ENTRETENIMENTO
02/07/2018 19:37 -03 | Atualizado 05/07/2018 11:07 -03

O que podemos aprender com o episódio racista de Júlio Cocielo, segundo ativistas negros

"As piadas racistas postadas no Twitter são tão violentas e criminosas quanto qualquer injúria racial proferida pessoalmente."

A esta altura você já deve saber que o youtuber e digital influencer Júlio Cocielo fez um comentário racista sobre o jogador francês Mbappé durante a partida do último sábado (30) entre França X Argentina.

Caso tenha tenha ficado alheio ao caso, aqui está o registro.

Reprodução/Twitter

O youtuber apagou o tweet do que chamou de "piada" após reação imediata dos usuários da rede social.

Na sequência, ele publicou um novo tweet defendendo-se das críticas.

"Apaguei porque meu negócio não é ofender. Não citei nada além da velocidade dele devido ao lance do jogo, não quero treta, só deixei pra lá porque não era esse o sentido e não quero levar isso além. É isso. Não quero que confundam as coisas."

Essas linhas também foram apagadas do Twitter pelo youtuber.

As pessoas começaram a explicar que seria possível Cocielo fazer uma piada sobre a velocidade do jogador francês sem manifestar racismo.

Na sequência, veio à tona uma série de tweets antigos de Cocielo com o mesmo teor racista.

Reprodução/Twitter

Ainda no sábado, o youtuber postou uma nota na rede social reafirmando que sua "piada" se referia à velocidade do jogador. No texto, ele também justificou os tweets antigos dizendo que "na época, esses comentários infelizes tinham uma interpretação totalmente diferente de hoje, um momento delicado".

Ao final, destacou que estava arrependido. "Vivendo e aprendendo. Não vou entrar em nenhuma discussão, assumo meu erro! Desculpa", escreveu.

Leia a nota abaixo:

"Bom, vamo lá! Hoje eu fiz um tweet sobre o Mbappé e a piada se referia a velocidade dele devido a um lance do jogo, nada além disso! O tweet foi interpretado de mil formas diferentes e gerou uma grande discussão. Decidi deletar pois nunca fui de entrar em polêmicas, mas já era tarde demais, tinha tomado uma proporção enorme... pegaram alguns comentários antigos, de uns 8 anos atrás, que eu já havia feito aqui no Twitter, tenho até vergonha! Cara, como eu falava m... Na época esses comentários infelizes tinham uma interpretação totalmente diferente de hoje, um momento delicado. Muitas vezes fui irônico, muitas vezes estava zoando amigos, muitas vezes só queria ser o engraçadão, e são coisas que eu nem lembrava ter escrito... De qualquer forma, não existe justificativa, isso fez eu me sentir muito mal só de imaginar ter sido uma pessoa escrota. Arrependido e aprendido! Lição pra vida! Nunca mais se repetirá! Peço desculpas publicamente por ter ofendido inúmeras pessoas, e como eu sempre digo: meu sonho sempre foi alegrar e motivar todos a acreditarem nos próprios sonhos. Magoar alguém nunca foi minha intenção, quem conhece minha história e convive comigo, sabe como eu sou, e que eu jamais agiria desta forma! Vivendo e aprendendo! Não vou entrar em nenhuma discussão, assumo meu erro! Desculpa!"

Durante o fim de semana, tanto seguidores como ativistas cobraram nas redes sociais um posicionamento das empresas que já contrataram ou mantêm contrato com o youtuber em ações de marketing.

Cocielo tem hoje mais de 7 milhões de seguidores no Twitter e mais de 11 milhões no Instagram. O Canal Canalha, que ele administra no YouTube, reúne mais de 16 milhões de assinantes.

O youtuber já foi garoto-propaganda de marcas como Adidas, Itaú, Submarino, Asus, McDonald´s, Foster, Gillette e Tic-Tac.

A cobrança massiva gerou resultados. Nesta segunda-feira (2), três marcas se manifestaram sobre o episódio protagonizado por Cocielo. Itaú, Coca-Cola e Submarino cortaram laços com o youtuber.

Reprodução/Meio&Mensagem

O caso de Cocielo suscita algumas questões.

Por que um comentário como o de Cocielo pode ser considerado para algumas pessoas como uma piada mal interpretada, enquanto para a população negra trata-se de indiscutível manifestação de racismo? O que esse tweet tem a ensinar para influenciadores, marcas e, sobretudo, cidadãos de todo o Brasil?

A seguir, você acompanha reflexões de 9 ativistas negros que usaram seus perfis nas redes sociais para discutir essas e outras indagações - lançando luz sobre o racismo estrutural que, infelizmente, define a história do Brasil e ação de muitos brasileiros.

Spartakus Francisco

"Mbappé é um jogador negro francês, que ganha 20 mil euros por cada jogo da copa, o equivalente a 90 mil reais. Ele doa todo esse valor para caridade, mas isso não importa porque ele é negro. E negro correndo, para brasileiro, é gente fazendo arrastão. Para muita gente, isso é só piada. Mas na verdade, é expressão de um pensamento extremamente racista, que diz que nós [negros] somos sempre bandidos. Nesse País, negros são mortos diariamente por serem confundidos com assaltantes. E 2015, por exemplo, 5 jovens estavam em Costa Barros, no Rio de Janeiro, e foram confundidos com ladrões de carga. Eles foram alvejados pela polícia com 111 tiros. Foram brutalmente assassinados. Tudo porque o inconsciente coletivo diz que preto é automaticamente ladrão. E você Cocielo, como grande influenciador, youtuber com milhões de seguidores, está reforçando esse pensamento."

Stephanie Ribeiro

Gabi Oliveira

Nataly Neri

Tia Má

"O racista tem que ser punido! E às vezes é pelo bolso! Perder patrocínio é o mínimo e pode ser o estopim para que de fato ele passe a refletir sobre suas posturas! A internet serviu para que @cocielo apenas revelasse o que de fato ele pensa! Para muitas pessoas, o racismo é recreativo, mas chegou a hora de pagar o preço da sua discriminação! Aproveite o momento para refletir e observar quem vc segue! Acompanhar e fortalecer o trabalho de criadores de conteúdos negros é militância e construção da revolução."

Karina Vieira

Monique Evelle

"Imagina quanto a Adidas e CocaCola perderam em ROI com um único tweet de apenas 47 caracteres? Não precisou de 11.2 milhões de seguidores para ter uma queda brutal de investimento. Nenhuma marca será genuína quando a sua escolha pautada na audiência vem antes da relevância e valor agregado para sua ação."

Leia o artigo Audiência não é relevância. Número não é tudo! aqui.

Loo Nascimento

"É muito triste você o tempo todo se chocar com essa demência social de que as pessoas não param para pensar no que elas estão fazendo, não param para pensar no histórico que isso tem, no significado que isso tem. Porque elas só estão preocupadas em pensar nelas."

Renata Martins

"Até quando todos nós seremos coniventes com as "piadas" racistas? Até quando vamos passar as mãos na cabeça de jovens brancos e achar que tá tudo bem? Se fazem isso com um jovem negro esportista que deu show para o mundo, só penso nas crianças e jovens negros anônimos que são tratados como lixos todos os dias. Se racismo é crime. Cadê a lei?"

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