27/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/06/2018 00:24 -03

Yara de Cunto: A atriz e bailarina que insiste em desafiar o próprio tempo

Aos 79 anos, ela afirma que a dança é muito mais do que uma profissão, faz parte de quem ela é: “Quando você mexe com o seu corpo você percebe o mundo, você fala a sua verdade e mostra o seu interior."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Yara De Cunto é a 112ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

"Todo mundo quando está em cena tem um pouco medo, mas eu enfrento e vou". E é assim, indo sem pestanejar, que Yara de Cunto, 79 anos, foi e ainda vai. Uma das pioneiras do movimento de dança contemporânea do Distrito Federal, que desafiou seu tempo no teatro de vanguarda nos anos 50 no Rio de Janeiro, com a voz suave e o corpo delicado, ela ganha força é com a arte. É nos palcos que ela se alimenta e de onde tira tantas histórias pra contar. Ela agora não só se envolve na curadoria de festivais como ainda participa de espetáculos sempre que quer e pode.

De tempo em tempos, ela recebe um telefonema de Fernando Guimarães, que junto com o irmão Adriano, formam uma dupla de diretores do teatro brasileiro contemporâneo, para tomar um café. Quase sempre nesses encontros surge um convite. "Eu já digo logo, não me chama", brinca Yara. Da última vez foi para fazer uma participação na peça Apartamento 403. "Ele queria que eu fizesse uma avó que fuma maconha e fala um monte de palavrão. Eu disse: não, como eu vou chamar meus netos pra ver essa peça? Mas eu fui lá e fiz, né? Depois me arrependi de não chamar meus netos, mas não quis dar mau exemplo", conta bem-humorada.

Estar no palco é e sempre foi uma superação. Sou tímida, mas enfrento, sempre vou.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Para Yara, a dança é muito mais do que uma profissão, faz parte de quem ela é, e de toda a sua história.

Yara nasceu em Ponta Grossa no Paraná, mas foi morar no Rio de Janeiro ainda pequena. Com 8 anos entrou pra escola de dança do Teatro Municipal da cidade e não parou mais. Na época, ia aproveitando cada técnica nova que aparecia, cada oportunidade que surgia. A primeira chance no teatro foi com 15 anos quando o cenógrafo Fernando Pamplona a chamou pra fazer um papel na peça que ele precisava apresentar em um curso com Dulcina de Moraes. Em Calúnia, uma peça que falava sobre a relação conturbada e afetuosa de duas professoras, que para meados dos anos 50 era totalmente revolucionária, trabalhou com Tônia Carrero. Além disso, fazia participações na extinta TV Tupi com um tele-teatro ao vivo. "A gente tinha dois dias para pensar no texto e depois se atirava e pensava: seja o que Deus quiser".

Quando eu participo do trabalho, eu enfrento, faço, preciso cumprir. E é algo que levei pra minha vida toda.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Yara acredita que vocação e coragem são importantes pra seguir esse caminho tão tortuoso.

Ser artista, em especial dançarino, não é tarefa fácil no Brasil. Yara acredita que vocação e coragem são importantes pra seguir esse caminho tão tortuoso. "Acho que ninguém segue se não tem uma tendência muito forte. É claro que a gente vai porque as oportunidades vão se abrindo e você se sente bem fazendo aquilo. E você precisa direcionar o preconceito das pessoas que estão a nossa volta, até por uma questão financeira mesmo. Não é uma profissão fácil e não está regulamentada até hoje. É muito difícil ser artista, mas eu sempre digo: faça tudo".

Fazer dança e teatro nos anos 50 era revolucionário e Yara apenas dizia sim pra cada porta que se abria. "Claro que era muito complicado, e não sei como meus pais tiveram essa visão de vida e dar arte", lembra. Quando casou mais tarde e teve dois filhos, deu um tempo na profissão por dez anos. Mas não ficava desatualizada, fazia um curso aqui, outro ali. Por causa do marido militar se mudava muito e foi parar em Curitiba, chegando lá encontrou uma velha amiga que era diretora do Teatro Guaíra. Voltou a dançar e tempos depois foi convidada para fundar o corpo de baile da casa. "Eu sempre gostei muito de dançar e dar aula, mas coreografar foi uma revelação maravilhosa pra mim, era mais minha cara".

Na década de 70, a transferência foi pra a capital federal e ela começou a dar aulas de dança contemporânea na Universidade de Brasília, onde criou o primeiro grupo do DF, o Asas e Eixos. "Trabalhamos muitas coisas experimentais e tinha alunos talentosíssimos, foi muito marcante e trouxe uma nova maneira de ver a dança por estar dentro do mundo acadêmico". Yara ainda circula pelos palcos e recentemente fez a curadoria da última edição Movimento Internacional de Dança que aconteceu em abril deste ano.

As coisas acontecem de forma meio cósmica na dança contemporânea quando aparece um avanço e ela vai se modificando lindamente.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Fazer dança e teatro nos anos 50 era revolucionário e Yara apenas dizia sim pra cada porta que se abria.

Há dois anos ela lutava contra um ventilador gigante par servir um chá da tarde na peça Sopro, com texto de Samuel Beckett e direção dos irmãos Guimarães. Isso ela fazia mesmo com um problema de saúde, decorrente de uma lesão na cabeça do fêmur. Ficou um mês em cartaz em São Paulo. Ela diz que agora está mais parada, que quer estar envolvida mais em curadorias, adora consumir cultura e é assídua de apresentações na capital, mas sempre que surge algum convite para voltar os palcos, acaba dizendo sim.

Quando a gente faz arte encontra um canal para mostrar a nossa maneira de ser e o nosso pensamento.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Yara tem 71 anos anos de carreira, e se expressa das mais diversas formas.

Para Yara, a dança é muito mais do que uma profissão, faz parte de quem ela é, e de toda a sua história. "Quando você mexe o corpo, também mexe a cabeça. Você acaba tendo uma integração muito maior de tudo. Se você tem uma ideia, uma vontade e uma luta, você coloca pra fora isso, você percebe o mundo, você fala a sua verdade e mostra o seu interior". E com 71 anos de carreira se expressando das mais diversas formas, esta dançarina sabe muito bem o que quer dizer.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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