ENTRETENIMENTO
27/06/2018 09:40 -03 | Atualizado 27/06/2018 10:59 -03

Por dentro de 'Hereditário', um drama familiar aterrorizante e difícil de desgrudar os olhos

Toni Collette, Alex Wolff e o roteirista e diretor Ari Aster falam sobre um dos filmes mais assustadores jamais produzidos antes.

Depois de ler um trecho do roteiro de Hereditário, novo filme de Ari Aster, Toni Collette estava confusa. Os agentes da atriz tinham classificado o filme como terror – gênero familiar para Collette, que foi indicada ao Oscar por sua aparição em O Sexto Sentido --, mas o que ela tinha nas mãos parecia mais um drama. E não era o que ela estava procurando.

"Tinha dito para minha equipe: 'Não quero nada pesado. Quero só fazer comédias por um tempo'", disse a atriz numa entrevista recente. "Aí eles mandaram aquilo e disseram: 'A gente sabe o que você pediu, mas por favor dê uma olhada'."

Quando conhecemos a personagem de Collette em Hereditário, uma artista de dioramas chamada Annie Graham, ela está na igreja, fazendo o elogio fúnebre da sua mãe. A mãe era uma "mulher difícil", com "rituais privados", lamenta Annie. Alguma coisa está errada com aquela morte. Em casa, a saga da família de luto continua se desenrolando. Charlie (Milly Shapiro, do musical da Broadway Matilda), a filha de 13 anos, faz as perguntas sobre a morte que se esperam de uma adolescente. O filho, Peter (Alex Wolff, de The Naked Brothers Band, da Nickelodeon), é um folgado do ensino médio que se tranca no quarto, emburrado. Steve (Gabriel Byrne), o marido de Annie, é psiquiatra e tenta manter tudo e todos intactos. O clima de terror se instala em torno da família enlutada: a aparição de um fantasma, um ruído que se repete, uma invasão de insetos, um passarinho que se choca com a janela, a violação do túmulo da mãe de Annie.

Do drama daquele lar, nasce o terror.

"Quando estava tentando vender o filme, o apresentava como uma tragédia familiar que vira pesadelo, como a vida pode parecer um pesadelo quando as coisas dão muito errado", diz Aster.

O diretor estreante encarou o projeto armado de vários fundamentos cinematográficos. Alguns pertencem ao gênero "melodrama doméstico"; outros vêm do terror tradicional. Para Wolff, ele descreveu o filme como uma mistura de O Bebê de Rosemary com Gente Como A Gente. Collette viu toques de Tempestade de Gelo. Aster exibiu Inverno de Sangue em Veneza para a equipe e fez referências à cena da morte de Janet Leigh em Psicose". E o tempo todo, como ele agora percebe, Aster estava canalizando psicodramas como Entre Quatro Paredes, Gritos e Sussurros e o catálogo naturalista de seu diretor predileto, Mike Leigh (Agora ou Nunca, Segredos e Mentiras).

Collette não tinha como dizer não. Ela estava tentando evitar internalizar outro papel pesado, à la Velvet Goldmine, As Horas, Ao Entardecer, Já Estou com Saudades e a série United States of Tara – mas o roteiro de Aster a convenceu, mesmo que a atriz tenha deixado a paixão pelos filmes de terror na adolescência.

Foi a decisão certa. Hereditário foi um dos hits inesperados do Festival de Cinema de Sundance deste ano. As resenhas disseram que o filme é um dos mais assustadores dos últimos tempos. ("Nunca passei por nada parecido", disse Collette sobre o boca-a-boca positivo.) O burburinho antes da estreia foi parecido com o de um blockbuster modesto, e a distribuidora indie A24 apostou num lançamento nacional na mesma época de Oito Mulheres e Um Segredo. Em uma temporada cheia de blockbusters de fácil digestão como Deadpool 2, Han Solo: Uma História Star Wars e Jurassic World: Reino Ameaçado, eis um produto que quer chocar as pessoas de uma maneira que o filme de terror médio simplesmente não é capaz.

"Com certeza foi uma surpresa agradável ver o filme tão bem acolhido, porque no fim das contas o objetivo dele é incomodar bastante", diz Aster. "É um drama familiar sério que foi contrabandeado em um filme de terror, e acho que muito bom que ele seja promovido como filme de terror, porque assim atingimos um público mainstream. Se não fosse um filme de terror, você teria só um drama pesado e desesperador, e quem vai assistir isso?"

O fantasma que aparece na casa de Annie é meio que uma distração, mas isso não quer dizer que o terror fique cada vez mais palpável depois da aparição. "Hereditário" vai ficando cada vez mais sinistro. Os sustos aumentam junto com a espiral da família. Enquanto o clã tenta se recuperar, acaba enfrentando outra perda. A partir daí, o histórico da família cruza de maneiras imprevisíveis com o processo de luto: brigas, pânico, sessões mediúnicas, mitologia oculta, uma casa na árvore assustadora e uma referência chave à princesa grega Ifigênia – e o tempo todo você está encolhido na cadeira, rindo de nervoso com os estranhos da sala de cinema.

Para diagramar a estética assombrosa do filme, Aster escreveu um documento de 130 páginas, detalhando cena por cena: onde a câmera ficaria em relação aos atores, como seriam filmadas as cenas mais complicadas, como a música (e os ruídos) entrariam no filme. Como custaria muito caro usar uma casa de verdade, a equipe construiu sets em um estúdio. (Hereditário teria custado menos de 10 milhões de dólares.)

"Ari é muito controlador – no bom sentido, ele é muito específico, e acho que ter o próprio set foi uma maneira de manter controle sobre o ambiente e usar bem os espaços", diz Collette.

Wolff foi um pouco mais contemplativo. "Cara, eu queria que tivéssemos teto e filmássemos em uma casa de verdade", diz ele, rindo. "Teria sido muito mais fácil. Mas acho que acrescentou ao filme. Realmente acho que fiquei com a cabeça abaixada e não olhei para cima. Pedi para todo mundo me chamar de Peter. Me torturei durante três meses... Aprendi uma ótima lição fazendo ['Jumanji: Bem-Vindo à Selva']. Estava sentado e [o diretor Jake Kasdan] disse: 'OK, agora suas mãos dissolvem e você voa para dentro da TV e você grita'. Eu pensei: 'Como faço isso?' E aí pensei: 'Foda-se, estou voando pra dentro da TV!' Quando você tem esse tipo de atitude, não tem medo. Gosto desse 'foda-se'. Vai lá e faz."

Você precisa de um mantra "foda-se" só para assistir esse filme, que Aster cortou das três horas iniciais para mais acessíveis 127 minutos. Na forma final, Hereditário nos força o tempo todo a recalibrar nossas respostas para os mistérios chave. Annie é boa mãe? O que os dioramas dela nos dizem sobre o comportamento dos filhos? Onde é que isso vai parar? Quanta devastação aguenta uma tribo? As pistas aparecem aos poucos.

"Queria que o filme fosse de uma tradição mais antiga de filmes de terror, que não têm pressa e são sobre alguma coisa", diz Aster. "São tantos filmes de terror sobre um casal passando por luto, mas parece que é só um mecanismo para introduzir os sustos. Sabia que queria fazer um filme sobre sofrimento."

Mesmo que O Bebê de Rosemary seja uma influência óbvia, Hereditário tem algo em comum com The Babadook, A Bruxa, Deixe Ela Entrar e O Lamento, filmes recentes que usam a sensibilidade do cinema de arte para avançar os momento clássicos do terror. Os discípulos do gênero consomem tudo e mais um pouco – basta observar o sucesso de Um Lugar Silencioso, It – A Coisa, Corra! e Uma Noite de Crime --, mesmo que a maioria dos filmes dependam de táticas baratas e histórias rudimentares. Aster queria algo mais.

"Fazer sentido que as pessoas tenham de fazer essa distinção, porque tem muita merda por aí", diz ele. "É porque existe um público pronto, e o algoritmo de risco-recompensa funciona a favor dos estúdios. Há muitos estúdios que produzem esses filmes cinicamente. São filmes que atendem a demanda de maneira muito, muito superficial. Então é importante fazer a distinção entre os que só querem dinheiro e os produtos mais sinceros."

Onde Hereditário se encaixa? Na segunda categoria, com certeza.