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29/06/2018 10:03 -03 | Atualizado 29/06/2018 10:04 -03

Queridos profetas do apocalipse: Não descartem a Alemanha

A Alemanha é mais que a Copa do Mundo, a crise de Merkel e o escândalo das emissões de diesel.

Alemães estão em sofrimento político e esportivo.
Montagem/Bloomberg via Getty Images
Alemães estão em sofrimento político e esportivo.

Se você examinar a alma da Alemanha um dia depois de nossa saída da Copa do Mundo, vai ver várias nuvens negras. Há um clima de catástrofe, composto por tristeza, resignação e raiva.

À primeira vista, parece adequado que o governo da chanceler Angela Merkel possa acabar de forma abrupta em alguns dias. E que a Alemanha possa entrar numa crise política que não vemos desde o fim da Segunda Guerra: partidos liberais democráticos em ruínas e populistas em ascensão.

Além disso, o estandarte da economia alemã foi atingido: a indústria automobilística, antes conhecida por seus carros confiáveis, agora também produz muitos escândalos.

As vitórias não são mais garantidas: não mais para a seleção, não mais para a indústria automobilística e também não mais para o Ocidente livre, nem sequer para a sua líder de fato, Angela Merkel. Quando ela indica o caminho, nem todos a acompanham. Isso é verdade na Europa e também dentro de seu próprio partido.

Mas ainda é cedo demais para cenários apocalípticos.

Nasce a Alemanha cool

Primeiro, o futebol: o ex-técnico Jürgen Klinsmann e seu sucessor, Joachim Löw, trouxeram a alegria e a beleza para a seleção depois de mais de uma década de times clínicos, mas que jogavam feio.

As táticas de ambos trouxeram de volta a beleza e a paixão.

O futebol alemão ficou moderno e encheu o país de orgulho. Não só por causa do sucesso — essa era a expectativa —, mas porque esse sucesso era de encher os olhos.

E também porque Klinsmann e Löw entendiam como fundir esse novo jogo bonito com as chamadas virtudes alemãs. Bastian Schweinsteiger sangrando na final da Copa de 2014 virou o símbolo disso.

Talvez possamos resumir em uma fórmula: nos longos e angustiantes anos antes de Klinsmann e Löw, o futebol do país lembrava o clichê dos turistas alemães, circulando de meia e papete pelas cidades italianas.

Todo mundo os aceitava e respeitava, afinal de contas eles sempre tinham mais euros no bolso que os outros — e produziam carros excelentes.

Com "Klinsi" e "Jogi", o alemão-modelo passou a vestir ternos de estilista e virou cosmopolita e sexy. Ele tinha senso estético. Nascia a Alemanha cool, junto com a capital, Berlim, a cidade mais desejada e descolada do planeta.

Nada disso, caros profetas do apocalipse, se perdeu com a eliminação da Alemanha na Copa.

Por causa de Klinsi e Löw, vai continuar sendo difícil derrotar o futebol alemão. Isso se deve às melhorias nas categorias de base, cujas táticas e estilos mais livre já chegaram à Bundesliga.

O próximo técnico da seleção não vai aceitar o jogo de trombadas da época de Völler, Vogts e Ribeck. Nesse quesito, a Alemanha está à altura do Brasil.

Merkel modernizou a Alemanha

Angela Merkel é para a política o que Klinsi e Jogi foram para o futebol.

O que o ex-chanceler Gerhard Schröder começou com seu histórico projeto vermelho-verde (a aliança entre social-democratas e verdes) teve continuidade sob Merkel. Ela modernizou seu partido e também o país.

Merkel começou a Energiewende, a transformação da matriz energética do país, passando da energia nuclear às fontes renováveis. Também aboliu o serviço militar obrigatório, liberalizou as leis de casamento — apesar de ser pessoalmente contra — e manteve as fronteiras abertas durante a crise dos refugiados.

É verdade: a mudança na energia está atravancada, o Bundeswehr (as forças armadas alemãs) não são as mais poderosas da Otan e a política de refugiados de Merkel está sob ataque, especialmente entre os aliados da chanceler.

Mas, aqui, o que é verdade no futebol também se aplica: esses projetos e decisões são praticamente irreversíveis.

- A fonte de energia na Alemanha está mudando – lentamente, mas está. Em certos dias, toda a eletricidade vem de fontes renováveis;

- O fim do serviço militar obrigatório mudou os limites do que o Estado pode fazer em termos de intervenção na vida dos jovens;

- Casamento para todos e nossa política de refugiados representam uma Alemanha liberal, cosmopolita e amigável, que não vai desaparecer de um dia para o outro. Mesmo que Merkel não seja mais a líder do governo.

A Alemanha é uma gigante do 'soft power'

Três quartos da população ainda apoiam uma solução europeia na disputa entre os parceiros da coalizão de governo em relação aos refugiados e candidatos a asilo — e, portanto, apoiam a política de Merkel.

Ou seja: em 2018, a Alemanha é um gigante do "soft power", graças em parte a Merkel. E também às conquistas recentes do futebol alemão.

Esse é o legado de Joachim Löw e de Angela Merkel.

Acrescente-se a isso o "hard power" que a Alemanha ainda detém. Acima de tudo, isso significa uma economia forte, que bate recordes de crescimento e garante ao país mais influência política global do que 10 bombas nucleares.

Esse "hard power" também inclui a indústria automobilística.

É claro que ela fez basicamente tudo errado no escândalo das emissões de diesel e perdeu a confiança dos consumidores. Mas, se você olhar para os produtos que vêm por aí, vai perceber que as empresas aprenderam a lição. As montadoras alemãs estão planejando um ofensiva elétrica com bilhões em investimentos.

É muito provável que elas atendam às expectativas dos consumidores do mundo inteiro em relação aos carros alemães: eles serão os de melhor qualidade no mercado.

Os profetas do apocalipse podem curtir dias assim. Mas a alegria deles vai durar pouco.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost Alemanha e traduzido para o português.