COMPORTAMENTO
27/06/2018 12:15 -03 | Atualizado 27/06/2018 12:20 -03

Qual o caminho para o Brasil ser um time 'mentalmente forte', mantra de Tite na Copa da Rússia

Suzy Fleury, ex-psicóloga da Seleção, diz que trabalhar com condicionamento mental no futebol é "dificuldade imensa".

Um jogo decidido nos últimos minutos no acréscimo do segundo tempo. Um pênalti que pode garantir a vitória. A reação inesperada do adversário. O grito de vaia da torcida. A crítica da imprensa. A expectativa de 200 milhões de torcedores. Os holofotes e as câmeras ligadas de 32 países do mundo.

Não é fácil ser um atleta em uma competição como a Copa do Mundo, e muitas vezes as fragilidades dos jogadores são expostas em lágrimas transmitidas ao vivo em milhares de telas.

No caso da Seleção Brasileira, a expectativa é de que os jogadores tragam o troféu para afastar de vez o fantasma de um jogo bizarro contra a Alemanha em 2014, que resultou no dramático 7 a 1.

Além da habilidade técnica de seus jogadores, o responsável pela equipe, Tite, tem apostado em outro mantra: ser mentalmente forte.

Mas o que significa "estar sob controle" para os atletas de alto rendimento? Como enfrentar o nível máximo de tensão em cada partida da fase de mata-mata? Está permitido ficar irritado e chorar em campo, mesmo se você for o Neymar?

Para Suzy Fleury, psicóloga do esporte que trabalhou com a Seleção Brasileira até os anos 2000, o time ainda tem um longo caminho de condicionamento e preparo mental, para além do domínio da bola.

"Os dilemas do atleta de alto rendimento são diferentes, sim. Eles precisam ter um condicionamento mental para lidar com a pressão da importância da partida e com a incerteza do resultado", explica Fleury, em entrevista ao HuffPost Brasil. A especialista fundou a Academia Emocional, empresa voltada para o desenvolvimento de equipes e pessoas. Por lá, ela já atendeu o próprio técnico Tite e até o meia Philippe Coutinho.

"Eles são atletas de referência e chocam quando apresentam comportamento infantil. Eles são seres humanos, sim. Mas chorar depois de vencer uma partida, como foi o jogo conta a Costa Rica? Não bate. É algo que destoa do comportamento esperado e que expõe uma vulnerabilidade do jogador."

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Neymar chora em campo após vitória do Brasil sobre a Costa Rica.

Leia os melhores trechos da conversa com a psicóloga:

HuffPost Brasil: Qual é o trabalho do psicólogo em uma equipe esportiva como a Seleção brasileira?

Suzy Fleury: A psicologia é uma das ciências que fundamenta as formas de pensar, sentir, agir e interagir do ser humano. Essa forma de pensar, sentir, agir e interagir define como as pessoas se relacionam com a realidade. A psicologia dá bases para isso. No caso do esporte, o rendimento é o objetivo principal de qualquer atleta. Uma equipe precisa ter desenvolvido a competência técnica (que é treinada incessantemente), a física (com os treinos de força, potência, velocidade), a tática (que são os esquemas e as estratégias para lidar melhor com o adversário) e a psicológica, que é o aspecto mental. Para você ter noção do quanto isso é deixado de lado, estamos em 2018 e ainda é preciso explicar qual que é esse trabalho [da psicologia do esporte] e o seu impacto.

Os dilemas enfrentados durante a preparação para uma competição são diferentes dos dilemas dos não-atletas? O ambiente no alto rendimento esportivo pode propiciar e agravar transtornos emocionais?

Os dilemas do atleta de alto rendimento são diferentes, sim. Eles precisam ter um condicionamento mental para lidar com a pressão da importância da partida e com a incerteza do resultado. Essa dobradinha não é uma preocupação quando estamos jogando a pelada do fim de semana. Mas na competição isso é definitivo. Na Copa do Mundo, então, todas as partidas são decisivas. Então pesa o diferencial competitivo: quanto melhor a equipe estiver trabalhada psicologicamente, mais vemos a diferença nos resultados. E isso quer dizer que os atletas têm um controle da ansiedade e conseguem focar na ação, que é o jogo. O trabalho do psicólogo do esporte não é um mero bate-papo. É um condicionamento. Ser condicionado mentalmente é uma habilidade que deve ser treinada sistematicamente e é tão necessária quanto a habilidade física.

O técnico Tite é conhecido pelo mantra "se manter mentalmente forte" e, muitas vezes, ele é visto também como o terapeuta da Seleção. Mas o que, afinal, quer dizer essa força mental?

Você é forte mentalmente quando, independentemente das circunstâncias, seja o clima ruim, a imprensa que está no pé, a torcida vaiando, você consegue permanecer em seu equilíbrio. O que está de fora da gente, a gente não tem controle. Eu posso estar no controle do que eu faço. Se eu consigo eliminar os estímulos externos, eu tenho força mental. Eu não vou alterar o meu controle emocional, eu decido o que vou pensar, e isso vai me dar mais condições de enfrentar os desafios e resolver os problemas que me cabem. Essa é a primeira lição que a gente precisa aprender. Aprender a controlar o que a gente pode controlar.

Na Copa do Mundo todas as partidas são decisivas. Então pesa o diferencial competitivo: quanto melhor a equipe estiver trabalhada psicologicamente, mais vemos a diferença nos resultados.

Por que se cobra tanto que Neymar tenha controle sobre as suas emoções?

É uma questão de expectativa alta, já que eles são atletas de referência e chocam quando apresentam comportamento infantil. Eles são seres humanos, sim. Mas chorar depois de vencer uma partida, como foi o jogo conta a Costa Rica? Não bate. É algo que destoa do comportamento esperado e que expõe uma vulnerabilidade do jogador. Se você tivesse perdido a partida, chorar era o esperado. O choro geralmente vem da tristeza. Mas você acabou de ganhar, senta no campo e vai chorar... Não é o esperado para um atleta de tamanha competência técnica e física. Por isso chama atenção. Isso pode ser um alerta, demonstra a fragilidade emocional do Neymar. E olha que não era uma partida decisiva... Nos próximos jogos, que vão ter o caráter de mata-mata, os atletas vão estar expostos ao nível máximo de tensão. Quem estiver emocionalmente vulnerável vai se abalar mais. O Neymar não pode se deixar provocar; senão, ele é expulso do campo [ele levou cartão amarelo no jogo contra Costa Rica]. Se ele não controlar esses estímulos e se blindar, isso vai afetar as circunstâncias do jogo, que é a verdadeira disputa.

Eu sempre vou me lembrar da fala do Romário, em uma das Copas que ele jogou. Prestes a começar a partida, ele foi questionado se estava nervoso. Ele respondeu que ia entrar em campo tranquilo, porque ele jogava futebol todos os dias, e isso era o que ele mais sabia fazer. Com essa fala, ele passou uma sensação de leveza que nenhuma pressão externa poderia afetar. Isso é força mental.

Em coletiva, Tite chegou a afirmar que ele se preocupa mais com a performance do que com o resultado. O empate no primeiro jogo e a vitória apertada no segundo, após uma boa trajetória do time antes da Copa do Mundo, nos faz questionar: como lidamos com as frustrações e as expectativas?

Aprendi muito com o Bernardinho e o Zé Roberto [técnicos do vôlei]: placar é detalhe. A preparação é tudo. Por isso o treinamento bem estruturado e sistematizado condiciona e nos leva ao resultado — incluindo o treinamento para os momentos críticos, de tensão, em que precisamos utilizar as técnicas que afastam as distrações, os pensamentos que não vão nos ajudar em nada. E a equipe tem que estar preparada para o limite, o nível máximo de tensão, para que as tensões do processo fiquem até menores. É preciso aprender a lidar com os obstáculos que aparecem no caminho.

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Tite é o treinador da Seleção cujo mantra é "ser mentalmente forte".

Se eu consigo eliminar os estímulos externos, eu tenho força mental. Eu não vou alterar o meu controle emocional, eu decido o que vou pensar, e isso vai me dar mais condições de enfrentar os desafios e resolver os problemas que me cabem.

A senhora esteve com a Seleção até 2000. Como foi essa experiência?

Na Seleção, eu tive uma dificuldade imensa. Os atletas não tinham nenhum tipo de trabalho psicológico em seus clubes de origem. Não tinham nada, eu tive que começar do zero. E não dava tempo de fazer esse trabalho, né? A convocação são tiros curtos, é pouco tempo para trabalhar o profissional, mesmo em uma preparação para um Mundial.

Os atletas convocados chegam fisicamente preparados, mas na minha época de Seleção, por exemplo, apenas 2 atletas tinham experiência com trabalho psicológico no grupo de origem. Eu fiquei tão agoniada com aquele contexto que se você me perguntar hoje "do que adianta ter um psicólogo só no Mundial", eu não sei o que te responder. Ok, você está ali, dá uma assistência e a cobertura não fica zerada.

Mas o ideal é que os clubes assumissem esse compromisso desde o treino de base. E aí, o psicólogo que acompanhasse o time para um Mundial fosse responsável apenas pelos ajustes. E pelo trabalho de fatores situacionais da competição, seja a lesão de um atleta ou a troca de equipe.

Então, quando eu trabalhei na Seleção, eu tive que repensar a estratégia de atuação na minha carreira. Foi por isso que eu abri um "academia mental". O Philippe Coutinho, que hoje está no time, passou comigo. Eu comecei o trabalho com ele em 2015. Fizemos um preparo focando em motivação, ansiedade e autocontrole. Ele passou por um processo, não foi 1 atendimento ou 2. Depois, com a mudança dele para o Barcelona, a gente fez um acompanhamento de complementação para a adaptação dele com a mudança de clube, de torcida, de país. O Tite e o Matheus [filho do técnico e auxiliar da Seleção] fizeram um curso de coaching comigo. Nesse curso, eles aprenderam os fundamentos e as principais práticas da preparação mental para as equipes.

Então, ao longo da minha experiência, hoje eu me sinto mais confortável em dizer duas coisas: os clubes não ligam para o aspecto psicológico do atleta e a questão da saúde mental não é restrita ao esporte, longe disso.

O atleta que procura ajuda, ele assume esse processo por conta própria. Não há um incentivo dos times. Você tem que ser muito bem informado para superar os estigmas e ir em busca desse condicionamento mental.

Em paralelo, sabemos que isso é um problema mundial. Somos 209 milhões de pessoas no Brasil e, de acordo com a OMS, ocupamos o 1º lugar no mundo de transtorno de ansiedade. Então, é algo que nos afeta como sociedade e isso se reflete em tudo, inclusive no esporte.

Existe outro fator ainda. Os psicólogos em nosso País são, em sua maioria, clínicos. O trabalho com o atleta é diferente porque está ligado à performance. Existem vários fatores característicos do ambiente esportivo que exigem um profissional mais focado. O atleta só vai procurar um psicólogo se ele tiver muito esclarecimento sobre essa ferramenta. É preciso de estrutura e compreensão de que trabalho mental é um fator de empoderamento e não só para tratar de uma doença.

O Brasil não perdeu da Alemanha, o Brasil perdeu do Brasil.

O que você acha que aconteceu na partida do 7x1 em que se percebeu completa falta de sintonia entre os jogadores, chocados a cada novo gol da Alemanha? O cuidado da saúde mental de cada um dos jogadores e do time como um todo pode ajudar a evitar um novo 7 a 1?

O 7 a 1 foi um exemplo clássico: existem momentos em que simplesmente a gente dá pane. O atleta pensa em tudo, menos na bola. Ele perde o nível de atenção e concentração. Sim, poderíamos ter reagido diferente naquele jogo se estivéssemos mais preparados. Vimos ali no campo uma equipe tecnicamente muito boa. Aliás, acho que não há dúvida da qualidade do futebol do Brasil. Mas se eles tivessem jogado muito bem e perdido, a historia seria outra. No caso do 7 a 1, o que traumatiza não é só o placar, mas como aconteceu. Foram 3 minutos com 3 gols seguidos sem qualquer capacidade de reação do Brasil. Eles ficaram absolutamente acuados.

E o primeiro passo da preparação mental é justamente trabalhar a capacidade de enfrentamento: como buscar o melhor daquela situação para virar o resultado a favor do meu time? A gente não viu isso. na partida contra a Alemanha. O segundo passo é conseguir encontrar soluções com agilidade e o terceiro é a capacidade de tomar decisões, mesmo sob pressão.

Nada disso foi visto. Em equipes treinadas mentalmente, a gente percebe essas habilidades, mesmo que o time acabe perdendo o placar. Naquele dia, o Brasil não perdeu da Alemanha, o Brasil perdeu do Brasil.