28/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 28/06/2018 00:00 -03

Vanessa Almeida: Ela superou preconceitos e assumiu nova vida como manicure

Jovem abandonou sonho de fazer faculdade para se dedicar à maternidade, mas reencontrou sua autonomia: "Eu tinha um preconceito com a profissão, falava que jamais ia ser, queria ser muito mais."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Vanessa Almeida é a 113ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Que a carinha não te engane. Não se trata de uma garota frágil. Tem um jeito meigo, é verdade. E isso só a torna mais simpática e difícil não sorrir para ela durante a conversa. O que é ótimo para os negócios. Vanessa Almeida, 28 anos, é manicure. Hoje, com muito orgulho. Fala em alto e bom som, olhando no olho, bem articulada. Como se falasse em letras maiúsculas agora. É sua profissão. É onde se encontrou. É quem ela é. Após desistir do sonho de fazer odontologia para se dedicar à maternidade, superou os preconceitos – dos outros e dela mesma – e conseguiu montar seu próprio espaço para fazer unha dentro de sua casa, em Pirituba. E já deixa claro que isso é provisório: "Eu não vou ficar aqui não, imagina! Vou ter um espaço power."

Por enquanto atende no quarto que era "da bagunça dos filhos". Vanessa tem dois: uma menina de sete anos e um menino de quatro. Quando engravidou a primeira vez tinha acabado de passar na faculdade para odontologia. Mas não conseguiu iniciar os estudos. "Descobri que estava grávida e desisti de tudo. Ou eu era mãe ou eu fazia faculdade de odonto. Não dava para fazer as duas coisas naquele momento. Fiquei com o sonho frustrado por muito tempo até eu me encontrar."

Descobri que estava grávida e desisti de tudo. Ou eu era mãe ou eu fazia faculdade de odonto.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"E eu fiquei meio assim, falava que não queria ser manicure de fundo de salão, não me via daquele jeito, eu sempre tive sonho grande."

Nessa época ralava como vendedora em lojas na Santa Ifigênia sempre de olho no sonho de fazer faculdade de odontologia. Mas interrompeu um pouco os planos. Casou, teve a primeira filha. Depois se separou, casou novamente e nasceu seu segundo filho. "Eu ficava em casa só cuidando dos meus filhos e eu me sentia desvalorizada porque sempre trabalhei, comecei aos 15 anos, e me vi em casa com duas crianças sem fazer mais nada."

Assim, com o incentivo de familiares e amigos começou a pensar nas possibilidades que tinha. Sempre teve habilidade para fazer unha, mas nunca pensou em tratar isso como algo profissional. "Eu fazia a minha unha em salão e chegava em casa e tirava tudo e fazia de novo eu mesma. Olhava no YouTube, via como lixar e eu mesma ia fazendo os formatos, testando. Gostava de fazer desenho. Fazia a unha da minha mãe, das minhas amigas... eu lá com meu alicate de plástico. Sempre gostei, sempre reparei, mas não via isso como uma possibilidade de profissão."

Eu tinha um preconceito com a profissão, falava que jamais ia ser, queria ser muito mais.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Vanessa tem dois filhos: uma menina de sete anos e um menino de quatro.

Mas estava realmente precisando encontrar algum trabalho e recebeu essa sugestão. "Uma amiga entrou em um curso de manicure e ficava falando para eu fazer. E eu fiquei meio assim, falava que não queria ser manicure de fundo de salão, não me via daquele jeito, eu sempre tive sonho grande. Eu tinha um preconceito com a profissão, falava que jamais ia ser, queria ser muito mais."

Venceu o preconceito e começou a fazer o curso. Gostou e reviu seus conceitos. "Abri minha cabeça, vi que não era só aquilo que eu pensava. Eu ia ao salão e a manicure sempre lá quietinha, não era valorizada. Mas vejo que quem faz o salão é a manicure, porque você vai toda semana fazer a unha e não cortar o cabelo. Mas demorou para eu enxergar esse lado. Ficava sem graça, tinha vergonha de falar, me escondia. Hoje eu escancaro para todo mundo: eu sou manicure". Assumiu a profissão. Passou a querer melhorar, aprender as novidades, continuou com essa coisa de sonhar grande. "Comecei a seguir umas manicures top maravilhosas [nas redes sociais]. Meu olho encheu e comecei a falar 'eu quero isso também! Eu quero não, eu vou ser!' E estou correndo atrás do que eu quero."

Mas vejo que quem faz o salão é a manicure, porque você vai toda semana fazer a unha e não cortar o cabelo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O negócio deu tão certo que, neste ano, ela foi uma das escolhidas para a campanha da Beauty Fair, feira de beleza.

A mudança de vida começou há cerca de três anos. No início, fez muita unha de amiga, fez unha de graça e foi pegando experiência. Atendia na sala da sua casa mesmo, mas logo começou a ver que podia profissionalizar um pouco o negócio. "Vi que eu precisava de mais! Já queria montar minha sala, mas as coisas não são tão fáceis. Eu tinha um quarto livre aqui em casa, meus filhos dormem juntos então eu peguei e fui montando... ganhei uma mesa em troca de fazer a unha de uma cliente, um salão em que eu trabalhei fechou e comprei a poltrona, fui pegando aos poucos."

Realmente descobriu um mundo novo nesse mercado de unha. Muito maior do que imaginava. "Fico muito ligada, o dia inteiro de olho, sigo as melhores manicures do Brasil, sigo todo mundo para saber de técnica diferente. Tem uma infinidade de unha que ainda não sei fazer, mas eu vou fazer". E todo o dinheiro que sobra ela usa para se atualizar cada vez mais. Quer muito montar sua salinha em uma avenida movimentada ali de Pirituba – e sabe que vai chegar lá – mas aprendeu que tudo tem o seu tempo. "Por enquanto invisto em mim. Faço cursos porque se eu não tiver um padrão de unha eu não cresço. Então temos que ter conhecimento antes de ter um negócio porque senão eu posso até abrir, mas logo eu fecho. Tenho que ter uma base, saber de tudo para poder me sentir segura."

Faço cursos porque se eu não tiver um padrão de unha eu não cresço. Então temos que ter conhecimento antes de ter um negócio porque senão eu posso até abrir, mas logo eu fecho.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Um sonho? Montar sua salinha em uma avenida movimentada de Pirituba e atender mais pessoas.

E sua história já serve de inspiração. Tanto que neste ano ela foi uma das escolhidas para a campanha da Beauty Fair, feira de beleza. Vanessa e outros três profissionais da área falam sobre o que tiveram que passar para assumir e controlar a própria carreira. "Esses dias uma menina me escreveu e falou que meu trabalho era uma inspiração. Nossa, quase soltei rojão aqui! É muito bom você servir de inspiração para alguma coisa para alguém".

Em meio a todas essas mudanças, seu maior desafio ainda é conciliar seus horários estendidos de trabalho com a rotina atribulada dos filhos. "Para mim, trabalhar não é um problema. Mas o mais difícil é conciliar tudo. Eu já aviso que tenho dois filhos, que se precisar levantar um pouco eu vou levantar". Mas está muito acostumada a administrar isso tudo. Enquanto conversa com a reportagem do HuffPost levanta um pouco. Ajusta o leite da mamadeira que a filha quis preparar para o irmão mais novo e pede para que os dois fiquem no quarto. Tudo com muita firmeza e paciência. Ali tem gás e energia de sobra para lidar com tudo isso, imagine.

Eu sou muito feliz. Você pode ligar para qualquer cliente minha que vai falar que eu amo meu trabalho. E escuto bastante a pergunta: 'você é só manicure?'

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O maior desafio ainda é conciliar seus horários estendidos de trabalho com a rotina atribulada dos filhos.

E agora ficou tudo mais fácil. Porque apesar da canseira ela se sente bem com o que escolheu fazer. "Eu sou muito feliz. Você pode ligar para qualquer cliente minha que vai falar que eu amo meu trabalho. E escuto bastante a pergunta: 'você é só manicure?". Só não, ela deixa bem claro.

"Eu respondo que eu sou manicure! E sou mãe, esposa, cozinheira. Tem gente que acha que eu sou coitadinha, pobrezinha... eu pago aluguel, condomínio igual qualquer pessoa. E sou manicure. Entra lá no meu Instagram! Eu faço umas unhas bombadas!"

Coisa de quem é profissional. E ama o que faz.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC