LGBT
28/06/2018 11:42 -03 | Atualizado 28/06/2018 12:06 -03

Como apoiar uma pessoa querida que está em transição de gênero

Veja alguns conselhos de como você pode realmente ajudar.

Illustration: HuffPost Photos: Getty

A decisão de fazer uma transiçãodegênero – e viver uma identidade verdadeira, autêntica – pode ser uma jornada difícil, mas que traz recompensas. O processo pode vir acompanhado de uma verdadeira montanha-russa de emoções, e o apoio das pessoas queridas pode transformar a experiência inteira da pessoa que está fazendo a transição.

"As coisas mais simples podem ser as que significam mais para uma pessoa que tem a coragem de mudar sua identidade e transformar-se na pessoa que é seu destino ser", explicou Audrey Hope, terapeuta especializada em relacionamentos e combate a dependências que trabalha para a Seasons Rehab, em Malibu, Califórnia. Para ela, é extremamente importante contar com um grupo de pessoas que deem apoio.

Veja algumas coisas que, segundo especialistas, você pode fazer para apoiar uma pessoa nesse momento crucial de sua vida.

1. Eduque-se

Aprenda sobre as três dimensões do gênero – corpo, identidade e expressão – e como essas dimensões atuam juntas para formar o gênero de uma pessoa. Essa é a recomendação de Lisa Kenney, diretora executivo da organização Gender Spectrum, que trabalha para criar um mundo mais inclusivo para as pautas de gênero. "E não deixe de entender que gênero não é a mesma coisa que orientação sexual."

A GLAAD, a maior organização de defesa LGBTQ na mídia, também oferece recursos de informação para pessoas transgênero e seus amigos e familiares. Além disso, há livros sobre esse assunto que podem ser úteis, como Transgender 101, Transgender History e a autobiografia She's Not There: A Life in Two Genders.

2. Faça perguntas

"Pode ser útil perguntar à pessoa que você ama: 'O que você quer que eu saiba a seu respeito?'", disse Shamyra Howard, terapeuta sexual e de relacionamentos, de Baton Rouge, Louisiana. "As pessoas são especialistas em sua própria vida. Assim, sempre é melhor buscar a informação da própria fonte."

Segundo ela, uma coisa positiva é perguntar que tipo de apoio a pessoa gostaria de receber de você. "Pergunte com sinceridade 'como posso te ajudar?', com tanta frequência quanto você está disposto a ajudar de fato."

3. Não duvide da pessoa

"Se uma pessoa se assume como transgênero ou de gênero não conforme, significa que a dissonância e a disforia de estar em um corpo com o sexo biológico errado são tão grandes que elas resolvem sair do armário, mesmo que isso coloque sua segurança em risco", comentou Rachel Oppenheimer, psicóloga licenciada e dona da Therapy Hive e do Upside Therapy and Evaluation Center. "Quando ela é ouvida com dúvidas e questionamento, isso pode exacerbar a tristeza e a depressão que acompanham a disforia de gênero."

E, de quebra, fique atento para a linguagem que você emprega. Às vezes algumas falas bem intencionadas, coisas que você diz apenas para iniciar um papo, podem acabar tendo efeito inverso ao desejado.

"Tome o cuidado de não perguntar a uma pessoa transgênero quando ela decidiu ser trans, porque os transgêneros nunca decidem simplesmente que querem ser trans – eles são, e pronto", explicou Jennifer Burroughs, cuja companheira, Lawren Burroughs, documentou sua transição na série da TLC Lost in Transition.

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4. Chame-a por seu nome preferido e seu pronome correto

Oppenheimer sugere que você pergunte abertamente a seu amigo(a) em processo de transição: "Como você preferiria ser chamado? Como quer que eu te chame? E que pronomes você quer que eu use?" Isso ajudará a evitar já desde o começo os possíveis erros de atribuição de gênero. E não teça premissas sobre a identidade da pessoa.

"Se a pessoa escolhe um nome muito feminino ou muito masculino, isso não quer dizer que ela queira necessariamente usar os pronomes correspondentes. Talvez se sinta mais à vontade com pronomes de gênero neutro", explicou Oppenheimer. "Você pode acabar revertendo ao uso do nome ou gênero errado, simplesmente porque isso já é hábito e não é fácil se lembrar dessas mudanças quando está no meio de uma conversa, especialmente no começo."

Mas, em vez de continuar a descrever a pessoa como sendo do outro gênero ou continuar a usar o nome "morto", que não é mais o nome da pessoa, Oppenheimer sugere que você reconheça o erro e o corrija.

5. Evite usar terminologia que fere

Jennifer Burroughs recomendou que as pessoas façam uma busca rápida no Google para identificar palavras-gatilho que ofendem. Palavras como "traveca", por exemplo, amesquinham a pessoa. "É importante fazer sua parte e evitar utilizar essas palavras que ferem", ela diz.

6. Não confunda identidade de gênero com orientação sexual

"Essa é uma coisa que muitas vezes provoca confusão. Já ouvi isso sendo descrito assim: 'Identidade sexual é com quem você vai para a cama. Identidade de gênero é quem você é quando vai para a cama com alguém.'", disse Openheimer. Ela observou que tanto o gênero quanto a sexualidade se situam em um espectro, de modo que pode haver variações e mudanças que ocorrem. Se uma pessoa muda sua identidade de gênero, sua identidade sexual não precisa necessariamente mudar.

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7. Evite estereótipos

"Uma pessoa que fez a transição não precisa obrigatoriamente curtir todas as coisas estereotipicamente associadas a seu gênero", observou Oppenheimer.

Os interesses da pessoa – quer sejam moda, esportes, carros, maquiagem ou qualquer outra coisa – não dependem da identidade de gênero da pessoa.

8. Não compare

"A não ser que você já conhecesse a pessoa realmente muito bem antes, é falta de educação pedir fotos e tentar traçar comparações. Isso pode ser prejudicial", disse Jennifer Burroughs.

Ela explicou que traçar comparações do tipo antes e depois da transição também não é ideal. "Isso aconteceu muito com Lawren", ela explicou. "Como Larry era um homem muito bonito, as pessoas faziam comentários do tipo 'meu Deus, por que você foi fazer isso? Você era um homem lindo.' Isso magoa Lawren."

9. Acompanhe a pessoa às consultas

"Ficar sentado sozinho numa sala de espera de um consultório médico pode ser deprimente e intimidante. Abrir-se para um médico e dizer quem você é pode dar medo, especialmente quando esse professional é o caminho pelo qual você terá que passar para fazer a transição médica", comentou Alice Sattler, enfermeira e parteira que presta atendimento a indivíduos transgêneros na Connectus Health. "Como provedora de atendimento médico, sempre acho positivo quando vejo pacientes que estão recebendo o apoio de seus amigos e entes queridos."

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10. Incentive a pessoa a conversar com um profissional de saúde mental

Fazer terapia pode ser tremendamente útil para ajudar a pessoa a superar obstáculos que possam surgir durante sua transição. Grupos de apoio também podem dar ajuda tremenda. "A melhor coisa para a pessoa que está fazendo a transição e a pessoa que a está apoiando é ouvir as experiências de outras pessoas que já viveram isso", explicou Jennifer Burroughs.

Lawren Burroughs confirmou: "Uma coisa que me ajudou muitíssimo foi ter Jennifer ao meu lado nas consultas com o endocrinologista e com minha terapeuta. É muito reconfortante ter alguém que se dispõe a acompanhar você nesse percurso e segurar sua mão."

11. Procure apoio para você mesmo, se sentir que precisa

Molly Conway, publicitária de Berkeley, Califórnia, cujo cônjuge é transgênero, diz: "Há uma certa dose de tristeza ou luto pela qual é preciso passar quando você é membro da família ou amiga de uma pessoa trans".

A experiência que Conway viveu lhe mostrou que o melhor é criar tempo e espaço para trabalhar suas próprias emoções, sem colocar essa carga sobre a pessoa que está fazendo a transição.

"Dê-se esse tempo. Faça terapia. Marque uma caminhada regular com um amigo. Escreva um diário. Faça o que precisar fazer, mas não coloque todo o peso de sua dificuldade e seu processo emocional nas costas da pessoa que está fazendo a transição", ela aconselhou.

Com #TheFutureIsQueer, o HuffPost destaca ao longo de um mês a condição queer, não apenas como identidade, mas como ação no mundo. Saiba mais sobre nossa cobertura do Mês do Orgulho.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.