26/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 26/06/2018 00:00 -03

Tertuliana Lustosa: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político

Piauiense é transgênero e acredita que a arte pode ultrapassar o controle dos corpos. “É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tertuliana Lustosa é a 111ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Uma jovem de 18 anos, nascida no interior do Piauí, chega ao Rio de Janeiro para começar os estudos. Esta é uma história comum, que provavelmente acontece todos os dias, e é também a história de Tertuliana Lustosa, hoje com 21 anos. Nascida em Corrente mas tendo passado boa parte da vida em Salvador, na Bahia, a moça aterrissou no Rio para cursar História da Arte na UERJ, movida pelo amor que sempre teve pela literatura. Mas paralelamente à mudança, também aconteceu o que Tertuliana define como "diáspora territorial de gênero". Poucos meses após chegar na universidade, ela iniciou seu processo de transição.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Tertuliana explica que o início não foi fácil. Todo o acompanhamento médico e psicológico fundamental para o procedimento não aconteceu, e por medo. Ela conta que é comum, em pessoas transgênero, o receio de sofrer tratamento transfóbico por parte dos profissionais de saúde. Assim, ela começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

Às vezes é só uma pessoa trans que vai te tratar bem.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tertuliana começou o processo de transição hormonal por conta própria, recém saída da adolescência.

"Não é recomendado, nunca! Mas as pessoas trans fazem porque os médicos são transfóbicos. Se você chega lá com passabilidade cis, eles dão o remédio e até te tratam no pronome correto. Mas se chegar lá antes de tudo, eles vão questionar se temos certeza. E é um momento super delicado, porque você não quer ouvir esse tipo de coisa, e às vezes é só uma pessoa trans que vai te tratar bem", explica.

Pouco tempo depois, ela buscou ajuda em um hospital que, sim, conseguiu acolhê-la e orientá-la da melhor forma. Com acompanhamento da assistência social e psicológica, Tertuliana iniciou o processo de mudança do nome e conseguiu se aproximar cada vez mais de quem ela realmente é. "Eu tive sorte, porque esse apoio é muito importante", define.

Estar no Rio também é uma forma de se redescobrir o tempo todo. No período anterior à transição, se sentia muito "fechada" em expressões culturais que sempre reconheceu como bonitas, mas que exigiam uma performance: aquelas em que tocavam ritmos como pagode baiano e forró. "Eu não queria estar ali com aquele corpo que eu tinha. Só que na verdade não era com aquele corpo, mas com uma performatividade de uma masculinidade que não era minha", conta.

Eu não queria estar ali com aquele corpo que eu tinha.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente, Tertuliana ministra oficinas de literatura Escritos Trans, na UERJ. Um dos formatos usados por ela é o cordel.

Hoje, a música atravessou sua vida de vez e ficou. Tertuliana também trabalha como DJ e estuda formas de incluir mais MCs LGBT nas festas da cidade. "O funk foi meu momento de liberdade, por mais que eu não seja 'cria' do Rio", conta ela.

A primeira experiência como DJ aconteceu quase sem querer, na Casa Nem. O local fica no centro do Rio e abriga pessoas transgênero em situação de vulnerabilidade. Ali, também, foi a primeira sede do curso pré-vestibular, Prepara Nem, direcionado ao mesmo público. Depois de observar uma DJ transgênero, quase por instinto Tertuliana tentou, também. E deu certo: aos poucos dominou as carrapetas e encontrou parte de sua liberdade.

O funk foi meu momento de liberdade.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A tatuagem foi feita pela estudante Matheusa Passarelli, assassinada em maio deste ano no Rio.

A Casa Nem também marca a vida de Tertuliana por outros motivos. Foi lá, em 2015, que ela começou a dar aulas de artes e literatura no pré-vestibular, quando "ainda estava aprendendo a ser professora".

Depois, ela começou a dar aulas como convidada também em outras instituições. Até chegar ao momento atual, em que ministra a oficina de literatura "Escritos Trans", na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Na oficina, que está em seu primeiro semestre, a professora trabalha termos relacionados à causa transgênero, e também lança mão da criatividade para demarcar seus espaços.

"Os termos relacionados [a transexualidade] vêm de um estudo de gênero contemporâneo da Europa, como transgênero ou transexual. Eu senti a falta de ter os termos da militância, um dos termos é tranvestigenere, então também tem o termo que eu criei, sertransneja. É um termo para complexificar a existência trans, uma existência trans de uma diáspora territorial de gênero. Saio do território da masculinidade e vou pra outro que pode não ser nem um, nem outro [da feminilidade]", explica.

Sertransneja é um termo que complexifica a existência trans, de uma diáspora territorial de gênero.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ser professora, para Tertuliana, é um ato político.

O termo sertransneja, aliás, está marcado na pele. A tatuagem foi feita pela estudante Matheusa Passarelli, assassinada em maio deste ano no Rio. Theusa, como conhecida pelos amigos, também era uma artista. Cabe a Tertuliana, durante a entrevista, relembrar a grandeza da amiga, ainda que em poucas e emocionada palavras. "Ela era incrível", define.

A criação artística de Tertuliana a levou a lecionar como convidada em escolas públicas, também. Ela conta que já houve casos dos alunos desistirem de participar das oficinas ao saberem que a professora não é cisgênero e/ou sobre a temática de algumas peças artísticas. Mas o saldo final foi positivo. "Alguns levaram com naturalidade e produziram a xilogravura. Eu acho que é super potente e importante ter pessoas trans lecionando porque aí não precisa trazer a temática, só a presença mostra que tem uma potencialidade", acredita ela, que pretende mergulhar também em outras linguagens artísticas.

Ser professora, para Tertuliana, é um ato político. "As pessoas trans são infantilizadas e colocadas num lugar de impotência, num lugar de pessoas que ocupam sempre lugares marginalizados no mercado de trabalho e na sociedade. Ter pessoas trans fora disso, principalmente na educação, é fundamental", observa. E completa: "Ter uma professora trans na infância pode ser uma experiência importante para o resto da vida [de uma criança]."

As pessoas trans são infantilizadas e colocadas num lugar de impotência.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis e xilogravuras, arte comum à região Nordeste.

Mas ela explica que seu trabalho pode, e vai, muito além do que o senso comum acredita. "Incomoda ser convidada para expor ou falar somente sobre a temática trans. Meu trabalho não é sobre isso, ele passa por uma série de questões e não necessariamente precisa passar pela questão trans."

Recentemente, ela também tem reencontrado textos que escreveu ainda na infância, época em que também ganhou um concurso literário. As características do que era feito naquela época se contrapõem à liberdade artística que Tertuliana alcançou. "As personagens eram mulheres assustadoras, um pouco sombrias. Na época eu tinha uma paixão muito grande pelas mulheres, mas uma dificuldade muito grande de lidar, porque a sociedade me colocava nesse lugar, dessa imposição heterossexual", explica ela, que ressalta que sempre encontra uma história de transformação na literatura produzida naquela época.

Hoje, os trabalhos de Tertuliana podem ser vistos principalmente em cordéis e xilogravuras, arte comum à região Nordeste. "Depois da transição, não fiquei mais tão presa. Não é o cabra macho, mas é a trava da peste. A reinvenção desses termos também é importante", conta.

A ideia do "cabra macho, viril e com muitos filhos", inclusive, é combatida pela professora. Estes e outros termos, segundo ela, são usados como ferramentas para controle dos corpos. "Essa tradição nordestina muito fechada, que os grandes centros até têm preconceito com ela, surgiu com uma catequese. Esses corpos que foram introduzidos aqui dessa forma, por essa trama colonial, podem virar o jogo. A gente pode virar o jogo quando desobedece o controle dos nossos corpos", afirma Tertuliana.

A estudante ainda sonha em voltar a viver em Salvador, e deixa nítido que o objetivo do seu trabalho e de outros artistas contemporâneos é "repensar a cultura nordestina" e ampliar os conceitos acerca dela. "É o momento de dizer que a tradição não se resume no controle do corpo e na catequese, nossa tradição está muito mais além disso", define a sertransneja.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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