POLÍTICA
30/06/2018 09:07 -03 | Atualizado 30/06/2018 09:07 -03

PR, o partido que está dividido entre apoiar Bolsonaro ou PT na eleição presidencial

Ala do partido tenta aliança com PT, e bancada da bala na sigla quer ser vice de Bolsonaro.

Jair Bolsonaro e PT de Lula são as duas opções de apoio do PR, que ainda não fechou questão.
Montagem/Getty Images
Jair Bolsonaro e PT de Lula são as duas opções de apoio do PR, que ainda não fechou questão.

Com 41 deputados na Câmara, o PR oscila entre 2 extremos na articulação de alianças para a corrida presidencial.

Uma ala do partido defende lançar o empresário Josué Gomes tendo um vice indicado pelo PT. Já a bancada da bala dentro da sigla dá como certa a indicação a vice na chapa com Jair Bolsonaro (PSL).

O nome preferido desse grupo é o do senador Magno Malta (PR-ES), que por enquanto mantém decisão de tentar a reeleição. Em 2010, ele registrou a 2ª maior votação para o Senado pelo Espírito Santo, com 1.285.177 votos.

"Magno Malta só vai decidir na prorrogação do 2º tempo", afirmou ao HuffPost Brasil o deputado Capitão Augusto (PR-SP), principal articulador da união entre o PR e o PSL de Bolsonaro.

Outra ala da legenda, por sua vez, tem esperança em uma composição com o PT. O arranjo é o oposto de uma articulação anterior que previa Josué Gomes como número 2 na chapa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente. Seria uma nova versão da união do petista com o pai do empresário, José Alencar, vice nos 2 mandatos de Lula.

Os planos mudaram diante da prisão de Lula, em 7 de abril. O pré-candidato ao Palácio do Planalto foi condenado em 2ª instância por corrupção e lavagem de dinheiro e pode ser considerado inelegível pela Lei da Ficha Limpa. "Nós não podemos ir com uma candidatura sabendo que ela não vai ser efetivada no final", afirmou ao HuffPost Brasil o líder do PR na Câmara, deputado José Rocha (PR-BA).

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Ficho de José Alencar, Josué Gomes é defendido como presidenciável em chapa com o PT.

"O Josué, quando se filiou ao nosso partido, foi aconselhado por Lula, na imaginação de reeditar aquela primeira chapa da eleição, com o pai dele [José Alencar]. O Lula o aconselhou a sair do MDB e vir para o PR. Aí o Lula tá tendo esse problema todo e certamente ele não poderá ser candidato, então seria bom que a chapa fosse mantida ao inverso. O Josué como candidato e um candidato do PT na vice", defendeu Rocha.

Nesse cenário, a aposta é no ex-governador da Bahia Jaques Wagner como vice. "O Wagner se encaixaria muito bem porque é do Nordeste. O Josué no Sul, então casaria aí", afirmou Rocha. De acordo com o deputado, o petista não tem intenção de ser cabeça de chapa e se mostrou aberto à aproximação com o PR. "Encontrei com Wagner e ele demonstrou que poderia conversar nesse sentido", completou.

Defensores da união do PR com o PT apostam que a movimentação agregaria partidos do centrão, como PP, PRB e Solidariedade, além do DEM.

Pesam contra essa articulação, contudo, a resistência petista em abrir mão do nome de Lula à frente da corrida eleitoral e resultados de pesquisa interna do PR sobre Josué. Sondagem feita em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador revelou que ele é pouco conhecido pelos brasileiros.

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Ex-ministro de Lula e Dilma, Jaques Wagner é considerado como vice de Josué Gomes numa eventual chapa PR-PT.

Plano B para vice de Bolsonaro

Parte do PR está confiante de que Magno Malta pode mesmo ser vice de Bolsonaro, acredita Capitão Augusto. Mas, caso seja necessário chegar a outro nome, é essencial que o plano B seja "ficha limpa", ou seja, que não seja alvo de escândalos de corrupção. "A campanha do Bolsonaro é de honestidade, moralidade", afirmou o deputado.

Capitão Augusto defende uma união entre as duas legendas ainda que o senador não seja vice na chapa. De acordo com ele, a popularidade de Bolsonaro pode atrair votos para aumentar a bancada do PR na Câmara. Em troca, o partido aumentaria o tempo de propaganda de rádio e televisão do presidenciável e a capilaridade nos estados.

Ainda não há consenso sobre outras características do perfil de vice, caso não seja Malta. Entre as possibilidades estudadas estão um político do Nordeste, uma mulher ou um militar, em busca de aumentar as intenções de voto de Bolsonaro.

De acordo com pesquisa Datafolha mais recente, o pré-candidato tem 11% de intenções de voto entre as mulheres, no cenário com Lula na disputa. O índice é de 23% entre homens. Já no Nordeste, por sua vez, Lula domina, com 48% da preferência.

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Senador Magno Malta ainda é o preferido na bancada da bala do PR para ser vice de Bolsonaro.

Bolsonaro x Ficha Limpa

A movimentação do plano B é uma resposta às críticas quanto a aproximação de Bolsonaro com Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão e um dos articuladores da aliança que ajudou o ex-presidente Lula a chegar ao Palácio do Planalto. Apesar de não ser mais presidente do PR, Valdemar continua influente no partido e tem participado das articulações eleitorais.

A moralidade do próprio Bolsonaro também tem sido contestada nos últimos meses. No início do ano, o deputado constava como um dos parlamentares com imóvel próprio em Brasília (DF) que recebia auxílio-moradia da Câmara. Reportagem da Folha de S. Paulo também revelou aumento patrimonial do presidenciável e de familiares.

O deputado também responde a ações na Justiça, embora haja dificuldade de enquadrá-lo na Lei da Ficha Limpa. Ele responde por incitação ao estupro por ter dito que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) "não merecia ser estuprada".

Bolsonaro também foi denunciado por racismo contra quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs durante palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro.

A Lei da Ficha Limpa não prevê inelegibilidade para condenação de crimes contra a paz pública (incitação ao crime de estupro) e contra a honra (injúria). De acordo com o texto, não podem se candidatar, por 8 anos, aqueles condenados por como lavagem de dinheiro, contra a administração pública, tráfico de drogas e tortura, dentre outros.

Alguns juristas, contudo, defendem que a inelegibilidade poderia ser aplicada a partir de uma interpretação do artigo 15º da Constituição. De acordo com o texto, a cassação de direitos políticos se dará em caso de "condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos".