanette, Gadsby chama a atenção de outros humoristas por terem convertido Monica Lewinsky em alvo fácil de piadas nos anos 1990, mais que Bill Clinton, e sugere que a situação talvez estivesse diferente hoje se eles tivessem voltado sua atenção mais ao então presidente.

"Se os humoristas tivessem feito seu trabalho corretamente e zombado de um homem que abusou seu poder, quem sabe tivéssemos na Casa Branca hoje uma mulher de meia-idade com a experiência necessária para exercer o cargo, em vez de termos um homem que admitiu abertamente ter agredido sexualmente mulheres jovens e vulneráveis, simplesmente porque podia", ela fala no especial.

"Não podemos desfazer o que já foi feito, mas, basicamente, lanço um chamado à ação aos humoristas de hoje, para que sejam construtivos", Gadsby me disse. "Há humoristas mais preocupados com sua liberdade de expressão do que com o que diabos estão falando ao mundo."

E há também humoristas que estão fazendo tudo certo. Gadsby elogiou o especial da HBO de Tig Notaro, Bottom of Form

"Boyish Girl Interrupted", que também inclui um momento inesperado e chocante no meio, quando Notaro revela que passou por mastectomia dupla e faz o restante de seu show de topless.

Gadsby elogiou Sarah Silverman, admitindo que teve dificuldade em aceitar "alguns de seus primeiros materiais porque sou meio pudica".

"Sarah está fazendo algo incrivelmente construtivo no momento, tenho que tirar o chapéu para ela. Também curto Maria Bamford, e Margaret Cho eu sempre gostei muito porque ela denuncia mentiras", disse Gadsby. "Um dos shows que influenciou Nanette foi o da artista performática Adrienne Truscott. Ela fez um show em Edimburgo chamado 'Asking for It' em que tirou as calças sobre o palco e adaptou piadinhas sobre estupro."

Cameron Esposito segue uma linha semelhante em seu especial recente, intitulado abertamente "Rape Jokes" (Piadas sobre Estupro), que ela lançou gratuitamente em seu site na internet.

Damon Dahlen/ HuffPost

Em meio à ascensão da chamada "cultura da correção política", os humoristas discutem se têm alguma responsabilidade perante suas plateias, além de serem engraçados. Para Gadsby, nossa realidade atual significa que sim.

"Se sua única responsabilidade é arrancar risadas das pessoas, se mande da televisão", ela disse. "Se você vai difundir suas ideias tóxicas apenas porque isso é seu direito, saiba que muita gente é engraçada. Se mande. Esses mesmos homens choram quando as pessoas dizem que eles são uns merdas. E então escrevem todo um novo especial no Netflix sobre alguma crítica que receberam de pessoas no Twitter. Na realidade, são vocês, caras, que precisam criar coragem. Eu já tive gente na primeira fileira soltando ameaças de estupro. Esses caras não sabem o que é resiliência de verdade."

Que fique registrado que o ritual que Gadsby segue após seus shows para se acalmar envolve ouvir música ambiente, especificamente Red Gold Yesterday , de Luchs, ou gravações de cantos de pássaros.

Dito isto, a humorista acredita (e explica em Nanette) que, assim como o riso, a raiva possui o poder de unir as pessoas. Ela enxerga Nanette como a maneira mais construtiva de conter a fúria que sente e sugere a outros que façam a mesma coisa. Várias falas da segunda metade do show dela, especialmente quando são gritadas, soam como slogans que poderíamos ver estampados em camisetas feministas.

"Sua resiliência é sua humanidade."

"Não há nada mais forte que uma mulher ferida que se reconstruiu."

Sentada diante do café, Gadsby disse, brincando, que desde que está vivendo temporariamente em Nova York, criou um novo slogan: "A certeza é uma perversão".

Em vários momentos do especial, Gadsby fala que está abandonando o humor. Mas isso não é inteiramente verdade, se bem que ela diga que poderia aposentar-se sem arrependimentos depois de Nanette. Ela está escrevendo um livro e acha que esse será seu próximo grande trabalho. Mas vai continuar a tentar aperfeiçoar seu show, independentemente de como ele venha a ser classificado.

"Não vou desistir do palco, mas não vou seguir as regras do jogo", falou Gadsby, tomando os últimos goles de seu café. "Não vou me preocupar em saber em que estado deixei a plateia. Seja o que for que eu venha a fazer, sempre vou contar histórias com muito humor no meio, mas se a única razão de eu abrir a boca for arrancar gargalhadas das pessoas, isso não será o bastante para mim. Já há gente demais elevando a voz no mundo. Meu irmão me ofereceu trabalho na quitanda dele. Vou fazer isso. Vou sair deste mundinho assim que eu começar a me preocupar mais com minha carreira do quem com a mensagem que estou tentando passar. Vim do nada e vou voltar para lá."

Damon Dahlen/ HuffPost

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