01/07/2018 00:00 -03 | Atualizado 02/07/2018 09:28 -03

Heloisa Schurmann: Quando o amor em família gera combustível para navegar

Com três filhos, ela e o marido encararam a aventura de morar em um barco por dez anos. "Era um sonho conjugado e levávamos as crianças, parávamos em uma praia, acampávamos e foi nosso início."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Heloísa Schurmann é a 116ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Se fosse um pássaro, ela gostaria de ser um albatroz: "Porque eu ia voar por aqueles oceanos grandes do mundo". Carioca, foi criada na beira da praia a vida inteira, mas nunca tinha navegado. "Meu sonho, sempre foi esse... ficava sentada na pedra do Arpoador, olhava no horizonte e pensava o que tinha lá atrás, para onde vai esse horizonte". Heloísa Schurmann, velejadora e escritora, chegou lá pelos mares mesmo. Passou o horizonte, deu a volta nele. Até hoje, foram três voltas ao mundo velejando com sua família. Ela sabe que a ideia pode parecer loucura – e na época todos disseram que eles eram loucos mesmo. Mas não foi assim de uma hora para outra que saiu navegando por aí. Tinham um sonho. Mas para torna-lo realidade sabia que precisava de um tempo. No caso, foram dez anos.

Já com dois filhos, Heloisa e seu marido Vilfredo ganharam da mãe dela uma viagem ao caribe. As crianças ficariam e iriam só os dois. "Fomos e foi aquela coisa... só nós, sem as crianças! E um dia estamos na beira de um cais e vimos um barco a vela passar com um cartaz 'passeio de barco a 10 dólares', nunca me esqueço e falei: 'Vamos'? E ele: 'vamos'". No dia seguinte, os dois foram os primeiros a chegar para o passeio, muito animados. Entraram no barco com o pé direito e foi quando aconteceu. "Aquilo já tinha uma coisa de Iemanjá, Netuno e as sereias dizendo que a gente estava enfeitiçado. Ficamos apaixonados e maravilhados. Vilfredo falou que íamos voltar um dia com o nosso barco."

Não era só o sonho, tinha que colocar o pé no chão e ver como a gente ia fazer para isso acontecer. E foi o que fizemos. Devagar, fomos economizando, não éramos ricos.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Heloísa Schurmann, velejadora e escritora, chegou lá pelos mares mesmo. Passou o horizonte, deu a volta nele.

Poderia ser conversa, papo furado, aquela coisa de quem ficou animado com as férias e uma novidade. Mas não era. Nessa época os dois moravam em Florianópolis e não podiam estar em ambiente melhor para começar a desenvolver esse projeto. Quando voltaram, iniciaram o planejamento. "Foi aquela coisa de pensar: vamos? Então vamos! Quando vamos sair? Decidimos que seria quando nosso filho do meio fizesse dez anos. Não era só o sonho, tinha que colocar o pé no chão e ver como a gente ia fazer para isso acontecer. E foi o que fizemos. Devagar, fomos economizando, não éramos ricos, morávamos em uma casa de pescador a 25 km da cidade."

Conseguiram comprar o primeiro barco da família, o Polvo. Encostavam a embarcação na frente de casa e já começaram a aventura. "A gente tinha um quintal para aprender a velejar e nos comprometemos a aprender os dois juntos. Não adiantava ser só o sonho dele ou meu. Era um sonho conjugado e levávamos as crianças, parávamos em uma praia, acampávamos e foi nosso início. Nasceu nosso terceiro filho, continuamos velejando e compramos nosso primeiro veleiro." Nesses anos, seguiram focados. Participaram de regatas, melhoraram o aprendizado e aproveitavam todas as férias, natal e feriado para colocar a família a bordo. "Não tinha outra viagem que não fosse no barco. E os meus filhos cresceram envolvidos nisso, a gente falando sobre o que íamos fazer, recortávamos juntos matérias de revistas sobre conserto de motor, de vela, manutenção e fomos fazendo um fichário, um arquivo desse material, dos lugares que íamos passar."

Era um sonho conjugado e levávamos as crianças, parávamos em uma praia, acampávamos e foi nosso início.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Foi aquela coisa de pensar: vamos? Então vamos! Quando vamos sair?"

Realmente virou um sonho de todos eles. Até que em 1984 a família Schurmann embarcou para essa aventura. Encararam conhecer o que tinha do outro lado do horizonte. Após uma década de preparação, sempre lembrando. "Tinha toda uma organização por trás disso, não era pegar a mala e ir e tínhamos a responsabilidade da educação das crianças. Foi a maior dificuldade, falavam que eu ia ser presa e foi o maior desafio."

Heloisa já era professora de inglês. Durante todos os anos em que ficou no mar virou professora de tudo. Encheu o barco com 18 volumes de uma enciclopédia e encarou mais essa missão. Após um ano, conseguiu inscrever os filhos em uma escola à distância, por correspondência. "É uma escola que foi uma revolução e tinha muita pesquisa. Era uma coisa de 'se eu fosse um pássaro eu queria ser...' 'O meu herói na vida é...' tinham 20 redações por mês." Faziam a própria rotina de estudo, mas sempre com disciplina. Assim, os três estudaram e se formaram no mar.

Tinha toda uma organização por trás disso, não era pegar a mala e ir e tínhamos a responsabilidade da educação das crianças. Foi a maior dificuldade, falavam que eu ia ser presa e foi o maior desafio.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Até que em 1984 a família Schurmann embarcou para essa aventura.

E o que começou como uma aventura que duraria três anos se transformou em uma viagem de dez. Ao longo do tempo, os dois filhos mais velhos desembarcaram para fazer faculdade, um nos EUA e um na Nova Zelândia. E a família cresceu. "Nosso barco quebrou e precisamos voltar para nova Zelândia para fazer um mastro novo e conhecemos uma família velejadora, ela brasileira e ele neozelandês e ela estava grávida de uma menina que viria a ser minha filha." Alguns anos depois, já após essa primeira grande viagem, o casal Schurmann adotou Kat. A mãe havia morrido de complicações do vírus HIV – que o marido e Kat também tinham. Aos três anos, ela foi adotada pelos Schurmann. Os médicos deram seis meses de vida para a menina. Ela viveu até os 13. Boa parte deles também no barco. Mais uma vida que embarcou com eles para atravessar os horizontes.

E Heloisa sabe o quanto atravessou realmente. "Não é que eu viva uma vida de privilégio, mas existe uma vida de sonhos a serem realizados que você faz acontecer. Uma vez que você faz o que você gosta com paixão deixa de ser um trabalho e não ter medo de mudar [também é transformador]. Os horizontes são enormes, as coisas que você pode fazer são muito mais especiais do que se você tivesse ficado."

Não é que eu viva uma vida de privilégio, mas existe uma vida de sonhos a serem realizados que você faz acontecer. Os horizontes são enormes, as coisas que você pode fazer são muito mais especiais do que se você tivesse ficado.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Não é que eu viva uma vida de privilégio, mas existe uma vida de sonhos a serem realizados que você faz acontecer."

É como funciona para ela e sua família. Como sempre foi. E sabe que essa história de aparente loucura que começou anos atrás inspira muita gente. E trás para a superfície uma questão que não tem relação com as descobertas nos oceanos. "Tem muito a ver com a história do amor em família. A gente quebra o pau, mas é o amor. É simples, uma palavra pequena, mas está fora de moda o amor verdadeiro, de você dizer que gosta do que você faz, gosta de quem está ao seu redor, eu amo minha família e tudo que a gente faz é com muito amor e acho que é uma inspiração muito forte."

Eu amo minha família e tudo que a gente faz é com muito amor e acho que é uma inspiração muito forte.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A próxima viagem começa com uma pergunta simples: "vamos?".

E já planejam uma nova viagem, claro. A última que fizeram foi para a Patagônia e na próxima a ideia é ir atrás de soluções e iniciativas para resolver o problema do lixo nos oceanos. Mais uma jornada que logo será iniciada. E que começa como lá atrás, com uma pergunta simples: "vamos?" Alguém da família já está ali pronto para responder: Vamos.

Abrem as asas e voam para além do horizonte. Quer dizer, voar ainda não. Por enquanto seguem como já sabem. E sempre juntos.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC