03/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 03/07/2018 14:40 -03

Fabrícia 'Brixx' Furtado: A grafiteira que ultrapassou os muros da timidez fazendo arte

A ilustradora Fabrícia Furtado, de 30 anos, demorou para reconhecer que tinha um lugar no mundo das artes: "Sempre tive certeza que eu queria fazer e trabalhar com arte, mas não que eu fosse ser artista."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Fabrícia 'Brixx'Furtado' é a 118ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

A escritora americana Julia Cameron diz no livro O Caminho do Artista que a criatividade é sempre um ato de fé, especialmente quando é preciso enfrentar uma página ou uma tela em branco. Para artista brasiliense, Fabrícia Furtado, de 30 anos, foi preciso enfrentar os muros sem cor da cidade para se encontrar na arte e, principalmente, acreditar em si mesma. No grafite, ela é conhecida como Brixx, e traz o colorido e os traços femininos para seus desenhos urbanos, em um segmento que é ocupado majoritariamente por homens. Foi preciso vencer a timidez para continuar a pintar e desenvolver seu lado artístico. E muita coragem para seguir em frente com sua arte que a cada dia cresce.

Brixx sempre gostou de desenhar. Na infância, vivia ao lado de sua avó, que era costureira, rodeada de tecidos, linhas e gostava de traçar no papel o modelo das roupas. "Me lembro de estar sempre desenhando e foi um hábito que eu não deixei pra lá", conta em entrevista ao HuffPost Brasil. Aos 14 anos, surgiu a oportunidade de pintar a primeira tela na escola para uma exposição. Era o desenho de um gatinho pegando fogo. O quadro ganhou destaque e foi até capa do jornal local no dia seguinte, mas acabou sendo roubado. Nascia ali uma paixão pelas telas, e com ela um certo receio em mostrá-las para o mundo.

Eu fazia meus desenhos, mas não gostava de mostrar pros outros, era muito tímida, fazia muito pra mim, até que eu decidi fazer grafite.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Cara, existe machismo sim, como em qualquer área. Se você for num evento com cem artistas, só vai encontrar umas cinco mulheres."

Apesar de gostar muito da sua arte, Brixx não pensava em si como uma artista. Em 2010, no seu aniversário de 23 anos, ganhou um "dinheirinho" dos avós e, decidida a sair da sua zona de conforto, resolveu gastá-lo com tinta spray. Foi para uma rua comercial de Taguatinga, cidade satélite do DF onde mora, e pintou sua assinatura: Brixx. "Quando eu decidi ir pra rua foi para vencer os meus medos, para eu poder interagir com as pessoas. Pensei: eu não vou ter como me esconder, vou ter que aprender a escutar as críticas. Logo no primeiro dia chegou um rapaz e disse 'tenho umas latas aqui na mochila, posso pintar com você?'. Foi maravilhoso, comecei a conhecer pessoas, fiz novos amigos e aprendi a me relacionar melhor com os outros".

Sempre tive certeza que eu queria fazer e trabalhar com arte, mas não que eu fosse ser artista.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Brixx é completamente autodidata e seu caminho artístico foi traçado na prática.

Ela começou a desenvolver sua arte e levar mais a sério o seu trabalho. E como todo artista, Brixx ainda enfrenta a instabilidade como maior obstáculo para dar continuidade à sua profissão. "É bem difícil e eu ainda estou no processo de seguir tentando. Em um mês vai aparecer mais trabalhos e é muito legal, mas talvez no seguinte não". Depois de ficar 2 anos tentando viver apenas da sua produção, ela recentemente arrumou um emprego formal em uma livraria, para conseguir ter mais estabilidade financeira, e seu desafio agora é conseguir organizar a nova demanda com a produção artística, que não é pouca.

Brixx é completamente autodidata e seu caminho artístico foi traçado na prática. "Acho que um dos grandes desafios de ser artista é desenvolver uma identidade para o público saber que você é você. E precisa estudar o tempo todo, desenvolver coisas novas, mas não deixar de ter sua marca", comenta. No ano passado, ela foi chamada por curadores colombianos para trabalhar em um projeto de grafite com artistas da América Latina, com apoio do governo da Colômbia e da Aliança Francesa. E foi pra Bogotá grafitar. "Achei que era não reconhecida, mas lá estava eu indo pra outro país pintar parede. É um sonho quando esse tipo de coisa acontece, que eu percebo o quanto que eu faço é importante".

Demorei muito tempo pra acreditar que eu tinha potencial. Mas não consigo me imaginar fazendo outra coisa, é o que eu amo fazer.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Com seu primeiro spray, Brixx foi para uma rua comercial de Taguatinga, cidade satélite do DF onde mora, e pintou sua assinatura.

Ela usa as cores para delimitar os espaços em seus desenhos. No início, gostava de desenhar monstros, que traduziam muitas vezes seus sentimentos; depois foi a vez das personagens com máscaras brancas, reflexos dela mesma. "Eu sempre fui muito cobrada por ser tímida, as pessoas não sabem lidar com a introversão e eu sentia que esperavam outra postura de mim, então para conseguir ser aceita eu tinha que colocar uma máscara pra conviver com os outros. Com isso, tudo o que eu desenhava tinha essa cara branca, sem expressão, como se todos nós precisássemos ser neutros", aponta.

Quando fiz 30 anos, decidi tirar a máscara. Eu queria mudar algumas coisas em mim, queria sair desse afastamento. E minha arte mudou.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"É um sonho quando esse tipo de coisa acontece, que eu percebo o quanto que eu faço é importante."

"Consegui aceitar que as pessoas são diferentes, que eu sou isso aqui, e se as pessoas não conseguem conviver comigo, o problema não é meu", conta a artista. Na mesma época, ela fez uma exposição com 30 obras, e a última delas, finalmente, tirava a máscara. A tela hoje é destaque na sala do apartamento que Brixx divide com a mãe. Depois disso, novas personagens começaram aparecer em seus desenhos e grafites. Mulheres de todas as formas e cores surgiram. E ela também começou a expandir seus materiais e levou as personagens para acessórios em cerâmica, mochilas, bolsas, e, em breve, pretende se aventurar no vestuário. Já começou, inclusive, a fazer aulas de costura. "Gosto muito de trabalhar com suportes novos, de experimentar onde eu posso colocar meu trabalho", aponta.

O respeito que eu quero só consigo se tem um cara pintando comigo no muro e isso é péssimo. Mas precisamos resistir.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Longe dos muros da timidez, agora eles fazem parte daquilo que ela produz e coloca no mundo em forma de arte.

Os muros continuam a fazer parte de sua rotina e inspiração. Ainda que o caminho para as mulheres seja um pouco mais difícil. "Cara, existe machismo sim, como em qualquer área. Se você for num evento com cem artistas, só vai encontrar umas cinco mulheres. Então, você tem que ralar muito mais pra se destacar. Mas, as meninas têm se ajudado muito, saímos pra pintar juntas. E temos umas desvantagens, tipo não rola de sair pra pinta sozinha à noite. Às vezes nem de dia, os caras mexem, param, tentam pegar sua tinta. O respeito que eu quero só consigo se tem um cara pintando comigo no muro e isso é péssimo. Mas precisamos resistir".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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