POLÍTICA
27/06/2018 12:26 -03 | Atualizado 27/06/2018 14:03 -03

Roda Viva leva colaboradores de Bolsonaro para entrevistar Manuela e Boulos

'Não fui convidado por ser colaborador do Bolsonaro, mas como representante do agronegócio', disse Frederico D'Avila ao HuffPost.

Reprodução/TV Cultura
Manuela D'Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL) durante participação no Roda Viva, da TV Cultura.

A entrevista de Manuela D'Ávila (PCdoB)no Roda Viva de segunda-feira (25) chamou a atenção do público pela quantidade de vezes em que a pré-candidata à Presidência foi interrompida pelos entrevistadores e, ainda, pela presença de um colaborador de Jair Bolsonaro (PSL), também pré-candidato ao Planalto, na bancada do programa: Frederico D'Ávila, diretor da Sociedade Rural Brasileira.

A presença de um adversário de presidenciável também foi vista no dia 7 de maio, quando o Roda Viva levou o advogado e empresário Fabio Wajngarten para compor a bancada que entrevistou o pré-candidato Guilherme Boulos (PSOL).

Reportagem publicada em fevereiro pela revista Piauí e assinada pelo o jornalista Ricardo Lessa, que hoje comanda o Roda Viva, conta que Wajngarten conversa "frequentemente" com Bolsonaro há 2 anos e promove "encontros entre o pré-candidato e empresários da comunidade judaica e de outros credos".

Lessa assumiu o Roda Viva em abril deste ano como parte de uma estratégia da TV Cultura para levar mais "pluralidade" ao programa, como disse o jornalista à época. Uma de suas missões seria ampliar os perfis ideológicos de entrevistados e entrevistadores.

"O mais tradicional programa de entrevistas da TV brasileira", nas palavras de Lessa, é agora alvo de uma petição online, disponível na plataforma Avaaz. O documento, que às 13h desta quarta-feira (27) já tinha 40 mil assinaturas, exige que a TV Cultura se retrate pela "postura desrespeitosa e machista" com que Manuela foi tratada e ceda novo espaço à pré-candidata.

Além de Manuela e Boulos, já estiveram no Roda Viva os pré-candidatos Álvaro Dias (Podemos), Marina Silva (Rede), João Amoêdo (Novo), Henrique Meirelles (MDB) e Ciro Gomes (PDT). Bolsonaro foi convidado, mas ainda não aceitou.

Na última segunda-feira, o público que assistia à entrevista de Manuela soube do vínculo entre Frederico D'Ávila e Bolsonaro pela pré-candidata.

"Acho interessante que o programa sempre comece dizendo que os entrevistados não impuseram nenhum veto [aos entrevistadores], porque eu acredito em um Brasil em que as pessoas que representam ideias diferentes, como eu e tu, podem discutir", disse Manuela. "Tu coordenas uma parte da campanha do Bolsonaro", continuou, dirigindo-se a Frederico.

O HuffPost Brasil entrou em contato com a TV Cultura para saber quais os critérios utilizados na seleção dos entrevistadores, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Frederico D'Ávila coordena o eixo de agronegócio do programa de Bolsonaro. Filiado ao PSL, ele diz que não se sentiu impedido a participar do Roda Viva porque é apenas um "colaborador" do ex-militar.

"Não existe campanha ainda, existem colaboradores de áreas e, na área do agronegócio, sou eu e outros. Não fui convidado por ser colaborador do Bolsonaro, mas como representante da classe [do agronegócio]", disse Frederico ao HuffPost Brasil.

Uma das perguntas que fez a Manuela, contudo, tratava de proposta já defendida por Bolsonaro e que nada tem a ver com produção agrícola ou economia: castração química de estupradores.

"Que a tua filha possa viver no mesmo Brasil que eu quero para a minha filha. Que ninguém ache que ela pode ser estuprada quando ela é bonita ou feia, porque as pessoas se respeitam", respondeu Manuela, em referência à declaração de Bolsonaro de que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) "não merece ser estuprada".

Interrompendo a fala da entrevistada, Frederico defendeu a castração química como solução e, na sequência, em novo ato de manterrupting, disse que "não existe cultura [de estupro no Brasil], isso é falta de punição".

De acordo com levantamento do PCdoB, Manuela foi interrompida 62 vezes durante as duas horas de programa. Para efeito de comparação, Ciro Gomesfoi interrompido 8 vezes no Roda Viva exibido em 28 de maio, ainda segundo o PCdoB.

As interrupções à entrevistada e a escolha da bancada renderam apoio dos presidenciáveis Ciro e Boulos, da ex-presidente Dilma Rousseff e de colegas como o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ).

O PT, em nota, afirmou que o Roda Viva hoje representa o "reacionarismo" da sociedade.

"O PSDB, que administra o estado de São Paulo há mais de 20 anos e é responsável pela gestão da TV Cultura, é o grande responsável por transformar o programa, respeitado em outros tempos como espaço de debate democrático, em um 'puxadinho' dos tucanos e do reacionarismo mais retrógrado que existe na sociedade brasileira", diz o PT.

Boulos no Roda Viva

A participação de Fabio Wajngarten no Roda Viva com Boulos foi menos barulhenta, e o fato de ele colaborar com Bolsonaro passou despercebido — pelo menos para o público.

No programa, o empresário insistiu que o pré-candidato do PSOL deveria buscar "uma coalizão verdadeira, independentemente de direita, esquerda ou centro", para fazer o Brasil "avançar".

Wajngarten também saiu em defesa dos empresários e disse que a classe está sufocada por impostos, juros e encargos trabalhistas.

Conforme relatado na matéria de Lessa na Piauí, Wajngarten foi um dos intermediários da vinda da empresa alemã GFK ao Brasil para medir a audiência da TV. Ele se uniu a Meyer Nigri, fundador da construtora Tecnisa, para colaborar com Bolsonaro, e a dupla se ofereceu para ajudar o presidenciável a montar a equipe de pré-campanha. "Não somos nada oficialmente", disse Wajngarten à publicação.